DE TOMASO LONGCHAMP: O GRAN TURISMO ÍTALO-MERICANO QUE CRUZOU DUAS DÉCADAS
Na Itália dos anos 1970, em meio a uma indústria automotiva que equilibrava tradição artesanal, crises econômicas e ousadia técnica, a De Tomaso buscava consolidar sua identidade para além dos superesportivos exóticos. Fundada pelo argentino Alejandro de Tomaso em Modena, a marca já havia chamado atenção com o Mangusta e, sobretudo, com o icônico Pantera - este último combinando design italiano com vigorosos motores Ford V8. Foi nesse contexto que, em 1972, surgiu o De Tomaso Longchamp, um gran turismo elegante que traduzia com precisão a filosofia ítalo-americana da casa.
Apresentado no Salão de Turim de 1972, o Longchamp era um coupé 2/2 de linhas sóbrias e proporções clássicas. Seu design levava a assinatura de Tom Tjaarda, então à frente da Ghia, e refletia a estética angular típica da década. A dianteira baixa, com faróis duplos circulares inicialmente carenados por cobertura de vidro (substituídos posteriormente por unidades expostas), a grade estreita e o capô longo evidenciavam seu caráter de legítimo GT. A carroceria utilizava estrutura monobloco derivada do De Tomaso Deauville, o sedan da marca, encurtada e adaptada para o novo modelo.
Mas era sob o capô que o Longchamp revelava sua verdadeira personalidade. Fiel à parceria com a Ford, o modelo adotava o consagrado motor V8 Cleveland 351 de origem norte-americana, com 5.8 litros de deslocamento. Na configuração europeia, entregava cerca de 330 cv, acoplado a uma transmissão manual ZF de 5 velocidades - embora também houvesse opção por transmissão automática Ford de 3 relações. Essa combinação garantia desempenho respeitável para a época: velocidade máxima próxima dos 240 km/h e aceleração vigorosa, acompanhada do ronco grave característico dos V8 americanos.
A suspensão independente nas quatro rodas e os freios a disco ventilados contribuíam para um comportamento dinâmico equilibrado, embora o Longchamp privilegiasse mais o conforto de cruzeiro em alta velocidade do que a esportividade extrema. Era um carro pensado para atravessar a Autostrada del Sole com elegância e potência de sobra, oferecendo ao mesmo tempo um interior refinado, revestido em couro, com acabamento em madeira e instrumentação completa voltada ao condutor.
Durante sua trajetória, o modelo passou por pequenas evoluções estéticas e técnicas. Em 1980, recebeu uma atualização visual com para-choques revisados e alterações na dianteira. Houve também uma raríssima versão conversível, produzida em número bastante limitado. Estima-se que ao longo de toda a produção, entre 1972 e 1989, tenham sido fabricadas pouco mais de 400 unidades, tornando o Longchamp um automóvel de presença discreta, porém exclusiva.
Curiosamente, o projeto do Longchamp também deu origem a outro capítulo da história automotiva: após a aquisição da Maserati pela De Tomaso em meados dos anos 1970, a base do modelo foi utilizada para desenvolver o Maserati Kyalami, que compartilhava arquitetura e motorização semelhantes, mas com identidade própria da marca do tridente.
Hoje, o De Tomaso Longchamp permanece como um símbolo de uma era em que pequenos fabricantes italianos ousavam combinar design sofisticado com mecânica robusta americana. Não foi um carro de grande volume, nem um superastro das pistas, mas representou com dignidade o espírito dos gran turismos clássicos - máquinas feitas para viajar longe, rápido e com estilo.
Apesar de seu nome soar tipicamente francês, ‘Longchamp’ não tem relação oficial com o famoso hipódromo parisiense - mas certamente o carro teria feito bonito estacionado diante dele, misturando elegância europeia com coração americano.