CADILLAC

Se existe uma montadora de automóveis que virou sinônimo de luxuosos carros grandes e limousines, essa marca é a CADILLAC. Poucas marcas definem a ousadia norte-americana em desenho automobilístico como ela, que ao longo dos anos conquistou clientes importantes como presidentes, ministros e astros do cinema e do esporte, que desfilam com seus automóveis imponentes.

A história começou em 1890, quando Henry Martyn Leland se uniu a Robert C. Fauconer para fundar na cidade de Detroit a Leland Falconer & Norton, uma empresa especializada em produzir conjuntos de engrenagens e ferramentas de precisão. Leland possuía uma grande experiência com equipamentos mecânicos, pois havia trabalhado antes na indústria de armas Colt e na Brown & Sharp, que produzia micrômetros e outros equipamentos de precisão, adquirindo, assim, sua obsessão pela precisão. A crescente demanda por bicicletas no final do século XIX fez com que a empresa prosperasse como fornecedora de engrenagens. Na virada do século, um fabricante de automóveis chamado Ramson Eli Olds contratou a empresa, agora chamada L & F, para produzir conjuntos de transmissões para seus carros que não apresentassem os problemas de ruídos que as feitas por ele próprio estavam tendo, e que pudessem ser intercambiáveis entre carros sem necessidade de remanufatura.

Tamanho foi o sucesso das transmissões feitas pela L & F que esta ganhou em 1901 um contrato para fornecer cerca de 2.000 motores para Olds. Os motores construídos por Leland forneciam uma potência 3.7 cv contra 3.0 cv dos motores fornecidos pelos irmãos Dodge para a mesma Olds, atingindo ainda maior velocidade com menor atrito do que os motores de seu concorrente. Ainda não satisfeito com o desempenho de seus motores, Leland usou toda a sua experiência para aperfeiçoar o original desenvolvendo um novo motor capaz de atingir 10,25 cv, o qual foi oferecido à própria Olds. No entanto a empresa estava satisfeita com o resultado das suas vendas e preferiu não investir no novo motor que aumentaria seus custos e demandaria tempo para adaptar o método de construção de seus carros.

Em agosto de 1902 dois investidores, William Murphy e Lemuel W. Bowen, procuraram Leland para oferecer-lhe uma empresa que estava sendo liquidada. Essa empresa, fundada em 1899 com o nome de Detroit Automobile Company, havia fabricado alguns poucos carros antes de pedir falência em 1900. Em 1901 foi reerguida e reorganizada pelo seu mecânico chefe que a rebatizou com o seu próprio nome, Henry Ford Company. Porém depois de três meses a empresa estava novamente falida e Henry Ford, ele mesmo, que fundaria a FORD pouco depois, deixou a sociedade. Os investidores então procuraram Leland com o objetivo de oferecer-lhe a fábrica e os maquinários da empresa. Após inspecionar a fábrica, ele teve uma grande ideia e procurou os investidores com o objetivo de convencê-los a desistirem de se desfazerem do empreendimento. Ele demonstrou que acreditava no futuro do automóvel e que lhes tinha a oferecer um novo motor, o mesmo que foi oferecido anteriormente a Olds, com quase o triplo da potência dos que eram usados, além de apresentar muito menos problemas que os demais disponíveis no mercado. Impressionados com a oferta, os investidores não só aceitaram sua ideia como também o colocaram no comando da nova empresa. Oficialmente no dia 22 de agosto de 1902, na cidade de Detroit, surgia a CADILLAC AUTOMOBILE COMPANY. O primeiro carro (um monocilindro) da nova montadora ficou pronto em 17 de outubro e foi desenhado e projetado pelo próprio Henry Leland. O veículo era alto devido às péssimas estradas americanas da época e ficou conhecido como Runabout.

No ano seguinte a montadora expôs no salão do automóvel de New York o novo modelo CADILLAC por US$ 850 e obteve 2.286 pedidos, terminando o ano com 2.500 carros produzidos. Em 1905 a empresa lançou o CADILLAC OSCEOLA, cilíndrico único, iniciando assim um tímido processo para a produção de carros com capota totalmente fechada. Pouco depois, em 1908, a montadora tornou-se a primeira empresa americana a ganhar o prêmio Dewar Trophy, concedido pelo renomado Royal Automobile Club of London, graças aos seus avanços automotivos. Na época, três modelos CADILLAC escolhidos aleatoriamente foram totalmente desmontados e seus componentes misturados, para em seguida serem remontados. A ideia serviu para provar que as peças eram intercambiáveis, ou seja, não necessitavam de nenhum ajuste para se enquadrarem ao veículo. Tal proeza garantiu-lhe o famoso prêmio. O sucesso da montadora chamou a atenção da General Motors, que em uma transação milionária pagou cerca de US$ 5,6 milhões pela CADILLAC em 1909. Nesse mesmo ano a empresa produziu a primeira limousine do mundo.

