DELAHAYE 135 CS ROADSTER (1936): A ELEGÂNCIA FRANCESA QUE NASCEU PARA CORRER
Na França de 1936, enquanto os grandes encarroçadores italianos começavam a transformar automóveis esportivos em verdadeiras esculturas aerodinâmicas, a Delahaye seguia uma filosofia particularmente francesa: combinar luxo, sofisticação mecânica e desempenho em uma mesma máquina. Entre suas criações mais especiais estava o Delahaye 135 CS Roadster, versão de competição derivada do recém-lançado Type 135 e desenvolvida para levar a marca de volta ao primeiro escalão das corridas internacionais. O resultado foi um automóvel extremamente raro, produzido em uma série de apenas 14 a 16 exemplares, dependendo da fonte, e que se tornou um dos mais importantes esportivos franceses da década.
O Type 135 havia sido apresentado no Salão de Paris de 1935 como parte de uma nova estratégia da Delahaye. Depois de anos concentrada em automóveis mais convencionais e veículos comerciais, a empresa retomara seriamente sua vocação esportiva. O projeto, concebido pelo engenheiro Jean François, utilizava como ponto de partida o motor Type 103, originalmente desenvolvido a partir de uma unidade destinada a veículos utilitários. Para o 135 CS, entretanto, o propulsor foi profundamente trabalhado: a cilindrada cresceu para 3.557 cm³, com diâmetro de 84 mm e curso de 107 mm, enquanto três carburadores Solex alimentavam o seis-cilindros em linha. Na configuração de competição, o motor alcançava aproximadamente 150-152 cv a 4.300 rpm, números expressivos para um seis-cilindros atmosférico com comando no bloco e válvulas no cabeçote.
A transformação não se limitava ao motor. A Delahaye criou para o 135 CS um chassi encurtado e rebaixado, muito mais apropriado às exigências das pistas. A versão de competição recebia uma estrutura mais leve, suspensão dianteira independente por molas transversais e eixo traseiro rígido com molas semielípticas. A carroceria também era construída pensando na redução de peso, muitas vezes assumindo a forma de um roadster leve, de dois lugares e com para-lamas separados, criando uma aparência ao mesmo tempo agressiva e elegantemente francesa.
Era justamente essa combinação que distinguia o 135 CS. Ele não tinha a brutalidade visual de alguns carros de corrida contemporâneos; havia nele uma espécie de sofisticação aristocrática mesmo quando preparado para competir. O longo capô escondia o seis-cilindros de 3.6 litros, enquanto a cabine recuada e a traseira curta davam ao roadster uma postura tipicamente pré-guerra. A Delahaye conseguira transformar um automóvel de competição em algo que ainda carregava a elegância associada aos grandes automóveis franceses.
E havia uma razão prática para tamanha preocupação com desempenho. O 135 CS foi concebido para enfrentar máquinas como Bugatti, Talbot-Lago e Alfa Romeo nas provas de estrada e circuito. Alguns exemplares tiveram carreiras competitivas particularmente intensas. Um dos carros de 1936, por exemplo, foi encomendado pelo chocolatier Jacques Menier, que mantinha sua própria equipe de competição. O chassi 135/47186 foi conduzido por Philippe Maillard-Brune em importantes provas francesas, incluindo o Grand Prix de l’Automobile Club de France, o Grand Prix de la Marne e as 3 Heures de Marseille.
Outro exemplar, hoje preservado pelo Audrain Automobile Museum, possui uma trajetória igualmente extraordinária. Construído em 1936 como um dos 135 CS de competição, foi encomendado pelo piloto privado Henri Toulouse, disputou a temporada daquele ano, venceu o Grand Prix de Marseille e terminou em segundo no Grand Prix de la Marne. Posteriormente correu em Le Mans e em provas inglesas, sendo enviado à Austrália em 1939. Décadas mais tarde, depois de uma restauração completa, passou a integrar a coleção Mullin.
A importância esportiva do projeto cresceria ainda mais nos anos seguintes. O Type 135 e suas variantes demonstrariam uma combinação extraordinária de velocidade e resistência, culminando na histórica vitória da Delahaye nas 24 Horas de Le Mans de 1938, quando um Delahaye terminou em primeiro e outros dois chegaram em segundo e quarto lugares. O modelo também conquistaria resultados expressivos em provas como o Rally de Monte Carlo e a Mille Miglia.
Há ainda um detalhe que ajuda a compreender o fascínio exercido pelo 135: a Delahaye não produzia suas próprias carrocerias em grande escala. O chassi tornou-se uma espécie de tela em branco para alguns dos maiores encarroçadores franceses, entre eles Figoni & Falaschi, Chapron, Pourtout, Saoutchik, Franay, Letourneur et Marchand e Labourdette. A partir de 1936, Figoni & Falaschi começaria inclusive a explorar no Type 135 uma linguagem inspirada na aviação, criando formas extremamente fluidas e extravagantes que ajudariam a definir a alta-costura automobilística francesa do período.
O 135 CS Roadster, porém, pertence a uma categoria diferente dessas criações de luxo. Seu objetivo principal era a competição, e sua construção priorizava leveza, resistência e comportamento dinâmico. Ainda assim, justamente por nascer em meio à extraordinária cultura francesa de carroceria, ele conseguiu preservar uma beleza que poucos carros de corrida da época possuíam. Era uma máquina concebida para acelerar nas estradas e circuitos europeus, mas carregava consigo o refinamento de uma França que transformara a construção artesanal de automóveis em uma verdadeira forma de arte.
O Delahaye 135 CS Roadster de 1936 representa, portanto, um dos momentos em que a indústria automobilística francesa esteve mais próxima de unir perfeitamente competição, engenharia e alta-costura. Pequeno em número, enorme em importância, ele foi uma das máquinas que recolocaram a Delahaye entre os protagonistas das corridas europeias e prepararam o caminho para os extraordinários Type 135, 145 e 165 que viriam a seguir.