1966 - ABARTH 1300 OT
Em meados da década de 1960, a Itália vivia um dos períodos mais brilhantes de sua indústria automobilística. Ferrari, Maserati, Alfa Romeo e Lamborghini produziam alguns dos esportivos mais desejados do mundo, enquanto uma pequena empresa instalada em Turin conquistava fama por transformar automóveis modestos em máquinas extraordinariamente rápidas. Essa empresa era a Abarth & C., fundada em 1949 pelo engenheiro austro-italiano Carlo Abarth, um apaixonado por desempenho que construiu sua reputação desenvolvendo motores, escapamentos e versões de competição capazes de superar adversários muito mais potentes. Entre suas inúmeras criações, uma das mais interessantes foi o Abarth 1300 OT, apresentado em meados da década de 1960 e aperfeiçoado ao longo dos anos seguintes. O modelo de 1966 representa o auge dessa primeira geração, combinando leveza, engenharia refinada e um desempenho que desafiava automóveis de categorias superiores.
A sigla OT, abreviação de ‘Omologata Turismo’, identificava uma família de esportivos criada para homologação nas competições de turismo da FIA. Diferentemente dos pequenos FIAT preparados pela Abarth apenas com modificações mecânicas, os modelos OT recebiam profundas alterações estruturais e aerodinâmicas, tornando-se praticamente automóveis novos. O 1300 OT tinha como ponto de partida o FIAT 850 Coupé, mas, após passar pelas oficinas da Abarth em Turin, pouco restava do tranquilo coupé familiar.
Visualmente, a transformação era impressionante. Embora preservasse a arquitetura básica do FIAT 850, o Abarth recebia uma dianteira redesenhada com entradas de ar maiores para melhorar a refrigeração do motor, para-lamas mais largos para acomodar pneus de competição e uma traseira completamente modificada. A tampa do compartimento do motor apresentava grandes venezianas de ventilação e um desenho mais aerodinâmico, favorecendo o fluxo de ar para o propulsor instalado atrás do eixo traseiro. Pequenos detalhes, como os emblemas do escorpião, as rodas de magnésio e os para-choques simplificados, completavam uma aparência discreta, porém claramente voltada para o desempenho.
O verdadeiro trabalho de engenharia, entretanto, encontrava-se sob a carroceria. O chassi do FIAT foi reforçado para suportar o aumento de potência e o uso intenso nas pistas. Diversos painéis passaram a ser confeccionados em alumínio, enquanto componentes desnecessários eram eliminados para reduzir o peso. O resultado era um automóvel com pouco mais de 600 quilos, número extraordinariamente baixo mesmo para os padrões da época.
O coração do 1300 OT era uma evolução do conhecido motor FIAT de 4 cilindros em linha. A cilindrada foi ampliada para 1.280 cm³, recebendo um novo virabrequim, pistões especiais, comando de válvulas de perfil mais agressivo, cabeçote retrabalhado e dois carburadores horizontais Weber 40 DCOE, responsáveis por alimentar o pequeno propulsor com impressionante eficiência. Na versão de rua, o motor desenvolvia aproximadamente 75 cv de potência, enquanto os exemplares preparados para competição ultrapassavam facilmente os 145 cv, um valor extraordinário para um motor de apenas 1.3 litros em meados dos anos 1960.
Essa potência era enviada às rodas traseiras através de uma transmissão manual de 4 velocidades, posteriormente substituída em algumas versões por uma caixa de 5 marchas de relações mais próximas. O conjunto privilegiava acelerações vigorosas e excelente aproveitamento da faixa útil de rotações, permitindo ao pequeno Abarth explorar plenamente o caráter esportivo do motor.
Graças ao baixo peso, o desempenho surpreendia. A versão de competição podia acelerar de 0 a 100 km/h em cerca de 7 segundos e atingir velocidades superiores a 210 km/h, números que colocavam o 1300 OT em pé de igualdade com esportivos muito maiores e mais caros. Em circuitos sinuosos, sua leveza e agilidade frequentemente permitiam superar automóveis equipados com motores de cilindrada significativamente superior.
A suspensão também recebeu atenção especial. Mantendo a arquitetura independente nas quatro rodas do FIAT 850, a Abarth introduziu novas molas, amortecedores recalibrados e barras estabilizadoras mais rígidas, proporcionando maior precisão nas curvas e melhor controle da carroceria. Os freios a disco dianteiros e tambores traseiros - ou discos nas versões de competição mais evoluídas - garantiam desacelerações compatíveis com o desempenho do conjunto.
O interior refletia claramente sua vocação esportiva. Os bancos convencionais deram lugar a assentos anatômicos de melhor apoio lateral, enquanto o painel recebia novos instrumentos destinados a monitorar pressão do óleo, temperatura da água, amperímetro e conta-giros de grande diâmetro, indispensável para aproveitar o elevado regime de funcionamento do motor. O volante esportivo de três raios e a alavanca de câmbio de curso curto completavam um ambiente pensado para a condução rápida.
Nas pistas, o 1300 OT rapidamente confirmou o talento da Abarth. Competindo nas categorias de Turismo e Gran Turismo de pequena cilindrada, o modelo acumulou vitórias em campeonatos nacionais e internacionais, tornando-se presença constante em provas de montanha, corridas de circuito e tradicionais competições de endurance. Sua combinação de confiabilidade, baixo peso e excelente comportamento dinâmico permitia enfrentar adversários tecnicamente mais sofisticados, reforçando a reputação da Abarth como especialista em extrair desempenho máximo de motores compactos.
O sucesso esportivo do 1300 OT também teve importante papel comercial. Muitos componentes desenvolvidos para o modelo de competição passaram a ser oferecidos como kits de preparação para proprietários de FIAT de rua, fortalecendo ainda mais a imagem da Abarth como referência em alta performance. Essa estratégia ajudou a consolidar a empresa como um dos preparadores mais respeitados da Europa durante os anos 1960.
Hoje, o Abarth 1300 OT de 1966 é considerado um dos mais importantes esportivos italianos de pequena cilindrada já produzidos. Sua fabricação limitada, seu histórico de competições e sua ligação direta com Carlo Abarth fazem dele uma peça extremamente valorizada em concursos de elegância, eventos históricos e leilões internacionais. Exemplares preservados em configuração original ou restaurados segundo as especificações de fábrica são disputados por colecionadores em todo o mundo.
Mais do que uma versão preparada do FIAT 850, o Abarth 1300 OT representou a essência da filosofia de Carlo Abarth: reduzir peso, aperfeiçoar a mecânica e transformar automóveis aparentemente modestos em verdadeiras máquinas de competição. Seu desempenho impressionante, sua engenharia inteligente e sua marcante personalidade esportiva fizeram dele um dos pequenos grandes ícones do automobilismo italiano. Quase seis décadas após sua estreia, o pequeno escorpião de Turin continua sendo uma das mais brilhantes demonstrações de que talento em engenharia pode superar, com folga, a simples vantagem da potência bruta.