1952 - LANCIA AURELIA B22 SEDAN
No começo dos anos 1950, poucos fabricantes europeus demonstravam tanta disposição para experimentar novas soluções técnicas quanto a Lancia, e o recém-lançado Aurelia era talvez a melhor síntese dessa postura. Apresentado em 1950 para substituir o Aprilia, o Aurelia introduziu o primeiro motor V6 produzido em série na história do automóvel, desenvolvido sob a direção do engenheiro Francesco De Virgilio, além de uma arquitetura mecânica extremamente avançada para sua época. Em 1952, depois dos bons resultados obtidos pelos Aurelia B20 e B21 em competições como Mille Miglia e Le Mans, a Lancia decidiu levar a experiência esportiva para seu próprio sedan. Surgia assim o Aurelia B22, apresentado no Salão de Paris de outubro de 1952 como uma versão de quatro portas claramente orientada ao desempenho. A ideia era combinar o conforto e a elegância de um sedan italiano com uma preparação mecânica suficiente para enfrentar a crescente concorrência do Alfa Romeo 1900, especialmente em sua versão TI. O resultado foi um dos mais interessantes modelos Lancia esportivos de sua geração, produzido em apenas 1.074 exemplares entre 1952 e 1953.
À primeira vista, o B22 pouco se diferenciava dos demais Aurelia da primeira série. A elegante carroceria de quatro portas conservava a característica grade em forma de escudo, os faróis integrados aos para-lamas e a traseira arredondada, com proporções equilibradas e superfícies limpas. O modelo utilizava a carroceria padrão do Aurelia, com quatro portas, cinco a seis lugares e entre-eixos de 2.86 metros, mas alguns exemplares destinados a clientes ou à competição receberam acabamentos específicos e alterações de preparação. A própria sobriedade visual ajudava a tornar o B22 especialmente interessante: por trás de uma carroceria quase discreta escondia-se uma máquina consideravelmente mais vigorosa que o B21 convencional. Dimensionalmente, ele media cerca de 4.420 mm de comprimento, 1.560 mm de largura e 1.500 mm de altura, enquanto o peso ficava na faixa de 1.180 kg em especificações de referência.
A grande transformação estava no motor. O conhecido V6 Lancia de 60 graus, originalmente com 1.991 cm³ no B21, recebeu uma preparação específica para o B22, mantendo a cilindrada, mas adotando um eixo comando de válvulas de perfil mais agressivo, dois carburadores Weber 40 DCF5 de duplo corpo e nova regulagem de ignição. O resultado foi de 90 cv a 5.000 rpm e cerca de 137-142 Nm, dependendo da referência técnica utilizada. A taxa de compressão e a distribuição também foram revistas, enquanto o sistema de lubrificação recebeu atenção adicional. Essa combinação elevou significativamente a capacidade do sedan: a velocidade máxima anunciada chegava a 160 km/h, contra cerca de 145 km/h do B21. Para um sedan familiar do início da década de 1950, era uma cifra bastante expressiva.
A transmissão era outra demonstração do pensamento pouco convencional da Lancia. O Aurelia utilizava uma configuração transaxle, com câmbio e embreagem instalados junto ao eixo traseiro. A solução contribuía para melhorar a distribuição de massas e era combinada a uma caixa manual de 4 velocidades, com as 3 marchas superiores sincronizadas. O diferencial também ficava integrado ao conjunto traseiro. Mais incomum ainda era a suspensão: na dianteira, o Aurelia empregava o tradicional sistema Lancia de pilares deslizantes, enquanto na traseira utilizava suspensão independente. A frenagem era realizada por tambores instalados internamente junto às rodas, solução que reduzia as massas não suspensas. No B22, os tambores dianteiros cresceram de 280 para 300 mm, e as lonas também foram ampliadas, justamente para acompanhar o aumento do desempenho.
A ligação entre o B22 de rua e o automobilismo foi bastante direta. O modelo nasceu explicitamente influenciado pelo desempenho dos Aurelias nas competições e rapidamente apareceu em eventos de estrada. Em 1953, exemplares B22 participaram do Giro di Sicilia e da Mille Miglia, enquanto outro disputou a Coppa d’Oro delle Dolomiti. Na Mille Miglia de 1953, três B22 aparecem nos registros de competição, terminando em 38º, 71º e 80º lugares, e no Giro di Sicilia um exemplar da Scuderia Lancia terminou em quinto lugar na classe de 2.0 litros. Essas participações mostram que o B22 não era apenas um sedan rápido para clientes particulares: a própria Lancia via nele potencial suficiente para utilizá-lo em competição e explorar o desempenho de sua nova configuração.
A característica mais fascinante do B22 talvez seja justamente essa capacidade de conciliar dois mundos. Enquanto o Aurelia B20 era o elegante GT de duas portas desenvolvido para longas viagens rápidas, o B22 mantinha a carroceria de quatro portas e o conforto de um sedan tradicional. Ao mesmo tempo, recebia uma preparação mecânica que lhe permitia acompanhar automóveis esportivos de cilindrada semelhante. A imprensa especializada da época via o modelo como uma espécie de resposta da Lancia à ofensiva do Alfa Romeo 1900, e sua concepção seguia uma filosofia que a marca empregaria repetidamente: não era necessário criar uma carroceria completamente nova para produzir um automóvel de alto desempenho; bastava desenvolver profundamente a mecânica e o chassi já existentes.
A produção limitada reforça o caráter especial do B22. A primeira série permaneceu relativamente pouco tempo no catálogo, e a própria versão esportiva foi substituída quando a Lancia reformulou profundamente a linha Aurelia. Entre outubro de 1952 e o final de 1953 foram produzidas 1.074 unidades B22 e B22S, sendo a grande maioria de direção à direita, conforme o padrão então predominante na Lancia; a pequena série B22S correspondia aos exemplares de direção à esquerda. Em 1954, o novo B12 assumiria o posto de sedan da família, com maior cilindrada, acabamento mais luxuoso e uma orientação menos esportiva. O B22 desaparecia assim depois de uma carreira breve, mas deixava uma marca bastante particular na história do Aurelia.
O Lancia Aurelia B22 Sedan de 1952 é, portanto, um automóvel que representa de maneira exemplar o espírito técnico da Lancia do pós-guerra. Seu V6 de 2.0 litros, transaxle, suspensão independente, freios internos e preparação específica para 90 cv faziam dele um sedan muito mais avançado do que sua aparência discreta sugeria. Sua participação em provas como a Mille Miglia demonstra que a fronteira entre carro de rua e carro de competição continuava bastante estreita, enquanto sua produção reduzida o transformou em uma das versões mais raras e interessantes da primeira geração do Aurelia. Se o B20 tornou famoso o nome Aurelia entre os GT europeus, o B22 mostrou que o mesmo espírito esportivo podia existir dentro de um elegante sedan de quatro portas.