1964 - ALPINE A110 1300 S
Dieppe, Normandia, 1964. A França ainda saboreava os anos de reconstrução do pós-guerra, mas o espírito de inovação e velocidade pulsava forte nas pequenas oficinas da costa. Ali, um visionário chamado Jean Rédélé - piloto, empresário e apaixonado por automóveis - transformava um sonho em realidade: o Alpine A110, uma berlinette leve, ágil e lindamente proporcionada que logo se tornaria uma lenda dos rallys e das estradas sinuosas.
O A110 surgiu como evolução natural do A108, com produção efetiva iniciada em 1963. Seu desenho elegante, assinado por Giovanni Michelotti, escondia uma filosofia simples e genial: carroceria de fibra de vidro sobre um chassi backbone tubular de aço, motor traseiro e peso mínimo. Em 1964, as primeiras unidades ainda usavam motores derivados do Renault 8 (inicialmente 956 cm³ ou 1.108 cm³), mas o modelo já mostrava seu potencial. A versão 1300 S, que ganharia força nos anos seguintes (com introdução mais marcante a partir de 1965/1966), representava o ápice inicial dessa linhagem: um motor Gordini Cléon-Fonte de 4 cilindros em linha, 1.296 cm³, com cabeçote de alumínio, duplo carburador e regulagem especial que entregava cerca de 115 a 120 cv (dependendo da preparação). Combinado com uma transmissão de 5 velocidades (quase obrigatória nas versões mais potentes), permitia uma velocidade máxima próxima dos 220 km/h e acelerações que faziam o pequeno coupé colar no asfalto.
O que tornava o Alpine A110 mágico era seu peso pluma - cerca de 740 kg nas versões 1300 - e a distribuição de massas com forte viés traseiro (cerca de 60% atrás). Isso gerava um comportamento vivo, quase dançante: tendência à sobreviragem controlada que, nas mãos de pilotos habilidosos, transformava curvas em pura diversão. Suspensão independente nas quatro rodas, freios a disco (em muitas versões) e direção precisa completavam um pacote que parecia feito sob medida para as estradas de montanha dos Alpes ou para os especiais noturnos dos rallys.
Jean Rédélé, que batizou sua marca em homenagem às estradas alpinas que tanto amava, produziu o A110 de forma quase artesanal em Dieppe. Não eram carros de luxo ostentosos, mas máquinas puras, com interior espartano, volante de três raios e um ronco característico que ecoava a herança Renault-Gordini. Embora a versão exata 1300 S de 1964 fosse ainda rara (o 1300 ganhou força a partir de 1965), ela já anunciava o que viria: vitórias em rallys franceses, o título europeu e, anos depois, o coroamento como campeão mundial de rally em 1973, com triunfos épicos em Monte Carlo.
Imagine a cena em 1964: um jovem piloto francês, com capacete simples e sorriso largo, acelerando esse Alpine pelas curvas da Normandia ou subindo os desfiladeiros dos Alpes. A fibra de vidro leve vibrando, o motor atrás cantando alto, o vento mal penetrando na cabine baixa e aerodinâmica. Era mais que um carro - era uma borboleta mecânica, frágil na aparência, mas feroz na alma.
Hoje, os poucos Alpine A110 1300 S sobreviventes são tesouros valorizados por colecionadores que apreciam sua pureza, sua história nos rallys e aquela capacidade única de transformar qualquer estrada em palco de aventura. Eles representam o melhor da escola francesa: engenharia inteligente, paixão sem excessos e a alegria de pilotar algo que parece vivo.