1916 - AMERICAN LaFRANCE ROADSTER
Elmira, New York, 1916. Enquanto a Europa estava mergulhada na Primeira Guerra Mundial e os Estados Unidos ainda saboreavam os últimos anos de paz antes de entrar no conflito, uma fábrica conhecida por fabricar os mais temidos e respeitados veículos de combate a incêndios do país produzia algo inesperado: automóveis de passeio poderosos, brutais e absolutamente impressionantes. A American LaFrance, famosa por seus carros de bombeiros a vapor e depois motorizados, decidiu aplicar sua expertise em motores gigantes e chassis robustos em uma linha limitada de carros de passageiros - e o resultado foi o American LaFrance Roadster de 1916, um dos veículos mais intimidadores e raros da era Brass.
A American LaFrance, fundada em 1873, era sinônimo de força e confiabilidade. Seus aparelhos de incêndio precisavam de motores capazes de bombear água em alta pressão e rodar a toda velocidade para chegar primeiro ao local do sinistro. Essa mesma filosofia foi transferida para os automóveis de passeio. Entre 1910 e 1920, a empresa produziu apenas cerca de 22 carros de passageiros (além de alguns speedsters e conversões posteriores), quase todos feitos sob encomenda. O modelo de 1916 utilizava chassi derivado dos usados nos equipamentos de bombeiros, com entre-eixos longo (geralmente entre 3.00 e 3.66 metros) e construção extremamente sólida.
O coração desses monstros era um motor T-head inline-six de capacidade colossal. Dependendo da configuração, o deslocamento variava entre 9.4 litros e impressionantes 14 litros, entregando em torno de 100 cv ou mais em versões ajustadas - números extraordinários para a época. Alguns exemplares chegavam a ter até 18 velas de ignição (três por cilindro). Acoplado a uma transmissão manual de 3 velocidades e, em muitos casos, tração final por correntes (chain drive), o conjunto oferecia torque brutal desde baixas rotações, perfeito para arrancar com rapidez ou manter velocidade constante em estradas ainda precárias.
A carroceria do Roadster era tipicamente esportiva e minimalista: um two-seater aberto com linhas longas e imponentes, para-lamas altos, tanque de combustível montado na traseira e um visual que transmitia pura força mecânica. Muitos exemplares ganharam posteriormente carrocerias boattail ou speedster por oficinas especializadas, mas todos preservavam o DNA pesado e imponente da marca. Com peso superior a 2 toneladas em alguns casos, esses carros não eram ágeis como um Mercer ou um Stutz, mas sim máquinas de presença avassaladora - verdadeiros ‘bombardeiros de estrada’ que faziam as cabeças virarem por onde passavam.
Imagine em 1916 um rico industrial ou um entusiasta da velocidade acelerando um American LaFrance Roadster pelas estradas de terra ou cascalho do interior de New York ou da Pensilvânia. O ronco grave e profundo do motor de 6 cilindros T-head ecoando como um trovão, o cheiro de óleo e gasolina, e aquela sensação de pilotar algo que parecia mais um carro de bombeiros disfarçado do que um automóvel comum. Não era um carro para todos - era para quem queria o melhor da engenharia americana da época, sem concessões.
A produção de automóveis de passeio da American LaFrance terminou por volta de 1920, quando a empresa decidiu concentrar todos os esforços nos veículos de emergência, segmento no qual dominou por décadas. Hoje, os poucos exemplares sobreviventes - muitos deles convertidos em speedsters ao longo dos anos - são raridades absolutas, cobiçados por colecionadores e exibidos em leilões de prestígio. Eles representam um capítulo único da história automotiva: quando o fabricante de ‘salvadores de vidas’ decidiu criar máquinas que, por si só, também aceleravam o coração.
Um gigante nascido do fogo que, por breves anos, incendiou as estradas americanas.