1963 - DAIMLER FERRET
Na Inglaterra do início dos anos 1960, a palavra Daimler não estava associada apenas aos elegantes automóveis de luxo que conhecemos. A empresa também possuía uma longa tradição na construção de veículos militares, e dela surgiu um dos mais interessantes carros blindados leves do período da Guerra Fria: o Daimler Ferret. Desenvolvido depois da Segunda Guerra Mundial para substituir o célebre Daimler Dingo, o Ferret foi concebido como um veículo de reconhecimento e ligação 4x4, compacto o suficiente para operar em espaços restritos e suficientemente rápido para acompanhar unidades mecanizadas. A produção começou em 1952 e prosseguiu até 1971, com 4.409 exemplares de todas as versões construídos.
O Ferret de 1963 pertence a uma fase madura do projeto. Entre as inúmeras variantes, uma das mais importantes era a Mk 2/3, oficialmente FV701(H), evolução da Mk 2 equipada com torre e com proteção blindada aprimorada. A Mk 2 havia sido desenvolvida especificamente para reconhecimento e recebeu uma torre giratória de um homem, armada originalmente com uma metralhadora Browning .30. A Mk 2/3 incorporou blindagem adicional durante a produção, incluindo chapas mais espessas nas laterais, traseira e piso do casco.
A aparência do Ferret era determinada pela função. Seu pequeno casco de aço soldado apresentava laterais inclinadas e formato semelhante ao de uma pequena embarcação, solução destinada a melhorar a proteção contra estilhaços e determinados impactos. O condutor ficava em posição central, entre os eixos de transmissão, enquanto o compartimento de combate ocupava a região dianteira/intermediária e o motor ficava na traseira. A configuração resultava em um veículo extremamente compacto para um blindado 4x4, mas com espaço suficiente para uma tripulação normalmente composta por dois homens na versão Mk 2/3.
E é justamente na mecânica que o Ferret se torna particularmente interessante. O veículo utilizava o Rolls-Royce B60 Mk 6A, um seis-cilindros em linha a gasolina de aproximadamente 4.2 litros, instalado transversalmente? Não: longitudinalmente na traseira, conectado a uma transmissão especialmente sofisticada para um veículo militar desse porte. A potência chegava a aproximadamente 130 cv, transmitida às quatro rodas por meio de uma embreagem hidráulica do tipo fluid flywheel e uma caixa Wilson pré-seletora epicíclica de 5 marchas. Não havia pedal de embreagem convencional. O sistema permitia ainda que as cinco relações fossem utilizadas também em marcha à ré, característica que contribuía para a extraordinária mobilidade do Ferret.
O sistema de transmissão era uma verdadeira aula de engenharia militar. Depois da caixa pré-seletora vinha uma caixa de transferência e um diferencial central em configuração H-drive, levando o movimento aos quatro cubos de roda através de juntas homocinéticas e conjuntos de redução planetária. A suspensão utilizava molas helicoidais independentes, enquanto os pneus run-flat permitiam continuar a movimentação mesmo depois de sofrerem danos. Essa combinação fazia do Ferret um veículo surpreendentemente rápido e ágil fora de estrada. A velocidade máxima ficava em torno de 58 mph, ou cerca de 93 km/h, uma cifra impressionante para um veículo blindado dessa categoria.
Na versão Mk 2/3, o armamento principal era a metralhadora Browning de 7.62 mm (.30) instalada na torre, que podia girar 360 graus. O sistema de mira utilizava um periscópio próprio, enquanto a arma podia ser elevada e abaixada manualmente. O veículo também dispunha de lançadores de granadas fumígenas instalados na parte dianteira do casco. A torre representava uma importante evolução em relação ao Mk 1, pois permitia ao comandante/atirador operar a arma protegido dentro do veículo, embora a própria configuração elevada da torre sacrificasse parte da discrição que caracterizava o Ferret original.
O ano de 1963 é particularmente interessante porque o Ferret já estava firmemente estabelecido no serviço britânico e continuava recebendo aperfeiçoamentos. Naquele período, inclusive, o FVRDE - Fighting Vehicle Research and Development Establishment - estudou melhorias de mobilidade e capacidade anfíbia, construindo seis protótipos modificados com rodas maiores de alumínio, suspensão e freios aprimorados e uma tela de flutuação permanente. Essas experiências acabariam contribuindo para o desenvolvimento posterior das versões Mk 4 e Mk 5, os chamados big-wheeled Ferrets.
Apesar de sua aparência quase diminuta diante dos grandes carros de combate britânicos, o Ferret teve uma carreira internacional extraordinariamente ampla. Foi utilizado por numerosos países da Commonwealth e por outras forças estrangeiras, permanecendo em diferentes funções militares e de segurança durante décadas. Sua combinação de pequenas dimensões, tração integral, velocidade, blindagem relativamente leve e grande manobrabilidade tornou-o especialmente adequado para reconhecimento. Não por acaso, exemplares continuaram em serviço muito depois de a produção ter terminado.
O mais curioso é que o Ferret pertence a uma espécie de universo paralelo da história automobilística britânica. Enquanto a Daimler produzia automóveis luxuosos para transportar silenciosamente seus proprietários pelas estradas inglesas, a mesma tradição industrial dava origem a uma pequena máquina blindada movida por um motor de 6 cilindros Rolls-Royce, capaz de atravessar terrenos difíceis, andar em alta velocidade e até recuar utilizando todas as relações da transmissão. O resultado era um veículo militar que, guardadas as enormes diferenças de propósito, compartilhava uma característica com os esportivos britânicos que conhecemos nesta jornada: dimensões compactas e engenharia inteligente colocadas a serviço da mobilidade.