A CADILLAC revolucionou o mercado de automóveis nos anos seguinte com a apresentação de novidades técnicas como automóveis totalmente fechados e a partida automática em substituição as antigas e desconfortáveis manivelas. Além delas, o motor V8 foi o principal motivo de confiabilidade do público em relação à marca. Pesquisas da época revelavam que a confiança nos motores V8 utilizados pela CADILLAC era tão grande que despertou até o interesse do departamento de guerra dos Estados Unidos. Dessa forma, aproximadamente 2.000 motores V8 foram utilizados na Primeira Guerra Mundial. Durante o conflito, os motores aeronáuticos tiveram um grande desenvolvimento técnico. Leland queria apostar tudo no motor aeronáutico Liberty, dedicando a ele 100% de sua capacidade produtiva. O conflito com Durant foi inevitável e, em consequência, ele e seu filho se retiraram da GM em junho de 1917 e formaram a Lincoln Motor Co., que seria mais tarde a grande rival da CADILLAC.

No ano de 1924 a empresa, de forma pioneira, oferecia uma grande quantidade de cores e pinturas cromadas, enquanto outras montadoras somente disponibilizavam a cor preta. Nesta década a montadora inovou mais uma vez ao se tornar a primeira empresa do setor a utilizar um designer, Harley Earl, que algum tempo depois ficaria conhecido como o ‘Da Vinci de Detroit’, no lugar de um engenheiro para projetar a carroceria de seus carros em 1927. Earl sabia exatamente o que os carros necessitavam para cativar as pessoas. Suas habilidades o levaram a assumir a recém criada seção de artes e cores da GM, outro pioneirismo de grande repercussão. No ano seguinte, a GM também incorporou duas grandes empresas que produziam carrocerias exclusivas para CADILLAC, a Fisher e a Fleetwood, o que contribuiu bastante para o aprimoramento da linha de automóveis da marca. Na verdade os métodos de precisão criados por Leland, associados ao pioneirismo no uso de tecnologias de ponta criou uma imagem de qualidade e confiabilidade em torno da marca.

Outro fator que muito contribuiu para aumentar o prestígio da marca CADILLAC foi o fato dela ter se tornado a preferida e eleita da emergente classe artística de Hollywood dos anos 20 em diante. A imagem de artistas dessa época como Clara Bow, Willian Boyd, Joan Crawford, Dolores Del Rio e Marlene Dietrich, chegando a bordo de suntuosos automóveis CADILLAC nas ‘Avant Premiére’ de seus filmes acabaram emprestando a marca muito do ‘Glamour’ de Hollywood desses anos. Outras classes que também adotaram os modelos da marca foram os chefes de estado, membros da nobreza, magnatas, artistas de outras áreas e intelectuais renomados. Os modelos da CADILLAC também eram bastante apreciados pelos ‘gangsters’ da época, já que a sua potência extra os dava capacidade de fuga rápida nas situações de perigo. Dentre eles Al Capone foi um dos maiores entusiastas da marca.

Em virtude da queda nas vendas durante a Grande Depressão Americana, em 1932, a GM por pouco não descontinuou a produção dos modelos CADILLAC, porém após reformulações na sua estratégia de marketing a empresa voltou a se recuperar a partir de 1934. Outras inovações tecnológicas continuaram a serem incorporadas a linha CADILLAC, como a opção pelos motores V12 e V16 oferecidas a partir de 1930; a primeira marca a adotar o uso de parafusos Phillips, que diminuía o tempo de montagem de seus carros, assim como foi pioneira ao oferecer os primeiros carros de luxo com transmissão automática. Os modelos de 1938 sofreram uma grande reestilização de sua carroceria que lhes deu uma aparência mais moderna: sua frente se tornou mais pronunciada e aparecendo, pela primeira vez, a palavra CADILLAC gravada no para-choque frontal. Antes da Segunda Guerra Mundial, em 1941, a frente dos automóveis CADILLAC foi inteiramente redesenhada, tendo-se adotado o estilo que prevaleceria até 1948. A grade do radiador passou a ocupar quase toda a frente do carro que ficou mais reta, a tampa do capô mais larga na frente e mais alta, e os faróis foram incorporados aos para-lamas.

