1923 - AMILCAR CC DUVAL SPORT
Paris, 1923. A França ainda se recuperava das feridas da Grande Guerra, mas o espírito de inovação e prazer ao volante florescia nas estradas sinuosas da Île-de-France e nos circuitos amadores. Em meio ao boom dos cyclecars - veículos leves e acessíveis que beneficiavam de impostos reduzidos -, surgia uma marca jovem e vibrante: a Amilcar, fundada em 1921 por Joseph Lamy e Emile Akar. Seu primeiro modelo, o Type CC, rapidamente ganhou fama como um dos mais divertidos e bem-comportados da categoria. E quando vestido com carroceria esportiva pelo renomado encarroçador Charles Duval, de Boulogne-sur-Seine, transformava-se no encantador Amilcar CC Duval Sport - um pequeno roadster que unia simplicidade mecânica, agilidade e um toque de elegância francesa.
O Amilcar CC era um cyclecar puro: leve, compacto e projetado para oferecer desempenho surpreendente com baixo custo. Seu motor era um bloco de 4 cilindros em linha side-valve (válvulas laterais) de 903 cm³ (alguns exemplares evoluíram para cerca de 985 cm³ na versão CS), que entregava modestos 18 cv a altas rotações. Com ignição por magneto, carburador simples e lubrificação por salpico, o conjunto era mecânico e confiável para a época. Acoplado a uma transmissão manual de 3 velocidades, permitia uma velocidade máxima em torno de 100 km/h - número respeitável para um carro que pesava pouco mais de 500 kg e media apenas cerca de 2.32 metros de entre-eixos.
O que elevava o CC Duval Sport ao patamar de desejo era a carroceria aberta criada por Charles Duval. O famoso encarroçador especializava-se em Amilcars e produzia belos two-seater com linhas limpas, para-lamas arredondados, traseira ligeiramente inclinada e, em muitos casos, um visual torpedo ou boattail que enfatizava a esportividade. A estrutura leve (geralmente em madeira recoberta por alumínio ou aço fino) mantinha o peso baixo, enquanto a suspensão por molas semi-elípticas e freios traseiros (a maioria dos primeiros CC tinha freios apenas atrás) entregava um comportamento vivo e divertido nas curvas - característica que fez os Amilcar serem apelidados de ‘petit sport’ e participarem com sucesso em hillclimbs e provas amadoras.
Produzidos em números relativamente modestos nos primeiros anos, os CC equipados com carrocerias Duval tornaram-se os mais desejados entre os entusiastas. Eles representavam o espírito da época: carros acessíveis que permitiam a jovens pilotos ou aficionados desfrutarem da estrada sem o custo dos grandes Bugatti ou Delage. Muitos exemplares foram posteriormente atualizados para especificações CS (com eixo dianteiro reforçado, motor maior e outros refinamentos), mantendo o charme original.
Imagine a cena em 1923 de um jovem parisiense ou um entusiasta de província, com óculos de pilotagem e cachecol ao vento, acelerando seu Amilcar CC Duval Sport pelas estradas secundárias da Normandia ou subindo os declives de um hillclimb. O motor de 4 cilindros cantando alto, o vento entrando pela cabine aberta, e aquela sensação única de leveza e conexão mecânica - um carro que não era o mais potente, mas que recompensava com pura alegria de pilotar.
Hoje, os raros Amilcar CC Duval Sport sobreviventes são tesouros altamente valorizados nos círculos de veículos pré-guerra. Eles simbolizam o auge dos cyclecars franceses: uma era em que engenharia inteligente, carrocerias artesanais e espírito esportivo criavam máquinas cheias de personalidade, mesmo com motores modestos.