1987 - ASTON MARTIN LAGONDA SERIES 3
Quando a Aston Martin apresentou o Lagonda em 1976, o mundo dos automóveis de luxo parecia preso a uma estética tradicional dominada por linhas clássicas, abundância de cromados e soluções técnicas conservadoras. O novo sedan britânico rompeu completamente com esse paradigma. Projetado por William Towns, o Lagonda parecia um veículo vindo diretamente do século XXI, reunindo uma carroceria de formas geométricas extremamente angulares, uma cabine repleta de eletrônica e um nível de exclusividade que poucos automóveis poderiam igualar. Em 1987, na fase correspondente à Series 3, o modelo havia atingido seu estágio mais refinado sem abrir mão da identidade futurista que o transformou em um dos carros mais ousados da história da indústria automobilística.
A terceira série, produzida entre 1986 e 1987, representou uma evolução cuidadosa do projeto original. Diferentemente da profunda reformulação que seria introduzida pouco depois com a Series 4, o Lagonda Series 3 preservava integralmente o design criado por William Towns, incluindo um de seus elementos mais marcantes: os elegantes faróis escamoteáveis, perfeitamente integrados ao longo capô horizontal. Quando fechados, contribuíam para a aparência limpa e extremamente aerodinâmica da dianteira, reforçando a impressão de que o automóvel havia sido desenhado muito antes de seu tempo.
Com quase 5.30 metros de comprimento, o Lagonda possuía uma presença única. Seu perfil em forma de cunha, a linha de cintura elevada, as superfícies planas, os grandes painéis metálicos e a traseira abruptamente truncada criavam uma silhueta que permanecia inconfundível mesmo em uma década marcada por designs arrojados. Não havia outro sedan de luxo semelhante, nem na Europa nem nos Estados Unidos.
Embora seu estilo dividisse opiniões, o impacto visual era inegável. O Lagonda chamava atenção tanto diante de um hotel cinco estrelas em Londres quanto circulando pelas avenidas de Mônaco, Beverly Hills ou Dubai. Tornou-se rapidamente um símbolo de status entre empresários, artistas e, sobretudo, membros das famílias reais do Oriente Médio, que apreciavam sua exclusividade e seu caráter quase artesanal.
O interior era tão revolucionário quanto o exterior. Desde o lançamento, a Aston Martin pretendia criar o painel mais avançado do mundo, e na Series 3 esse objetivo finalmente alcançava um grau muito maior de maturidade. Os primeiros complexos sistemas baseados em tubos de raios catódicos deram lugar a um conjunto eletrônico mais confiável, utilizando mostradores digitais fluorescentes a vácuo, que exibiam velocidade, rotação do motor, temperatura, pressão de óleo e diversas outras informações de maneira futurista para a época.
Ao redor do condutor, diversos comandos eletrônicos substituíam interruptores convencionais, criando um ambiente que lembrava o cockpit de uma aeronave. Em 1987, poucos automóveis ofereciam tamanho nível de sofisticação tecnológica, antecipando soluções que só se tornariam comuns na indústria duas ou três décadas depois.
Apesar dessa atmosfera futurista, o acabamento permanecia profundamente tradicional. Cada Lagonda era montado artesanalmente em Newport Pagnell, onde centenas de horas eram dedicadas à construção de cada exemplar. Bancos revestidos em couro Connolly selecionado, espessos tapetes Wilton, madeira de nogueira inglesa polida manualmente e detalhes metálicos cuidadosamente ajustados demonstravam que o refinamento artesanal continuava sendo uma das maiores virtudes da Aston Martin.
Sob o longo capô permanecia o tradicional V8 de 5.340 cm³, construído inteiramente em alumínio e derivado do motor desenvolvido originalmente por Tadek Marek. Na Series 3, o propulsor abandonava definitivamente os carburadores Weber em favor da moderna injeção eletrônica Weber-Marelli, proporcionando funcionamento mais suave, respostas mais lineares ao acelerador, menor consumo de combustível e melhores níveis de emissões.
A potência situava-se em torno de 310 cv, acompanhada por um torque abundante que favorecia uma condução refinada e sem esforço. A força era enviada exclusivamente às rodas traseiras por meio da conhecida transmissão automática Chrysler TorqueFlite de 3 velocidades, cuja robustez e suavidade de funcionamento haviam sido amplamente comprovadas ao longo dos anos.
Mesmo pesando aproximadamente 1.900 kg, o Lagonda oferecia desempenho compatível com seu prestígio. A aceleração de 0 a 100 km/h ocorria em cerca de 7.5 segundos, enquanto a velocidade máxima aproximava-se dos 240 km/h, números bastante expressivos para um sedan de luxo da segunda metade dos anos 1980.
Sua suspensão independente nas quatro rodas proporcionava excelente estabilidade em alta velocidade, preservando o conforto esperado de um gran turismo britânico. A direção hidráulica transmitia precisão superior à normalmente encontrada em automóveis desse porte, enquanto os freios a disco ventilados garantiam desacelerações seguras mesmo em velocidades elevadas.
A produção permanecia extremamente limitada. Cada Lagonda exigia um enorme volume de trabalho manual, o que fazia com que seu preço figurasse entre os mais elevados do mercado mundial. Essa exclusividade acabou transformando o modelo em um dos automóveis preferidos de colecionadores e clientes que buscavam algo completamente diferente dos tradicionais Rolls-Royce, Bentley ou Mercedes-Benz.
Hoje, o Aston Martin Lagonda Series 3 de 1987 é considerado por muitos entusiastas a expressão mais fiel da visão original de William Towns. Ele reúne o design futurista que tornou o modelo famoso, preservando os icônicos faróis escamoteáveis e incorporando uma eletrônica significativamente mais confiável do que a das primeiras unidades. Mais do que um sedan de luxo, o Lagonda permanece como um dos mais ousados exercícios de design e engenharia da história da Aston Martin, um automóvel que desafiou convenções e antecipou tendências com uma coragem raramente vista na indústria automobilística.