1937 - AUSTIN SEVEN OFFSET SINGLE-SEATER ‘THE WILLIS SPECIAL’
Na Inglaterra dos anos 1930, o automobilismo não pertencia exclusivamente às grandes equipes de fábrica nem dependia de carros de competição milionários. Em circuitos como Brooklands e nas provas de subida de montanha, os chamados specials - automóveis construídos ou profundamente modificados por pequenos preparadores - permitiam que entusiastas transformassem modelos de produção em máquinas de corrida. Entre as bases favoritas estava o diminuto Austin Seven, cuja mecânica simples, baixo peso e ampla disponibilidade de peças o tornavam ideal para esse tipo de projeto.
É nesse ambiente que nasceu o Austin Seven Offset Single-Seater ‘The Willis Special’, monoposto construído em 1937 por Bill Williams, proprietário da Cambridge Engineering, para seu cliente R. R. Willis. Embora a designação histórica indique o período de 1932 a 1937, o ano de 1932 corresponde ao chassi longo utilizado como base, enquanto a transformação específica no Willis Special foi concluída em 1937. O resultado era uma máquina artesanal concebida para provas de velocidade em linha reta e subidas de montanha, com uma solução técnica bastante incomum: o conjunto de transmissão e a posição do piloto foram deslocados lateralmente para permitir uma carroceria estreita e uma posição de condução extremamente baixa.
O projeto também tinha uma particularidade curiosa. Willis era um homem de grande porte, com cerca de 108 kg, e precisava de espaço adicional no habitáculo. Por isso, Williams recorreu ao chassi longo do Austin Seven de 1932, adaptando-o para acomodar o piloto. O próprio construtor também conduziu o carro em competições e, sendo mais leve, obteve resultados melhores em algumas ocasiões. Essa combinação de engenharia artesanal e necessidades muito pessoais resume perfeitamente a cultura dos specials britânicos: cada automóvel era desenvolvido para um propósito específico, frequentemente com soluções que dificilmente seriam adotadas por um fabricante de produção em série.
A engenharia do deslocamento lateral
A característica mais importante do Willis Special estava na disposição assimétrica de seus componentes. Para baixar a posição do piloto, Bill Williams deslocou lateralmente a transmissão e adaptou o conjunto do eixo traseiro, criando espaço para acomodar o banco em uma posição excepcionalmente baixa. O chassi longo permitia acomodar o piloto e os comandos, enquanto a carroceria estreita, feita artesanalmente, reduzia a área frontal e ajudava a manter o peso sob controle.
O resultado era um monoposto de aparência quase minimalista, com rodas expostas, carroceria baixa e estreita, cockpit individual e comandos mecânicos acessíveis ao piloto. Diferentemente dos automóveis de corrida produzidos em série pelas grandes fábricas, o Willis Special nasceu da experimentação direta de um construtor independente, que adaptou componentes conhecidos às necessidades de uma máquina destinada a provas específicas.
A preparação também estava ligada ao ambiente de Brooklands, o histórico circuito britânico onde equipes profissionais e amadores testavam suas máquinas. Segundo o relato publicado pela revista especializada PreWarCar, Williams e Willis utilizavam o local para acertar o automóvel, embora sua participação competitiva estivesse concentrada em sprints e provas de subida de montanha, modalidades nas quais a aceleração, a relação de transmissão e o baixo peso eram fundamentais.
Uma oportunidade inesperada para representar a Austin
A história do Willis Special ganhou um capítulo particularmente curioso em 1938. Na preparação para a prova de subida de Shelsley Walsh, marcada para 28 de maio, a Austin enfrentou um problema: o monoposto de válvulas laterais pilotado por Kay Petre havia sido danificado em um acidente, e a fábrica não conseguiria reconstruí-lo a tempo.
A equipe procurou então Bill Williams e pediu que levasse o Willis Special para completar a inscrição oficial da marca. Era um reconhecimento significativo para um carro construído por encomenda, fora da linha de produção e sem os recursos de desenvolvimento de uma equipe de fábrica. A participação, contudo, não terminou como esperado: a alavanca de câmbio quebrou durante a primeira tentativa, com R. R. Willis ao volante. O episódio ilustra tanto a criatividade desses projetos independentes quanto os desafios mecânicos que acompanhavam as competições daquele período.
O automóvel sobreviveu e preservou elementos importantes de sua construção original, incluindo a carroceria feita por Williams e os instrumentos. Sua história permanece ligada a uma geração de entusiastas que transformava automóveis modestos em máquinas de competição por meio de conhecimento técnico, habilidade artesanal e muita experimentação.
O Austin Seven Willis Special é, portanto, mais do que um pequeno carro de corrida. Ele representa a tradição britânica dos specials, na qual a inventividade individual podia levar uma plataforma popular a um território inteiramente diferente. Seu maior mérito não estava na potência absoluta, mas na inteligência com que cada componente era aproveitado para alcançar o máximo desempenho possível.




























































