1937 - ROLLS-ROYCE PHANTOM III MULLINER SPORTS LIMOUSINE
Na Inglaterra de 1937, a Rolls-Royce encontrava-se no auge de uma tradição que havia transformado seus automóveis em referências internacionais de luxo, qualidade de fabricação e sofisticação mecânica. Em uma época na qual os grandes fabricantes europeus disputavam a preferência de uma clientela aristocrática e extremamente exigente, a marca britânica apresentava um automóvel que representava uma evolução significativa em sua história: o Phantom III, primeiro Rolls-Royce equipado com motor V12. Quando associado à carroceria Sports Limousine desenvolvida pela tradicional H. J. Mulliner, o resultado era uma combinação extraordinária de imponência, conforto e elegância esportiva.
O Phantom III foi apresentado ao público no Salão de Londres de 1935, mas sua produção comercial começou em 1936. O projeto representava o último grande desenvolvimento de Sir Henry Royce, falecido em 1933, e incorporava soluções de engenharia que demonstravam a preocupação da empresa em acompanhar a evolução tecnológica da indústria automobilística. Entre suas principais novidades estavam a construção em liga leve do motor V12, a suspensão dianteira independente e um sistema de transmissão aperfeiçoado, que proporcionavam níveis de suavidade e conforto bastante avançados para a época.
A arquitetura do Phantom III permitia que cada cliente escolhesse a carroceria de acordo com suas preferências. A Rolls-Royce fornecia o chassi completo, enquanto empresas especializadas como H. J. Mulliner, Park Ward, Hooper, Barker e Thrupp & Maberly desenvolviam as carrocerias sob encomenda. A Mulliner, um dos mais respeitados encarroçadores britânicos, era conhecida pela qualidade de seus trabalhos e pela capacidade de combinar linhas elegantes com soluções funcionais.
A configuração Sports Limousine procurava conciliar a formalidade de uma limusine tradicional com proporções mais dinâmicas. A carroceria apresentava capô longo, para-brisa inclinado, teto suavemente arqueado e uma traseira de desenho elegante. Os para-lamas pronunciados, os faróis circulares independentes e a imponente grade vertical com o tradicional Spirit of Ecstacy completavam uma aparência que transmitia autoridade sem abrir mão da leveza visual. A construção artesanal permitia personalizar cores, revestimentos, acabamentos e a disposição dos assentos, tornando cada exemplar uma criação particular.
O interior era concebido para oferecer uma experiência de viagem excepcional. A configuração Sports Limousine podia acomodar cinco passageiros, dependendo da disposição encomendada, e apresentava uma divisão envidraçada entre o compartimento dianteiro e o traseiro em determinadas configurações. Os bancos eram revestidos em couro de elevada qualidade, acompanhados por aplicações de madeira nobre, carpetes espessos e acabamento artesanal. A instrumentação dianteira reunia os principais indicadores mecânicos, enquanto o compartimento traseiro podia receber recursos específicos de conforto e entretenimento. Em alguns exemplares, até mesmo os sistemas de rádio eram independentes para os dois ambientes.
A grande revolução, entretanto, estava na mecânica. O Phantom III utilizava um motor V12 de 7.338 cm³, construído predominantemente em liga de alumínio, com válvulas no cabeçote acionadas por varetas e balancins. O projeto incorporava um virabrequim de sete mancais, sistema de ignição dupla, dois distribuidores, duas bobinas e 24 velas de ignição. A alimentação era realizada por carburadores Stromberg, e a potência inicial atingia aproximadamente 165 cv, posteriormente elevada para 180 cv em configurações mais desenvolvidas. O torque abundante e a excepcional suavidade de funcionamento eram características fundamentais desse propulsor.
A transmissão manual de 4 velocidades possuía sincronização nas três relações superiores, enquanto a tração era traseira. O chassi utilizava uma estrutura de aço com reforços transversais e incorporava uma das principais novidades técnicas da Rolls-Royce: suspensão dianteira independente, com braços triangulares e molas helicoidais. Na traseira, permanecia o tradicional eixo rígido com molas semielípticas. Os freios a tambor nas quatro rodas contavam com assistência mecânica, proporcionando capacidade de frenagem adequada às dimensões e ao peso do conjunto.
Apesar de seu porte e da vocação para o transporte de passageiros com máximo conforto, o Phantom III apresentava desempenho notável. Quando equipado com carrocerias mais leves, podia alcançar aproximadamente 160 km/h, velocidade extraordinária para um automóvel de luxo daquele período. Naturalmente, nas versões Sports Limousine, o peso adicional da carroceria e dos equipamentos de conforto influenciava o desempenho, mas o V12 proporcionava reservas de potência suficientes para movimentar o grande automóvel com impressionante suavidade.
A trajetória do Phantom III foi relativamente curta. Sua produção terminou em 1939, com o agravamento das tensões internacionais e a proximidade da Segunda Guerra Mundial. A Rolls-Royce contabiliza oficialmente 710 exemplares produzidos, embora algumas referências históricas e registros de colecionadores mencionem 727 chassis. O modelo jamais teve sua produção retomada após o conflito, encerrando uma etapa particularmente sofisticada da história do fabricante britânico.
O Rolls-Royce Phantom III Mulliner Sports Limousine de 1937 representa, portanto, um dos momentos mais extraordinários da história dos automóveis de luxo anteriores à Segunda Guerra Mundial. Sua combinação de engenharia avançada, motor V12, construção artesanal e conforto excepcional demonstra a capacidade da Rolls-Royce de produzir automóveis que ultrapassavam os limites convencionais da indústria. Era um veículo concebido para uma clientela que valorizava não apenas o prestígio da marca, mas também a excelência técnica e a exclusividade de uma carroceria construída especialmente para atender aos seus desejos.















































































