BENTLEY 3.5 LITRE GURNEY NUTTING AEROFOIL COUPÉ (1935): QUANDO A ELEGÂNCIA BRITÂNICA ENCONTROU O ESPÍRITO DOS GRANDES GRAND TOURERS
Na Inglaterra de 1935, a Bentley já vivia uma nova fase de sua história. Depois da aquisição da empresa pela Rolls-Royce em 1931, a marca passou a produzir em Derby uma geração de automóveis que ficaria conhecida posteriormente como ‘Derby Bentleys’. Eram carros diferentes dos Bentley de competição dos anos 1920, mas preservavam uma característica fundamental: a capacidade de combinar luxo, velocidade e extraordinária qualidade construtiva. Entre os exemplares mais fascinantes dessa geração está o Bentley 3.5 Litre Gurney Nutting Aerofoil Coupé, uma criação excepcional de carroceria que transforma um elegante chassi britânico em uma verdadeira obra de arte sobre rodas.
O ponto de partida era o novo Bentley 3.5 Litre, apresentado em 1933 como o primeiro Bentley desenvolvido sob a administração da Rolls-Royce. Seu motor de 6 cilindros em linha tinha cerca de 3.669 cm³, derivado da arquitetura Rolls-Royce, e era associado a uma transmissão manual de 4 velocidades. Mais do que simplesmente oferecer potência, o projeto procurava entregar uma experiência de condução extremamente refinada, silenciosa e confiável, sem abandonar a tradição esportiva que havia construído o prestígio da Bentley. O resultado foi um automóvel capaz de viajar em velocidades elevadas durante longos períodos, característica que justificaria posteriormente o apelido ‘Silent Sports Car’ atribuído aos Derby Bentleys.
Mas era na carroceria que este exemplar se diferenciava radicalmente. A Gurney Nutting, estabelecida em Chelsea, Londres, estava entre as mais prestigiadas casas britânicas de carroceria e produzia formas especialmente elegantes para clientes dispostos a pagar por algo muito além de um automóvel produzido em série. O chamado Aerofoil Coupé recebeu uma carroceria de duas portas com superfícies cuidadosamente integradas, para-lamas de desenho fluido e uma linha de teto baixa e alongada que proporcionava ao Bentley uma aparência muito mais esportiva do que a dos sedans convencionais. Registros especializados identificam o chassi B183EJ de 1935, que aparece nas imagens, como um desses 3.5 Litre com carroceria Gurney Nutting Aerofoil.
A importância dessa carroceria fica ainda mais evidente quando observamos sua raridade. Os registros de especialistas indicam que apenas dois exemplares praticamente idênticos do 3.5 Litre Gurney Nutting Aerofoil Coupé chegaram à Índia, sendo o B183EJ destinado a Jodhpur e outro, identificado como B194FB, associado a Indore. O exemplar B183EJ foi entregue novo a Sua Alteza o Maharaja Umaid Singh de Jodhpur, que o utilizou como transporte pessoal até sua morte, em 1947. Posteriormente, o automóvel permaneceu na família e continuou ligado ao antigo Estado principesco de Jodhpur antes de retornar ao circuito internacional de colecionadores.
Essa ligação com a aristocracia indiana não era casual. Durante as décadas de 1920 e 1930, os marajás tornaram-se alguns dos mais importantes clientes das grandes casas europeias de carroceria, encomendando automóveis únicos ou extremamente raros. Bentley, Rolls-Royce, Bugatti, Mercedes-Benz e outras marcas encontraram na Índia principesca clientes dispostos a transformar seus automóveis em verdadeiras manifestações de personalidade e status. O Aerofoil de Jodhpur se encaixa perfeitamente nesse universo: embora baseado em um Bentley tecnicamente sofisticado, sua carroceria foi criada para ser reconhecida imediatamente.
Ao contrário dos grandes Bentley de competição da década anterior, o 3.5 Litre não pretendia simplesmente dominar uma pista. Sua vocação era a do Grand Tourer britânico, capaz de cruzar grandes distâncias com rapidez e conforto. A combinação do seis-cilindros de 3.7 litros, tração traseira, transmissão manual de 4 marchas e um chassi de construção robusta oferecia desempenho mais que suficiente para as estradas da época. A carroceria coupé acrescentava ainda maior proteção aos ocupantes e um ambiente mais exclusivo, enquanto o cuidadoso acabamento da Gurney Nutting transformava o automóvel em algo muito mais especial que um simples meio de transporte.
Existe ainda uma interessante relação entre esses automóveis e o próprio desenvolvimento da estética automobilística britânica. Em meados dos anos 1930, as carrocerias começavam a abandonar definitivamente as formas altas e excessivamente verticais dos anos 1920. O Aerofoil apresentava linhas mais baixas, fluidas e aerodinâmicas, embora ainda preservasse os elementos tradicionais - como os grandes para-lamas, o radiador vertical e em alguns casos as rodas de arame. Era, portanto, um automóvel situado exatamente na transição entre o conservadorismo clássico e a modernidade aerodinâmica que começava a dominar os grandes carros europeus.
O exemplar de Jodhpur chegou aos tempos modernos em condições suficientemente interessantes para despertar a atenção do mercado especializado. A Fiskens registra que o automóvel passou por um recondicionamento do motor realizado por especialista da marca, além de preservar sua importante procedência ligada ao Maharaja Umaid Singh. Sua história documentada é justamente um dos elementos que fazem desse Bentley algo tão especial: não estamos apenas diante de um raro Derby Bentley com uma carroceria excepcional, mas de um automóvel que testemunhou diretamente o mundo dos grandes Estados principescos da Índia.
O Bentley 3.5 Litre Gurney Nutting Aerofoil Coupé de 1935 é, portanto, um daqueles automóveis nos quais a ficha técnica conta apenas metade da história. A outra metade está na carroceria artesanal, na raridade, na ligação com a aristocracia indiana e na própria transformação da Bentley depois de sua incorporação ao universo Rolls-Royce. Mais do que um Derby Bentley, o Aerofoil Coupé é um retrato sobre rodas de uma época em que um automóvel podia ser simultaneamente máquina, símbolo de prestígio e peça de alta-costura automobilística.