1974 - ALFA ROMEO MONTREAL GOLD
Havia algo de poético na forma como a Itália dos anos 1970 enxergava o automóvel: cada novo modelo surgia como um gesto artístico, um fragmento de identidade nacional. Quando a Alfa Romeo decidiu apresentar ao mundo um conceito futurista na Expo 1967, em Montreal, talvez nem imaginasse que aquele protótipo assinaria o destino de um dos carros mais belos e intrigantes da sua história. Mas assim aconteceu - e o nome ficou: Alfa Romeo Montreal.
A responsabilidade estética ficou nas mãos de Marcello Gandini, então brilhando na Bertone. Gandini estava no auge da criatividade: era o período do Lamborghini Miura, das linhas ousadas, das proporções revolucionárias. E no Montreal ele ousou novamente. A dianteira com persianas semimóveis sobre os faróis, as ‘guerlas’ laterais ornamentais e a silhueta baixa e musculosa criavam um visual que misturava esporte, elegância e certa teatralidade. Era um carro que não parecia exatamente italiano, nem canadense - parecia simplesmente do futuro.
Mas o grande encanto do Montreal estava no fato de que sua beleza não era o único espetáculo. Escondido sob o capô estava um motor V8 de origem Alfa Romeo, derivado diretamente do motor de competição do Tipo 33. Um bloco de 2.6 litros com duplo comando de válvulas, injeção mecânica SPICA e 200 cv - números respeitáveis não apenas para o período, mas para um carro que não se pretendia um superesportivo puro. O som desse V8, metálico e ardente, transformava qualquer pequena aceleração em uma breve ópera mecânica.
Por dentro, o Montreal seguia o espírito exuberante dos anos 1970: instrumentos côncavos, detalhes cromados, volante esportivo, bancos envolventes e aquele perfume discreto de couro e madeira que só os italianos sabiam misturar sem exagero. O painel, com seus mostradores horizontais, dava a impressão de cockpit aeronáutico, reforçando o caráter futurista do modelo.
Na estrada, o Montreal era um gran turismo à moda europeia. Não era tão afiado quanto alguns rivais, mas oferecia equilíbrio, conforto e uma personalidade incomparável. Seu V8 pedia rotações, a suspensão priorizava a estabilidade e a transmissão ZF de 5 velocidades completava a receita. Era um carro para viajar rápido, não necessariamente para vencer em curvas fechadas.
A produção, iniciada em 1970, seguiu até 1977. A crise do petróleo, a complexidade mecânica e a posição de nicho limitaram sua popularidade, resultando em cerca de 3.900 unidades produzidas - um número que, hoje, só aumenta o fascínio em torno do modelo.
Como uma curiosidade final, apesar do nome, o Montreal nunca foi oficialmente vendido no Canadá. Seu batismo permanece como homenagem à feira internacional que o viu nascer - uma ironia charmosa que só reforça a aura quase cinematográfica de um dos modelos das Alfa Romeo mais admiráveis já construídos.