1916 - AMERICAN LaFRANCE SPEEDSTER
Em uma era de motores a vapor e cavalos exaustos, quando os sinos de alarme ecoavam pelas ruas americanas como prelúdios de caos, a American LaFrance (ALF) emergia como guardiã das chamas. Fundada em 1873 por Truxton Slocum LaFrance e seus sócios, a empresa - cujas raízes remontam a 1832 na construção de equipamentos manuais contra incêndios - revolucionou o combate ao fogo com sua primeira bomba motorizada em 1907. Mas em 1916, em meio à poeira da Primeira Guerra Mundial e ao rugido das inovações edwardianas, um subproduto improvável nasceu: o American LaFrance Speedster, um ‘carro-chefe’ que transformava chassis de bombeiros em bestas de velocidade, simbolizando a transição do utilitário para o prazer veloz.
O Speedster de 1916, baseado principalmente nos robustos chassis Type 40 e Type 75, não era um produto de linha de montagem em massa, mas uma criação esporádica e personalizada. Entre 1910 e 1920, a ALF produziu cerca de 22 veículos de passageiros exclusivos, apelidados internamente de ‘chief’s cars’ - presumivelmente para o uso da alta gerência da empresa. Adicionando a isso, um punhado de ‘racers’ ou speedsters, muitos deles conversões retroativas de antigos caminhões de bombeiros. Esses monstros mecânicos evocavam os leviatãs das corridas da era do níquel, com motores T-head de 6 cilindros inline de impressionantes 9.4 a 14.1 litros, capazes de gerar até 100 cv - uma potência que rivalizava com os maiores roadsters da época, como o Mercer Type 35 Raceabout.
Sob o capô alongado, o coração pulsante era um motor T-head de deslocamento colossal, alimentado por carburadores de múltiplos barris e acoplado a uma transmissão manual de 3 velocidades com acionamento por corrente dupla - um sistema que transmitia torque bruto para rodas de artilharia maciças, alcançando velocidades superiores a 100 km/h em estradas poeirentas. A carroceria boattail, frequentemente em alumínio leve sobre estrutura de madeira, acomodava dois bancos em couro preto, com faróis de latão Gray & Davis, lanternas traseiras Saxon e um raro Moto-Meter no radiador, evocando o glamour brass era. Freios mecânicos a tambor nas rodas traseiras e suspensão rígida priorizavam a durabilidade sobre o conforto, tornando cada trajeto uma aventura trepidante. Preços? Inacessíveis para o homem comum, partindo de valores equivalentes a milhares de dólares atuais, reservando-os à elite industrial que via neles não só transporte, mas uma declaração de ousadia.
Apesar de sua proeza, a produção cessou abruptamente por volta de 1920, quando a ALF voltou seu foco integral para o império de equipamentos contra incêndios, dominando o mercado com bombas patenteadas e veículos para departamentos de cidades grandes e pequenas. Nos anos 1940 e 1950, speedsters da ALF se tornaram ícones entre entusiastas de orçamento apertado, oferecendo ‘diversão por dólar’ inigualável - potentes, barulhentos e acessíveis após o descarte de bombas e escadas desnecessárias. Hoje, com apenas uma dúzia de sobreviventes autênticos, eles brilham em leilões como o da RM Sotheby’s em Hershey, 2024, onde um 1916 alcançou cifras na casa dos 100.000 dólares, ou no Goodwood Revival, onde seu ronco grave e silhueta imponente viram cabeças.
O American LaFrance Speedster de 1916 permanece como um testamento à engenhosidade yankee: de herói das chamas a caçador de asfalto, ele nos lembra que a verdadeira velocidade nasce da necessidade - e da ousadia de reimaginá-la. Em um mundo de elétricos silenciosos, esses brass-era titãs rugem como relíquias vivas, convidando-nos a reviver o thrill da era das correntes e do fogo controlado.