1953 - ALLARD P2 SAFARI ESTATE
Na década de 1950, enquanto a Grã-Bretanha ainda lambia as feridas da Segunda Guerra Mundial e sonhava com uma era de prosperidade, Sydney Allard - o engenheiro visionário por trás da Allard Motor Company - ousou criar um veículo que desafiava convenções: o P2 Safari Estate. Lançado em 1952 como modelo 1953, essa perua de dois volumes, conhecida como ‘shooting brake’ ou ‘woody wagon’, era uma fusão improvável de tradição rural britânica e fúria mecânica americana. Com capacidade para seis ou oito passageiros e um porta-malas generoso de 1.27 m³ (expansível para 2.69 m³), o Safari não era só um carro familiar; era um símbolo de renascimento pós-guerra, equipado com motores V8 potentes e um design de estrutura de madeira exposta que evocava aventuras em safaris africanos. Produzido em apenas 10 a 13 unidades até 1955, com no máximo cinco sobreviventes hoje, o P2 Safari permanece como uma raridade colecionável, vendida em leilões por até 55.000 libras esterlinas, e um testemunho da audácia de uma montadora que apostou alto - e perdeu - no mercado de luxo transatlântico.
A história do P2 Safari remonta ao sucesso estrondoso do Allard P1, um sedan de rally que, em janeiro de 1952, conquistou o Rally de Monte Carlo nas mãos do próprio Sydney Allard, ao lado dos copilotos Guy Warburton e Tom Lush - uma vitória que superou até o futuro ícone Stirling Moss. Esse triunfo, somado ao terceiro lugar geral nas 24 Horas de Le Mans de 1950 com o esportivo J2, impulsionou a Allard a expandir sua linha além dos roadsters ferozes. Fundada em 1945 em Clapham, Londres, por Allard - um competidor nato que começou construindo carros de trials nos anos 1930 -, a empresa já havia se destacado pela fusão de chassis leves britânicos com motores V8 americanos acessíveis, como os flatheads Ford ou os robustos Cadillac de 5.4 litros. O P2 Monte Carlo, sedan de quatro portas lançado em celebração à vitória no Monte Carlo, serviu de base para o Safari: um chassi tubular inspirado no K3 esportivo, com suspensão dianteira independente de molas helicoidais (herdada do J2) e eixo traseiro De Dion para estabilidade excepcional em estradas irregulares.
Projetado por uma equipe que incluía Dudley Hume, David Hooper, Sydney Allard e Reg Canham, o Safari era uma interpretação notável da perua ‘woody’ americana, com estrutura de madeira visível nas laterais e traseira - um aceno aos wagons de caça britânicos, mas com painéis de alumínio por baixo para leveza. Medindo cerca de 4.8 metros de comprimento, o carro acomodava bancos em couro marrom, aquecimento interno padrão, volante ajustável, luzes internas acionadas pelas portas e até uma luz de ré automática - inovações à frente de seu tempo. O motor, opcional entre Ford, Mercury, Chrysler ou o preferido Cadillac V8 de 5.4 litros (cerca de 160 cv e 366 Nm de torque), acoplado a uma transmissão manual de 3 velocidades, permitia acelerações vigorosas para um veículo de 1.400 kg, atingindo 160 km/h com torque abundante para ultrapassagens em rodovias. Freios a tambor Lockheed de 12 polegadas e direção Marles garantiam controle, tornando-o ideal para famílias abastadas ou aventureiros em rallys leves.
O lançamento no verão de 1952 visava o mercado norte-americano, onde peruas espaçosas eram hit entre a classe média emergente, mas o Safari encontrou resistência. Vendido por cerca de 2.500 libras esterlinas (equivalente a 70.000 libras esterlinas hoje), ele competia com luxuosos como o Bentley ou o Packard, mas sua produção artesanal - limitada a 21 unidades totais de P2s (11 sedans e 10 Safaris) - e o custo elevado frearam as vendas. Um exemplar de 1953, enviado para Wolverhampton, Inglaterra, foi revendido após seis meses, enquanto outro, importado para os EUA pela Denver Imported Motors, passou por mãos como as de Caroline L. Paquin Madison, em Colorado, antes de retornar à Europa nos anos 1970. A Allard esperava nicho em importados premium, mas a recessão e a concorrência de modelos mais acessíveis, como os microcars que a própria marca tentou explorar com o Clipper de 1953, selaram seu destino. A empresa, que produziu menos de 2 mil carros no total, fechou em 1959, vítima de falta de inovação frente a rivais como Jaguar e Triumph.
Apesar do fracasso comercial, o legado do P2 Safari perdura em eventos como o Goodwood Revival e leilões da Silverstone e RM Sotheby’s, onde sobreviventes restaurados - como o chassi P2-4506, com motor Cadillac e história documentada de 93 mil milhas - atraem colecionadores por sua presença imponente e versatilidade. Um modelo de 1953, em British Racing Green com teto Everflex, foi arrematado recentemente por 45.000 libras esterlinas, elogiado por sua ‘presença de comando na estrada’. Em um mundo de SUVs elétricos padronizados, o Allard P2 Safari Estate de 1953 evoca a essência do pós-guerra: uma perua que carregava famílias, bagagens e sonhos de velocidade, forjada em madeira e aço, mas impulsionada pelo rugido americano. Para entusiastas, não é só um carro - é um capítulo esquecido de como a Grã-Bretanha tentou reconquistar o asfalto com estilo indomável.