1998 - BENTLEY ARNAGE
No final dos anos 1990, a Bentley preparava uma das transformações mais importantes de sua história. Depois de décadas produzindo grandes automóveis de luxo derivados de plataformas e conceitos tradicionais, o fabricante de Crewe precisava apresentar uma nova geração de sedans capazes de preservar sua identidade artesanal, mas incorporar tecnologias modernas e atender às expectativas de um público cada vez mais exigente. O resultado foi o Bentley Arnage, apresentado em abril de 1998, um luxuoso sedan de quatro portas que inaugurou uma nova fase para a marca e se tornou um dos modelos mais importantes de sua história contemporânea.
O Arnage foi desenvolvido durante o período em que a Bentley ainda pertencia ao grupo britânico Vickers, pouco antes da aquisição da marca pelo Grupo Volkswagen, em 1998. Seu desenvolvimento ocorreu paralelamente ao do Rolls-Royce Silver Seraph, com o qual compartilhava parte de sua arquitetura, embora apresentasse personalidade visual e mecânica próprias. O nome Arnage foi inspirado em uma curva do circuito de Le Mans, na França, tradicional palco de importantes conquistas da Bentley nas competições de resistência.
O desenho da carroceria combinava referências clássicas da marca com uma interpretação mais contemporânea do sedan de luxo britânico. A dianteira era dominada pela tradicional grade vertical cromada, ladeada por faróis circulares duplos, enquanto o longo capô e os para-lamas pronunciados transmitiam imponência. A linha de cintura elevada, as grandes portas e a traseira de desenho vertical completavam uma silhueta elegante e discreta. O resultado era um automóvel de proporções generosas, com aproximadamente 5.39 metros de comprimento e entre-eixos de 3.12 metros.
O primeiro Arnage utilizava uma solução mecânica bastante interessante e, naquele momento, pouco convencional para a tradição da Bentley. Sob o longo capô estava um motor BMW M62 V8 de 4.398 cm³, construído inteiramente em alumínio, com duplo comando de válvulas no cabeçote (DOHC), 32 válvulas e sistema de gerenciamento eletrônico. O conjunto recebeu dois turbocompressores Garrett, desenvolvidos e instalados com participação da Cosworth, proporcionando uma entrega de potência vigorosa e funcionamento bastante refinado.
A potência chegava a aproximadamente 355 cv a 5.500 rpm, enquanto o torque atingia 570 Nm entre 2.500 e 4.200 rpm. A transmissão automática ZF de 5 velocidades enviava a força às rodas traseiras, privilegiando a suavidade das trocas e o conforto de condução. Mesmo pesando aproximadamente 2.300 kg, o Arnage alcançava cerca de 240 km/h e acelerava de 0 a 100 km/h em aproximadamente 6.5 segundos.
A escolha do motor BMW representava uma mudança significativa para a Bentley, tradicionalmente associada ao seu conhecido V8 de 6.75 litros. Entretanto, a unidade alemã oferecia tecnologia mais moderna, maior capacidade de trabalhar em rotações elevadas e melhor adequação às exigências de emissões e consumo daquele período. A decisão também refletia o momento de transição vivido pelo fabricante, que passaria a integrar o Grupo Volkswagen.
O comportamento dinâmico acompanhava a sofisticação mecânica. O Arnage utilizava suspensão independente nas quatro rodas, com braços triangulares duplos e amortecedores eletronicamente controlados, permitindo conciliar conforto de rodagem e estabilidade em velocidades elevadas. A direção hidráulica assistida, os freios a disco ventilados nas quatro rodas e os sistemas ABS e controle eletrônico de estabilidade completavam o conjunto.
No interior, a Bentley preservou sua tradicional combinação de materiais nobres e acabamento artesanal. Os bancos eram revestidos em couro Connolly, os painéis recebiam aplicações de madeira nobre, especialmente nogueira, e os carpetes utilizavam a tradicional lã Wilton. Os bancos dianteiros e traseiros contavam com ajustes elétricos e aquecimento, enquanto o equipamento incluía climatização automática, sistema de áudio de alta qualidade, controle de velocidade de cruzeiro, teto solar elétrico e diversos recursos destinados ao conforto dos ocupantes.
Um detalhe histórico particularmente interessante aconteceu pouco depois de seu lançamento. Com a aquisição da Bentley pela Volkswagen, surgiu uma discussão sobre a identidade mecânica dos novos automóveis. Os admiradores mais tradicionais da marca demonstraram resistência à utilização do motor BMW, considerado sofisticado, mas distante da personalidade dos antigos V8 britânicos. A resposta veio em outubro de 1999, quando a Bentley apresentou o Arnage Red Label, equipado com uma versão profundamente revisada do tradicional V8 de 6.75 litros, enquanto o modelo original passou a ser identificado como Green Label para o ano-modelo 2000.
Essa mudança representou um momento importante na trajetória do Arnage, pois permitiu à Bentley conciliar duas filosofias mecânicas diferentes: a tecnologia contemporânea do V8 BMW biturbo e a tradição de torque abundante proporcionada pelo clássico motor britânico de 6.75 litros.
A produção do Arnage prosseguiu até 2009, recebendo sucessivas atualizações de estilo, mecânica e acabamento. Ao longo de sua trajetória, surgiram versões como Arnage R, RL e T, além de diversas séries especiais. O modelo também representou uma importante renovação industrial para a Bentley, que passou a investir intensamente em sua fábrica de Crewe e na modernização de seus processos de fabricação.
O Bentley Arnage de 1998 marcou, portanto, o início de uma nova fase para o tradicional fabricante britânico. Com desenho imponente, acabamento artesanal e uma mecânica de origem alemã desenvolvida em parceria com a Cosworth, demonstrou que a tradição da Bentley poderia evoluir sem abandonar sua identidade de fabricante de automóveis de luxo. Foi o primeiro capítulo de uma trajetória que ajudaria a estabelecer as bases da Bentley moderna.


















