21/11/2020 - FIAT 127 RUSTICA: O FIAT 147 BRASILEIRO QUE SALVOU A LAMBORGHINI

Nada ia bem com a Lamborghini na década de 70 do século passado. Uma linha de modelos desfasada, o Countach que não conseguia decolar totalmente e projetos inacabados que jamais se concretizaram. A longa sombra da bancarrota ameaçava cobrir Sant’Agata Bolognese e somente um milagre poderia salvar a Lamborghini de uma morte prematura. Um milagre ou um pequeno modelo de origem brasileira que se distanciava bastante dos modelos da Lamborghini. Esta é a curiosa história do Fiat 127 Rustica de 1979.

A Lamborghini é uma empresa que atravessou momentos realmente difíceis antes de se tornar o fabricante de automóveis de prestígio que é atualmente. Até certo ponto, até se tornar parte do Grupo Volkswagen, o fabricante italiano nunca conheceu a estabilidade financeira. E foi precisamente em um desses vales ao longo de sua história que nasceu o protagonista desse artigo, da imperiosa necessidade de salvar os móveis de um barco à deriva.

Com a chegada da década de 70, a Lamborghini começava um dos capítulos mais escuros de sua história. Em 1972, Ferruccio Lamborghini vendeu suas ações na empresa a Georges-Henri Rosetti e Rene Lemier, que encontram uma empresa em crise com dois modelos longevos, o Miura e o Espada, e dois carros incapazes de alcançar o sucesso deles, o Islero e o Jarama. Além disso, o Countach, que era esperado como o grande salvador, ainda não estava preparado para estrear.

Nesse mesmo ano, os novos dirigentes da Lamborghini retiram de produção o Miura e em 1973 foi apresentado o Urraco. Naquele ano estoura a Crise do Petróleo, desferindo um novo golpe nas perspectivas da empresa. Isso obrigou o fabricante de Sant’Agata Bolognese a buscar investidores para concluir o projeto Countach, deixando pelo caminho o Bravo projetado por Bertone.

A situação era complicada, mas um raio de luz dá esperanças à Lamborghini ao conseguir dois importantes projetos. Por um lado, assina um acordo de colaboração para o desenvolvimento e a fabricação de 800 unidades do BMW M1, enquanto que um por outro, um concurso público em 1977 para o projeto de um novo veículo militar para os Estados Unidos permite contar com duas frentes abertas para a empresa. Infelizmente, nenhum dos dois chegou a dar frutos.

O Cheetah, que se tornaria a base para o Lamborghini LM002 anos mais tarde, não foi o projeto ganhador no concurso para o novo veículo militar americano, enquanto que o acordo com a BMW desmoronava, já que a Lamborghini não conseguiu atender as necessidades e os padrões de qualidade do fabricante alemão. Em seguida a Lamborghini decreta a falência.

Em meio ao caos aparece a figura do investidor e engenheiro Giulio Alfieri, então consultor da Lamborghini, que tem uma ideia que marcaria o futuro do fabricante italiano. Alfieri acredita que a solução era um pequeno modelo de origem brasileira, uma espécie de crossover que chegaria três décadas antes do boom dos SUVs. Alfieri consegue convencer o juiz encarregado da empresa para que permitisse reativar a linha de produção e os 87 concessionários para vender este novo veículo, além da colaboração da Fiat.

O conceito básico do Fiat 127 Rustica era oferecer um veículo compacto, resistente, barato e de fácil manutenção, com um estilo aventureiro. Uma espécie de Fiat Panda 4x4, embora lançado no mercado quatro anos antes e sem tração nas quatro rodas. Para realizar esse projeto, Alfieri recorre ao Fiat 147, que nada mais era que a versão brasileira do Fiat 127 europeu.

O 127 Rustica foi renomeado para que encaixasse na linha europeia de modelos da Fiat, mantendo sua carroceria robusta, maior altura livre do solo e uma suspensão reforçada para enfrentar terrenos irregulares. Também conservaria seu motor de 4 cilindros brasileiro, um bloco de 1.050 cc com 50 cv de potência. A transmissão vinha de um Fiat 128, mas suas relações foram encurtadas para adaptar-se ao novo uso que seria feito no Rustica.

A nível estético, o Fiat 127 Rustica de 1979 recebeu um acabamento exterior na cor bege, incluía para-choques de plástico preto com proteções para os faróis, bagageiro no teto, para-barros nas rodas traseiras, o logotipo específico do modelo impresso nos para-lamas dianteiros e rodas de aço pretas com pneus de inverno. Enquanto isso, o interior exibia couro sintético como novidade para o modelo.

A Lamborghini assina um contrato com a Fiat para a produção de 5.000 unidades do 127 Rustica. Não se sabe se foi fabricado o lote completo de exemplares contratados, mas este pequeno crossover acabou salvando a Lamborghini. O veículo era mais lucrativo que outros projetos fracassados e pouco a pouco a marca do touro dourado voltava ao ringue.

A saída da bancarrota aconteceu em 1980 e a empresa recomeçou a sua reconstrução. Em seguida, a Lamborghini passaria às mãos dos irmãos Jean-Claude e Patrick Mimran e posteriormente à Chrysler de 1987 até 1994, que foi responsável pelo lançamento do Lamborghini Diablo e inclusive de participar de uma temporada na Fórmula 1. A marca de Sant’Agata Bolognese passaria a fazer parte do Grupo VAG em 1998, quando foi adquirida pela Audi.

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