12/01/2021 - CADILLAC SERIES 61 ‘LE MONSTRE’: UM BÓLIDO AMERICANO EM LE MANS

Voltamos à metade do século XX para conhecer um pouco mais sobre o Cadillac Series 61 ‘Le Monstre’. O carro aterrissou no icônico circuito de La Sarthe na edição de 1950 das 24 Horas de Le Mans, depois que o Automobile Club de l’Ouest (ACO), o organizador da corrida de resistência mais famosa do mundo, incentivou as equipes americanas a participarem com carros americanos, já que sua presença ajudava a aumentar a popularidade da prova.

A equipe B.S. Cunningham, liderada pelo próprio Briggs Cunningham, chegou a Le Mans com dois Cadillac. O primeiro, apelidado de ‘Petit Pataud’, exibia a carroceria de série de um Coupe DeVille da época, enquanto que o segundo recebia o sobrenome de ‘Le Monstre’ por seu característico design. Ainda assim, os dois Cadillac tiveram uma grande atuação durante a corrida, mas disso falaremos um pouco mais tarde.

O regulamento de Le Mans permitia às equipes e fabricantes realizar algumas modificações nos carros, embora o chassi, o motor e o trem de rodagem deveriam ser os originais. Assim, os dois veículos foram enviados à Frick-Tappett Motors em Long Island (New York, Estados Unidos) para realizar alguns ajustes. Entre as modificações implementadas se encontrava melhorar os freios para aumentar sua confiabilidade e instalar um novo tanque de combustível.

No entanto, a modificação mais importante aconteceu no Cadillac DeVille, que foi inscrito na corrida com o número 2. Sua carroceria original de linhas arredondadas e elegantes, característica nos sedans de luxo americanos da época, foi substituída por um corpo feito sob medida e focado em obter o máximo rendimento aerodinâmico. Foi deixado de lado a parte estética e foi melhorado o fluxo de ar para aumentar o desempenho na corrida.

A parte frontal, plana, exibia os faróis redondos originais. No centro, uma grande entrada de ar dividida em três seções tinha a finalidade de refrigeração. Sobre o capô, outra entrada de ar, neste caso para o filtro e, justamente atrás, dois pequenos para-brisas separados que lembravam as clássicas barchettas da época. As laterais eram completamente retas e planas, sem forma aparente, enquanto que a traseira continuava com uma grande corcova situada atrás do banco do condutor e uma linha descendente que terminava abruptamente em outra seção retangular da carroceria.

A carroceria era feita com painéis de metal rebitados entre si e visíveis a partir do exterior. Suas formas e elaboração lembravam a fuselagem de um avião de combate da Segunda Guerra Mundial, enquanto que o detalhe do sistema de escape lateral nivelado era simplesmente espetacular. A carroceria foi projetada pela Grumann Aircraft e era inspirada no mundo da aeronáutica. É claro, não tinha teto, o interior era muito espartano, com um volante de grande diâmetro, e a carroceria, assim como a do ‘Petit Pataud’, era acabada em preto e branco com a bandeira dos Estados Unidos sobre o capô.

O Cadillac Series 61 ‘Le Monstre’ era impulsionado por um motor V8 a 90 graus com 5.4 litros de capacidade e uma potência de 160 cv a 3.800 rpm. Apesar de compartilhar o powertrain com seu irmão, o ‘Petit Pataud’, sua velocidade máxima era de 210 km/h, ou seja, 20 km/h mais rápido. Isso era possível graças ao trabalho realizado na parte aerodinâmica, o que levou os engenheiros da Grumann a testar um modelo em escala do ‘Le Monstre’ no túnel de vento que geralmente utilizavam para avaliar o desempenho de pequenos aviões fumigadores e de voo lento.

A carroceria do Cadillac ‘Le Monstre’ foi tão modificada que os oficiais de Le Mans passaram horas examinando-o para assegurar-se de que o chassi era original. O motor também era o de série, com exceção dos cinco carburadores instalados, para os quais obteve o sinal verde para participar nas 24 Horas de Le Mans de 1950. O enorme Cadillac com forma de barcaça recebeu o número 2, enquanto que o elegante Coupe DeVille seguiu com o número 3.

Quando o Cadillac modificado apareceu em Le Mans, os moradores logo o batizaram como ‘Le Monstre’. Os membros da equipe B.S. Cunningham imprimiram este nome na parte frontal do carro. Nos comandos, o próprio Briggs Cunningham e Phil Walters, que sofreram um ligeiro percalço nos primeiros compassos da corrida. O Cadillac ficou preso em uma encosta de areia depois de Cunningham ter perdido o controle do carro na famosa curva Mulsanne.

Isso custou à equipe 20 minutos e cair para a 35ª posição na corrida, já que Cunningham teve que cavar com uma pequena pá para resgatar o carro da areia. Mais tarde, uma falha na transmissão, que lhe impossibilitava de utilizar a primeira e segunda velocidade, o impediu de conseguir um melhor resultado. Apesar dos inconvenientes, o ‘Le Monstre’ conseguiu voltar e cruzar a linha de chegada 24 longas horas depois na 11ª posição. Quanto ao seu companheiro de equipe, o ‘Petit Pataud’ acabou justamente na frente, na 10ª posição da classificação geral.

O público curtiu a atuação dos enormes e estranhos carros de corrida americanos em Le Mans e a imprensa elogiou os pilotos por sua “habilidade, esportividade e bom humor”. Agora, ambos os veículos permanecem em Naples, na Florida, nas dependências do Revs Institute for Automotive Research como parte da Coleção Collier.

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