Pular para o conteúdo

1971 - ALPINE A110 1600 S

Na França do início da década de 1970, um pequeno esportivo de aparência delicada, dimensões compactas e comportamento extraordinariamente ágil estava construindo uma das trajetórias mais importantes da história dos rallys. Seu nome era Alpine A110, uma berlinette que, apesar de não contar com a potência dos grandes esportivos da época, compensava essa diferença com baixo peso, excelente equilíbrio dinâmico e uma concepção mecânica especialmente adequada às estradas sinuosas. Em sua configuração 1600 S de 1971, o modelo representava uma das expressões mais desenvolvidas da filosofia de Jean Rédélé, fundador da Alpine: construir automóveis esportivos leves, eficientes e capazes de transformar cada curva em uma oportunidade de demonstrar sua superioridade dinâmica.

A história da Alpine começou em 1955, quando Jean Rédélé, empresário e piloto francês, fundou a empresa em Dieppe. Sua experiência com automóveis Renault nas competições havia convencido o jovem construtor de que a combinação entre mecânica confiável, baixo peso e carroceria aerodinâmica poderia produzir esportivos particularmente competitivos. O nome Alpine foi escolhido como referência às estradas alpinas, onde Rédélé havia obtido importantes resultados esportivos. Depois de modelos pioneiros como o A106 e o A108, a marca apresentou o A110 no Salão de Paris de 1962, estabelecendo as bases de um automóvel que se tornaria um dos maiores ícones franceses do automobilismo.

A carroceria da berlinette, desenvolvida a partir dos princípios do A108, foi concebida para oferecer excelente eficiência aerodinâmica e dimensões extremamente compactas. O desenho apresentava capô dianteiro baixo, para-lamas pronunciados, faróis circulares protegidos por coberturas transparentes, para-brisa inclinado e uma linha de teto suavemente descendente em direção à traseira. A carroceria de fibra de vidro reforçada com resina contribuía decisivamente para a redução de peso, enquanto a estrutura central de aço proporcionava a rigidez necessária. O motor instalado longitudinalmente na traseira definia as proporções particulares do modelo e permitia uma distribuição de massas que favorecia a tração nas acelerações.

Para 1971, a Alpine introduziu algumas alterações que ajudam a identificar os exemplares daquele ano. Os indicadores de direção dianteiros, anteriormente integrados ao para-choque, passaram a ocupar uma posição mais elevada, sobre os para-lamas. As berlinettes também receberam rodas de liga leve de 13 polegadas, com desenho específico, além de pequenas modificações no painel de instrumentos. Eram evoluções discretas, mas que acompanhavam o amadurecimento de um projeto já bastante competitivo.

O habitáculo era simples e funcional, com bancos individuais, volante esportivo e instrumentação voltada à condução. Não havia preocupação em oferecer o luxo de um gran-turismo convencional: a prioridade era reduzir peso e proporcionar ao condutor uma ligação direta com o automóvel. A posição de condução baixa, a visibilidade relativamente ampla e os comandos próximos reforçavam essa proposta.

A grande atração estava na mecânica. O A110 1600 S utilizava um motor Renault de 4 cilindros em linha, com 1.565 cm³, derivado da unidade empregada no Renault 16 TS, mas profundamente preparado para aplicação esportiva. Instalado longitudinalmente em posição traseira, o propulsor utilizava dois carburadores Weber de corpo duplo e desenvolvia aproximadamente 138 cv a 6.000 rpm. O torque máximo era de aproximadamente 144 Nm a 5.000 rpm. A transmissão manual de 5 velocidades, montada em conjunto com o motor, enviava a força às rodas traseiras.

Com apenas cerca de 680 kg, a berlinette apresentava uma relação peso-potência extraordinária para sua época. A velocidade máxima alcançava aproximadamente 215 km/h, enquanto a aceleração e a capacidade de retomada eram favorecidas pela combinação entre baixo peso, escalonamento da transmissão e elevada aderência do eixo traseiro. A suspensão independente, com braços sobrepostos na dianteira e semieixos oscilantes na traseira, contribuía para a agilidade característica do modelo. Os freios a disco nas quatro rodas completavam o conjunto mecânico.

Entretanto, a verdadeira dimensão do A110 só pode ser compreendida quando observamos sua trajetória nas competições. A Alpine transformou a pequena berlinette em uma das máquinas de rally mais respeitadas de sua geração. Em 1971, a marca conquistou o Campeonato Internacional de Marcas, precursor do atual Campeonato Mundial de Rally, com resultados expressivos em provas como o Rally de Monte Carlo. O modelo demonstrava que uma preparação inteligente, um chassi equilibrado e uma carroceria leve podiam superar adversários muito mais potentes.

Naquele mesmo período, a Alpine também disponibilizava uma versão de competição para clientes, denominada A110 1600 S Grupo 4. Preparada para provas de rally, ela utilizava um motor ampliado para 1.596 cm³, com potência de aproximadamente 160 cv. Recebia ainda radiador de óleo traseiro, rodas mais largas, tanque de combustível central de 80 litros e uma carroceria especialmente aliviada, que permitia reduzir o peso para apenas 685 kg. Era uma berlinette ainda mais radical, destinada aos pilotos particulares e às equipes que desejavam competir em alto nível.

A consagração definitiva da família A110 viria em 1973, quando a Alpine conquistou o primeiro Campeonato Mundial de Rally para Construtores, consolidando sua reputação internacional e transformando a pequena berlinette azul em um símbolo do automobilismo francês.

O Alpine A110 1600 S de 1971 permanece, portanto, como um dos grandes exemplos de engenharia esportiva inteligente. Seu legado não está apenas nos títulos conquistados, mas também na demonstração de que leveza, equilíbrio e eficiência podem ser tão importantes quanto a potência absoluta. Um pequeno automóvel francês que enfrentou gigantes e conquistou um lugar definitivo na história dos esportivos europeus.