1928 - AMILCAR CGSS CRÈME
Em 1928, nas estreitas ruas de paralelepípedos de Paris, onde o perfume de croissant misturava-se ao ronco de motores em ascensão, a Amilcar consolidava seu reinado como a rainha das voiturettes francesas com o CGSS, ou ‘C Grand Sport Surbaissé’. Lançado como uma evolução do já celebrado CGS, este roadster rebaixado não era apenas um carro; era um manifesto de velocidade, leveza e estilo, projetado para jovens pilotos que sonhavam com a glória das pistas sem o preço proibitivo de um Bugatti. Em uma era de efervescência automotiva, o Amilcar CGSS de 1928 brilhou como um ícone da engenhosidade francesa, combinando charme Art Déco com a ferocidade de um tigre em miniatura.
A Amilcar, fundada em 1921 por Joseph Lamy e Emile Akar no vibrante 11º arrondissement, já havia conquistado sua reputação com o CGS ‘Grand Sport’ de 1924, um sucesso nas corridas de voiturettes. Mas foi o CGSS, introduzido em 1926 e refinado até 1929, que elevou a marca a um novo patamar. O ‘Surbaissé’ (rebaixado) referia-se ao chassi mais baixo, que reduzia o centro de gravidade, melhorando a estabilidade em curvas - uma inovação inspirada nas pistas e ideal para rallys e corridas de rua. Com um entre-eixos de 2.320 mm e peso de apenas 750 kg, o CGSS era uma pluma sobre rodas, projetado para dois ocupantes e equipado com uma carroceria em alumínio que exibia linhas fluidas e para-lamas curvos, frequentemente pintados em tons vibrantes como vermelho cereja, azul escuro ou verde racing, com detalhes em couro e cromo polido.
Sob o capô, o CGSS abrigava um motor side-valve de 4 cilindros e 1.074 cc, produzindo cerca de 35 cv a 4.500 rpm - modesto, mas suficiente para impulsionar o leve roadster a velocidades de até 120 km/h. Acoplado a uma transmissão manual de 4 velocidades, o motor era alimentado por um carburador Solex, com lubrificação por salpico e ignição por magneto, garantindo confiabilidade em condições exigentes. A suspensão, com molas semi-elípticas dianteiras e traseiras, e freios a tambor nas quatro rodas - uma raridade para voiturettes da época - proporcionavam agilidade e controle, tornando o CGSS um favorito em eventos como o Bol d’Or e as 24 Horas de Spa. O modelo também oferecia opções de personalização, com coachworks de casas como Duval ou Figoni, que adicionavam toques de elegância sob medida, como capotas de lona retráteis e painéis de madeira envernizada.
Lançado no Salão de Paris de 1926, o CGSS rapidamente se tornou um sucesso entre entusiastas e pilotos amadores, com um preço inicial de cerca de 20.000 francos - acessível para a classe média alta, mas ainda um luxo frente a modelos familiares como o Citroën Type A. Entre 1926 e 1929, aproximadamente 1.900 unidades do CGSS foram produzidas, parte dos 4.700 CGS e CGSS combinados, segundo registros da Amilcar. Sua fama nas pistas foi inegável: em 1927, um CGSS pilotado por André Morel venceu sua classe no Grand Prix de Boulogne, enquanto outro modelo brilhou em rallys regionais pela França. Tragicamente, o carro também ficou marcado pela morte da dançarina Isadora Duncan em 1927, quando seu lenço se enroscou na roda traseira de um CGSS em Nice, um incidente que adicionou uma nota de infâmia à sua aura romântica.
Um exemplar notável, um CGSS de 1928 com carroceria roadster de dois lugares, ilustra o legado duradouro do modelo. Originalmente vendido a um banqueiro parisiense, o carro participou de rallys locais antes de ser exportado para os EUA nos anos 1950. Restaurado na década de 2000 com pintura vermelho-vivo e interior em couro preto, ele conquistou o prêmio ‘Best in Class’ no Amelia Island Concours de 2012 e foi leiloado pela Bonhams em 2020 por cerca de 66.000 dólares - um valor que reflete sua raridade, com menos de 200 unidades sobreviventes. Outro CGSS, equipado com um supercharger opcional, foi destaque no Goodwood Revival de 2023, onde seu ronco agudo e silhueta esguia roubaram a cena.
Apesar de seu brilho, o CGSS enfrentou desafios. A Grande Depressão, que abalou a Europa a partir de 1929, forçou a Amilcar a diversificar com modelos familiares como o Type M, enquanto o foco em voiturettes esportivas perdeu fôlego frente à concorrência de marcas maiores. A falência da empresa em 1934 e sua absorção pela Hotchkiss em 1937 marcaram o fim da linha, mas o CGSS permaneceu um símbolo da audácia francesa. Influenciando designs de marcas como Salmson e Rally, ele provou que carros pequenos podiam ter alma grande.
Hoje, o Amilcar CGSS de 1928 é uma joia cobiçada por colecionadores, aparecendo em eventos como o Mille Miglia Storica, onde sua leveza e agilidade ainda impressionam. Em um mundo dominado por SUVs e elétricos silenciosos, o CGSS nos transporta a uma era de estradas abertas e espírito indomado - um pequeno tigre que, com seu rugido delicado, continua a acelerar corações e memórias.