1910 - ALFA ROMEO 24HP ‘VETTURA’
No coração industrial de Milão, em meio às chaminés fumegantes e ao burburinho da Belle Époque italiana, uma empresa emergiu das cinzas de uma falência para moldar o futuro do automóvel: a Anonima Lombarda Fabbrica Automobili (A.L.F.A.), fundada em 24 de junho de 1910. Seu primeiro produto, o icônico 24 HP - ou simplesmente ‘Vettura’ em sua essência primordial -, não era apenas um carro; era o manifesto de uma nação renascentista, projetado para conquistar estradas e pistas com elegância mecânica. Projetado pelo engenheiro Giuseppe Merosi, essa máquina de 24 cv marcou o alvorecer da Alfa Romeo, uma saga que, de um modesto tourer familiar, evoluiu para o rugido das corridas e o glamour global, influenciando gerações de entusiastas até os dias atuais.
A história do Vettura de 1910 remonta à crise de 1909, quando a subsidiária italiana da francesa Darracq - a Società Italiana Automobili Darracq - afundou em dívidas, paralisando sua fábrica em Portello, nos arredores ocidentais de Milão. O aristocrata italiano Ugo Stella, investidor e ex-gerente da Darracq, viu na ruína uma oportunidade. Com o apoio de um grupo de empreendedores lombardos, ele adquiriu os ativos em junho de 1910, rebatizando a empresa como A.L.F.A. - um acrônimo que ecoava ambição regional e inovação anônima. A fábrica, erguida em um terreno vasto que outrora abrigara a Exposição Internacional de Milão, tornou-se o berço de uma revolução automotiva. Menos de um ano após a fundação, em dezembro de 1910, o 24 HP rolou para fora da linha de montagem: um tourer de quatro portas com chassi convencional de aço prensado, motor de 4 cilindros em linha de 4.084 cm³ - conhecido como ‘Tipo A’ -, entregando 24 v de potência a 2.200 rpm e um torque robusto para a época.
Sob o comando de Merosi, o ‘pai’ dos Alfas iniciais, o Vettura priorizava equilíbrio entre performance e acessibilidade. Com transmissão manual de 4 velocidades, freios mecânicos apenas nas rodas traseiras e suspensão por folhas semi-elípticas, o carro pesava cerca de 1.000 kg e atingia 100 km/h em estradas planas - números impressionantes para um veículo projetado para famílias burguesas milanesas. Seu design sóbrio, mas elegante, com radiador vertical e lanternas acetilenadas, incorporava o logo inicial da A.L.F.A., um emblema simples que seria refinado em 1910 pelo ilustrador Romano Cattaneo: a cruz vermelha de Milão sobre o biscione Visconti, o mítico dragão devorando um homem, símbolo da heráldica lombarda. Produzido em cerca de 150 unidades até 1913, o 24 HP custava o equivalente a 12.000 liras - acessível para a elite industrial, mas um luxo para o operário médio.
O verdadeiro batismo de fogo veio nas pistas, onde o Vettura revelou seu DNA esportivo. Em 1911, apenas meses após o lançamento, uma versão preparada competiu na Semana Automobilística de Brescia, terminando em posições honrosas e atraindo olhares da imprensa europeia. Mas foi na Targa Florio de 1911, na Sicília, que o 24 HP brilhou: pilotado por Erardo Armani, ele conquistou a vitória na classe até 5.000 cm³, um triunfo que catapultou a A.L.F.A. para o estrelato internacional. Jornais da época, como o La Gazzetta dello Sport, exaltavam sua “velocidade felina e confiabilidade inabalável”, pavimentando o caminho para uma linhagem de vitórias que incluiria o primeiro Campeonato Mundial de Construtores em 1925 com a P2. Durante a Primeira Guerra Mundial, a fábrica de Portello se voltou para motores de aeronaves - o primeiro uso de um propulsor Alfa em um avião ocorreu em 1910, no biplano Santoni-Franchini -, mas o Vettura continuou a ser montado em pequena escala, adaptado para uso civil e militar.
A virada dramática veio em 1915, quando o engenheiro napolitano Nicola Romeo, um professor de matemática convertido em magnata da engenharia elétrica, assumiu o controle da empresa endividada. Sob sua gestão, a A.L.F.A. produziu compressores e motores de aviação para o esforço de guerra, acumulando lucros que financiaram a expansão pós-conflito. Em 1918, com a empresa agora pública, Romeo rebatizou-a como Alfa Romeo, fundindo seu sobrenome ao acrônimo original e eternizando o ‘Biscione’ como ícone global. O 24 HP, embora aposentado em 1913, legou lições cruciais: tração traseira robusta, motores de longa duração e um ethos de ‘la meccanica delle emozioni’ - a mecânica das emoções -, que definiria sucessores como o 6C e o lendário 8C.
Hoje, mais de um século depois, exemplares do Vettura de 1910 são relíquias raras, preservados em museus como o Alfa Romeo Historical Museum em Arese. Vendidos em leilões por centenas de milhares de euros, eles simbolizam o renascimento italiano de uma era turbulenta. Em um mundo de elétricos hiperconectados, o humilde 24 HP nos lembra que as maiores lendas nascem não de circuitos digitais, mas de ousadia humana: uma fábrica milanesa, um engenheiro visionário e uma ‘vettura’ que transformou poeira em pó em glória eterna.