Como toda indústria automobilística americana, a CADILLAC interrompeu a produção de carros em 1942 em virtude da Segunda Guerra Mundial, e se concentrou na produção de itens militares como os tanques M-24 Chaffee equipados com motores V8, as transmissões HidraMatic para blindados, componentes de motores Allison para os aviões V12 e até um levíssimo carro de combate denominado M-24. No período pós-guerra a demanda por carros novos nos Estados Unidos foi muito intensa e entre os modelos mais procurados estavam justamente os da marca CADILLAC. Estes voltaram a ser produzidos ainda no final de 1945, quando foi lançada a linha para 1946, que nada mais eram que os modelos de 1942 com poucas alterações. Porém foi em 1948 que teve início a era de maior prestígio da marca: nesse ano Franklyn Q. Hershey, um dos designers da divisão de Harley Earl, introduziu na linha CADILLAC os famosos ‘rabos-de-peixe’, inspirados na indústria aeronáutica, que iriam influenciar o desenho não só dos automóveis da marca como também o de praticamente todos os carros americanos por toda a década de 50.

Em 1949, além de produzir seu carro de número um milhão, apresentou o novo motor V8 de alta compressão. Menor e mais leve que o anterior, deu ao CADILLAC o título de um dos carros mais rápidos da América naquele período. Os anos 50 foram uma época em que os automóveis CADILLAC, sendo o produto de maior apelo visual da GM, tornaram-se verdadeiros sonhos sobre rodas, repletos de exuberantes para-choques cromados que refletiam toda a euforia econômica em que vivia a América do pós-guerra. Um de seus grandes clássicos foi apresentado em 1953 e ficou conhecido como Eldorado. Era o primeiro carro luxuoso feito somente por encomenda e ao longo dos anos o modelo foi aprimorado. O Eldorado Brougham que surgiu em 1957, por exemplo, recebeu suspensão a ar, pneus de perfil baixo, controle de calefação e ar-condicionado, faróis diferenciados e teto fabricado em aço inoxidável. A partir dos anos 60, seguindo a tendência da indústria automobilística da época, os automóveis da marca tornaram-se menos chamativos, acompanhando discretamente ao final desta década o design dos ‘muscle cars’ típicos do período. Porém foi durante a crise do petróleo na década de 70 que a marca iniciou uma fase de decadência: o aumento no preço da gasolina tornou os grandes carros da CADILLAC economicamente inviáveis, obrigando-a a reduzir seu tamanho, tirando-lhes o seu principal apelo chamativo e tornando-os pouco distinguíveis dos demais.

O final da era do ‘Glamour’ Hollywoodiano, expondo os hábitos decadentes da classe artística como o alcoolismo e o consumo de drogas, associado à imagem bastante explorada nos filmes dos chefes das quadrilhas do Harlem em exuberantes modelos CADILLAC de segunda mão que agora eram oferecidos a preço irrisório, acabou trazendo a marca um certo ar de decadência e vulgaridade. Dos anos 80 em diante os modelos da marca praticamente caíram no ostracismo, com a preferência dos mais abastados recaindo sobre as marcas europeias de maior prestígio, em cujos carros conseguiram conciliar luxo, qualidade e desempenho com economia de forma mais eficiente que a CADILLAC.

Mesmo assim, nessa década, em 1984, a CADILLAC apresentou o Gold Key Delivery Sistem (sistema de entrega ‘chave de ouro’), um programa de procedimentos de entrega de unidades 0 km em todas as concessionárias. Esta atenção ao cliente e ao seu automóvel (dupla inspeção pré-entrega, descrição de todos os equipamentos durante o uso inicial, um jogo de duas chaves de ouro, entre outros cuidados) permitiu a CADILLAC subir ao primeiro lugar na pesquisa anual de satisfação do cliente. A partir de meados da década de 90 a CADILLAC recupera seu status de luxo lançando no mercado modelos que utilizavam tecnologia avançada e linhas modernas e atraentes. O CADILLAC modelo DTS, lançado em 2006, foi o 19º introduzido no portfólio da marca desde 2001 e fez parte da estratégia da montadora em buscar consumidores mais jovens, junto com os modelos CTS, SRX, XLR e STS. Sua lista de carros lendários é imensa. Fora os já citados vale a pena destacar ainda o Phaeton, primeiro carro-conceito da marca chamado de Osceola, o Biarritz, o DeVille, o Fleetwood, o Catera, o Allante, o Seville STS, além dos mais recentes, como o CTS-V e o utilitário esportivo Escalade. Orgulhos de uma empresa que, com 109 anos de fundação, ainda mantém fôlego suficiente para encantar o mundo.

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