1958 - MASERATI 250F CM10
Quando falamos do Maserati 250F, estamos diante de um dos automóveis de competição mais emblemáticos da história da Fórmula 1. Mas o exemplar identificado como CM10 trata-se da última das recriações do 250F produzidas pelo engenheiro e entusiasta britânico Cameron Millar, concluída na década de 1990 a partir de peças Maserati originais, gabaritos de época e componentes reproduzidos. A Fiskens registra o CM10 como o décimo e último 250F construído por Millar, enquanto documentação do Maserati Club confirma que ele foi realizado como uma versão ‘Piccolo’, correspondente à evolução final do 250F de 1958.
A história começa, entretanto, em 1954, quando a Maserati precisou responder à nova regulamentação da Fórmula 1 que limitava os motores naturalmente aspirados a 2.5 litros. A solução da casa de Modena foi o 250F, uma evolução direta da experiência adquirida com os monopostos A6GCM. Seu motor era um seis-cilindros em linha de 2.493 cm³, com duplo comando de válvulas no cabeçote e três carburadores Weber, instalado em um chassi tubular associado a suspensão dianteira independente e eixo traseiro De Dion. Na configuração inicial, a potência ficava em torno de 220-240 cv, dependendo da evolução e preparação.
O nascimento competitivo do 250F foi extraordinário. A estreia aconteceu no Grande Prêmio da Argentina de 1954, e Juan Manuel Fangio levou imediatamente o novo Maserati à vitória. Poucos meses depois, Fangio voltou a vencer no Grande Prêmio da Bélgica, em Spa-Francorchamps, antes de deixar a Maserati para integrar a equipe Mercedes-Benz. O 250F, porém, continuaria sua trajetória com pilotos como Stirling Moss, Jean Behra, Luigi Musso, Harry Schell e Prince Bira, transformando-se em uma das máquinas mais importantes da chamada era clássica dos Grand Prix.
A evolução técnica foi constante. O modelo recebeu injeção de combustível, câmbio de 5 marchas e diferentes configurações de chassi e carroceria, enquanto a Maserati experimentava maneiras de reduzir peso e baixar o centro de gravidade. Em 1956 surgiram versões mais leves e, posteriormente, o desenvolvimento culminou nos 250F de 1957 e nos chamados ‘Piccolo’, ainda mais compactos e leves, que representavam a última etapa da evolução do projeto. O 250F permaneceria competitivo mesmo diante do avanço tecnológico de Ferrari, Vanwall e Cooper.
Foi justamente a extraordinária longevidade do modelo que fascinou Cameron Millar, engenheiro, piloto e ex-oficial da RAF. Depois de adquirir seu primeiro 250F nos anos 1960, Millar reuniu uma grande quantidade de componentes originais provenientes da Maserati e da Scuderia Centro Sud, além de obter os gabaritos utilizados na construção dos chassis. Ao longo de aproximadamente três décadas, ele e posteriormente a Hall & Fowler construíram uma série de recriações extremamente fiéis. Os exemplares receberam as identificações CM1 a CM10, sendo o CM10 o último deles.
O CM10 é particularmente interessante porque não se trata simplesmente de uma réplica visual. Segundo a Fiskens, ele foi concluído nos anos 1990 e utilizou até cerca de 30% de componentes Maserati originais, além dos métodos construtivos e dimensões derivados do 250F autêntico. A proximidade com os carros históricos foi suficiente para que essas máquinas recebessem reconhecimento da FIA para participação em competições históricas, permitindo que um automóvel construído décadas depois pudesse correr lado a lado com 250Fs genuínos preservados do período.
O visual do CM10 reproduz a configuração final Piccolo, com o longo capô, nariz baixo, cockpit aberto e a característica traseira arredondada que tornou o 250F imediatamente reconhecível. A carroceria leve, originalmente associada aos trabalhos de Medardo Fantuzzi, envolvia uma mecânica extremamente compacta. Na evolução Piccolo, a preocupação com a redução de massa era ainda mais evidente, refletindo a mudança de filosofia que começava a dominar a Fórmula 1 no final dos anos 1950: carros menores, mais leves e com melhor relação entre potência e peso.
A história do próprio CM10 também ganhou um capítulo extraordinário na Austrália. O carro foi adquirido novo pelo colecionador australiano Clive Smith, em Melbourne, e posteriormente levado à Inglaterra para competir no Goodwood Revival de 2001 e 2002. Em 2001, conduzido por Rob Hall, terminou em sexto lugar geral e primeiro entre os 250F na prova Richmond & Gordon Trophies. O carro também participou do Festival of Speed de Goodwood antes de retornar à Austrália.
Mas talvez o episódio mais simbólico tenha ocorrido entre 2004 e 2007, quando o CM10 foi exibido no Grande Prêmio da Austrália, em Albert Park. Em uma dessas ocasiões, ninguém menos que Sir Stirling Moss voltou a conduzir o 250F em pista - décadas depois de ter pilotado um Maserati 250F original no mesmo país e de ter construído uma relação histórica com o modelo. É uma dessas situações em que passado e presente praticamente se encontram: Moss ao volante de uma máquina construída para preservar a essência do carro que marcou parte importante de sua carreira.
O Maserati 250F CM10 é, portanto, uma máquina que exige uma distinção importante: trata-se de uma recriação histórica extremamente cuidadosa do mais famoso monoposto da Maserati. E justamente por isso sua história é fascinante. Ele preserva a engenharia, a aparência e o espírito de uma máquina que nasceu na Itália em 1954, evoluiu durante toda a segunda metade da década e ajudou Juan Manuel Fangio a conquistar seu quinto título mundial em 1957. Nas mãos de Cameron Millar, essa história ganhou uma espécie de segunda vida - e, no CM10, chegou ao seu último capítulo.