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1948 - DELAHAYE 135 MS PENNOCK DROPHEAD COUPÉ

Voltemos à França do imediato pós-guerra, quando a indústria automobilística europeia começava lentamente a recuperar seu esplendor depois dos anos de conflito. Em meio à escassez de materiais e às dificuldades econômicas, alguns fabricantes ainda conseguiam produzir automóveis de prestígio nos quais engenharia, desempenho e artesanato se encontravam em proporções extraordinárias. Um dos exemplos mais expressivos dessa tradição foi o Delahaye 135 MS Drophead Coupé de 1948, com carroceria artesanal da holandesa Pennock.

Embora o chassi e a mecânica fossem franceses, a carroceria deste exemplar foi concebida pela Carrosseriefabriek P. J. Pennock, estabelecida em Haia, na Holanda. A combinação revela uma característica importante dos grandes automóveis europeus daquela época: o fabricante fornecia a plataforma mecânica, enquanto empresas especializadas transformavam cada chassi em uma criação praticamente individual.

A Delahaye já havia conquistado reputação internacional antes da guerra com seus modelos esportivos da família 135, que reuniam motores de 6 cilindros, chassis equilibrados e resultados expressivos nas competições. Depois de 1945, a retomada dessa linhagem permitiu que a marca continuasse atendendo a uma clientela interessada em automóveis exclusivos, mesmo em um cenário no qual a produção artesanal se tornava cada vez mais difícil de sustentar.

Pennock: a ousadia de um mestre da carroceria

Fundada no século XIX, a Pennock construiu sua reputação com carrocerias artesanais para automóveis de diferentes procedências. No período posterior à Segunda Guerra Mundial, a empresa holandesa voltou a trabalhar com chassis Delahaye e criou algumas das interpretações mais exuberantes do Type 135. Seu estilo preservava a separação visual entre capô e para-lamas, característica que começava a desaparecer em projetos influenciados pela produção em série norte-americana.

No exemplar de 1948, as proporções são particularmente elegantes. Os para-lamas dianteiros apresentam desenho arredondado, em estilo pontoon, enquanto a ausência de estribos laterais deixa a carroceria visualmente mais baixa e contínua. Os para-lamas traseiros volumosos, os pequenos detalhes cromados e a tradicional grade vertical da Delahaye compõem uma silhueta que combina a exuberância dos anos 1930 com a maior sobriedade do período pós-guerra.

A característica mais interessante, entretanto, está no teto conversível de três posições. A capota podia permanecer completamente fechada, ser parcialmente recolhida para formar uma configuração intermediária semelhante à de um sedan conversível ou ser totalmente aberta. Essa versatilidade permitia adaptar o automóvel às condições climáticas e ao estilo de condução, sem comprometer a elegância de suas linhas.

O resultado era uma carroceria de aparência esportiva, mas concebida para viagens confortáveis, com espaço para quatro ocupantes e acabamento artesanal. Cada detalhe era executado para um chassi específico, tornando esses Delahaye diferentes entre si mesmo quando compartilhavam a mesma denominação comercial.

Seis cilindros franceses e tradição esportiva

A mecânica deriva da família Type 135, apresentada em 1935 e desenvolvida para combinar desempenho esportivo com a capacidade de percorrer longas distâncias. O motor é um seis-cilindros em linha de aproximadamente 3.5 litros, com válvulas no cabeçote e alimentação por carburadores. Na especificação habitualmente atribuída ao 135M desse período, a potência fica em torno de 110 cv, embora os valores variem conforme a versão e a preparação.

O conjunto utiliza tração traseira e câmbio manual de 4 marchas sincronizadas em determinadas configurações, enquanto algumas unidades receberam a transmissão pré-seletiva Cotal. A suspensão dianteira independente e as rodas raiadas com fixação central refletem a preocupação da Delahaye em oferecer comportamento dinâmico refinado, além da apresentação luxuosa.

A família 135 também carregava uma herança competitiva importante. Seus antecessores conquistaram resultados expressivos no Rally de Monte Carlo de 1937 e nas 24 Horas de Le Mans de 1938, ajudando a consolidar a imagem da Delahaye como fabricante de esportivos de alto nível. O modelo de 1948, embora orientado ao turismo de luxo, beneficiava-se dessa experiência acumulada em engenharia e desenvolvimento de chassis.

Vale uma observação histórica: exemplares Pennock desse período aparecem em catálogos como 135 M e, em alguns registros, como 135 MS. A identificação exata depende do chassi e da especificação mecânica de cada unidade; por isso, não se deve presumir que todos os automóveis com essa carroceria tenham necessariamente a mesma potência ou configuração de transmissão.

Uma obra artesanal de uma época irrepetível

O Delahaye 135 Pennock de 1948 representa um momento singular da história automobilística europeia, quando fabricantes especializados ainda podiam unir um chassi de engenharia sofisticada a uma carroceria concebida quase como uma peça de alfaiataria. A Delahaye fornecia a base mecânica; a Pennock acrescentava personalidade, elegância e soluções de construção que distinguiam cada automóvel.

Sua capota de três posições, os para-lamas esculpidos e a combinação entre esportividade e conforto mostram que o luxo daquele período não dependia apenas de potência ou velocidade. Dependia também da exclusividade, da qualidade dos materiais e da habilidade dos profissionais responsáveis por transformar um projeto mecânico em um objeto de desejo.

O Delahaye 135 MS Pennock Drophead Coupé de 1948 é, acima de tudo, um testemunho da alta costura automobilística do pós-guerra: uma criação franco-holandesa que preservou o espírito esportivo da Delahaye e a liberdade artística dos grandes carrozziere europeus.