1924 - BENTLEY 4.5 LITRE PARK WARD OPEN TOURER
No final da década de 1920, a Bentley já havia conquistado uma reputação extraordinária graças às vitórias nas 24 Horas de Le Mans e à filosofia de seu fundador, Walter Owen Bentley, de construir “um carro rápido, um bom carro, o melhor de sua classe”. Foi nesse ambiente de prosperidade, sofisticação e entusiasmo pelo automobilismo que surgiu o Bentley 4.5 Litre Park Ward Open Tourer, uma das mais refinadas interpretações do lendário chassi 4.5 Litre. Combinando a excelência mecânica da Bentley ao requinte artesanal do encarroçador britânico Park Ward, o modelo tornou-se um dos automóveis de turismo mais desejados de sua época, representando a perfeita união entre desempenho esportivo e elegância aristocrática.
A Bentley apresentou o 4.5 Litre em 1927 como sucessor natural do bem-sucedido 3 Litre. O novo modelo não foi concebido para substituir a filosofia da marca, mas para ampliá-la. O objetivo era oferecer maior potência, mais torque e um comportamento ainda mais refinado nas longas viagens, sem comprometer a robustez que havia transformado a Bentley em uma referência nas pistas e nas estradas europeias.
Naquela época, era comum que fabricantes como Bentley fornecessem apenas o chassi completo, equipado com motor, transmissão, suspensão e painel de instrumentos. Cabia ao comprador escolher um dos diversos encarroçadores independentes para criar a carroceria de acordo com seu gosto pessoal. Entre os mais prestigiados encontrava-se a Park Ward & Co. Ltd., fundada em Londres em 1919 e especializada na construção de carrocerias de altíssimo padrão para Bentley, Rolls-Royce e outras marcas britânicas de luxo.
O Open Tourer desenvolvido pela Park Ward refletia perfeitamente esse prestígio. Suas linhas eram elegantes e proporcionais, com o longo capô acomodando o potente motor de 4 cilindros, para-lamas separados da carroceria, estribos laterais, ampla cabine para quatro ocupantes e uma traseira suavemente arredondada que transmitia leveza apesar das dimensões generosas do automóvel.
Cada carroceria era construída inteiramente à mão. A estrutura utilizava uma armação de madeira de freixo cuidadosamente moldada, sobre a qual eram fixados painéis de alumínio conformados artesanalmente por experientes artesãos londrinos. Esse método permitia excelente acabamento e fazia com que praticamente nenhum exemplar fosse absolutamente idêntico ao outro.
A dianteira era dominada pela tradicional grade vertical cromada Bentley, ladeada por grandes faróis Lucas e complementada por buzinas externas, lanternas auxiliares e um elegante para-choque cromado. O enorme radiador, além de sua função prática, tornava-se um dos principais elementos de identidade visual da marca.
Com a capota de lona recolhida, o Open Tourer exibia uma silhueta extremamente elegante. O para-brisa bipartido, os delicados suportes cromados e a ausência de colunas fixas conferiam ao automóvel uma aparência leve e refinada, ideal para os passeios pelas estradas rurais inglesas ou pela Riviera Francesa durante o verão europeu.
O interior representava o que havia de melhor na indústria britânica da época. Os amplos bancos eram revestidos em couro Connolly de alta qualidade, enquanto o painel de instrumentos era confeccionado em madeira nobre polida, normalmente nogueira ou mogno, recebendo acabamento em várias camadas de verniz aplicado manualmente.
À frente do condutor encontravam-se grandes instrumentos Smiths, incluindo velocímetro, conta-giros, pressão do óleo, amperímetro, temperatura da água e indicador do nível de combustível. Cada instrumento possuía acabamento cromado e mostradores de fácil leitura, refletindo a preocupação da Bentley com a condução esportiva.
O enorme volante de quatro raios em madeira proporcionava excelente alavanca para manobrar um automóvel que ainda não dispunha de direção assistida. A longa alavanca de câmbio, posicionada ao lado do condutor, completava um ambiente ao mesmo tempo luxuoso e funcional.
Sob o longo capô encontrava-se um dos motores mais famosos da história da Bentley: um robusto bloco de 4 cilindros em linha de 4.398 cm³, equipado com comando de válvulas no cabeçote acionado por eixo e engrenagens, quatro válvulas por cilindro e dois carburadores Smith ou SU, dependendo da configuração.
Na especificação original, o motor desenvolvia cerca de 110 cv, número bastante expressivo para o final da década de 1920. Mais importante que a potência máxima era o abundante torque disponível em baixas rotações, permitindo que o automóvel mantivesse velocidades elevadas durante longas distâncias sem esforço aparente.
A transmissão manual de 4 velocidades possuía relações longas e suaves, ideais para viagens rápidas pelas estradas britânicas e europeias. A tração permanecia nas rodas traseiras, enquanto a embreagem multidisco garantia grande resistência ao uso intenso.
O desempenho impressionava os padrões da época. Dependendo da relação do diferencial e da carroceria instalada, o Bentley 4.5 Litre podia superar 145 km/h, velocidade que o colocava entre os automóveis de turismo mais rápidos do mundo no final dos anos 1920.
A suspensão utilizava eixos rígidos dianteiro e traseiro, sustentados por feixes de molas semielípticas e amortecedores ajustáveis. Embora simples sob a ótica atual, esse conjunto era extremamente robusto e permitia enfrentar estradas muitas vezes mal pavimentadas sem comprometer o conforto dos ocupantes.
Os freios mecânicos a tambor nas quatro rodas, assistidos pelo eficiente sistema servo desenvolvido pela Hispano-Suiza e licenciado pela Bentley, estavam entre os melhores disponíveis na indústria automobilística daquele período, proporcionando segurança superior à maioria dos concorrentes.
O 4.5 Litre tornou-se célebre também nas competições. Foi esse modelo que ajudou a consolidar a lenda dos ‘Bentley Boys’, o grupo de aristocratas britânicos apaixonados por velocidade que defendia a marca em provas internacionais. Entre eles destacavam-se nomes como Woolf Barnato, Tim Birkin, Glen Kidston e Sir Henry ‘Tiger’ Birkin, pilotos que transformaram a Bentley em uma potência das corridas de longa duração.
Embora os exemplares com carroceria Park Ward fossem destinados principalmente ao turismo de luxo, compartilhavam praticamente toda a engenharia dos carros utilizados em Le Mans. Isso significava que seus proprietários podiam desfrutar de um automóvel extremamente confortável durante a semana e, se desejassem, participar de provas de resistência ou rallys de regularidade nos fins de semana.
Ao longo da produção, entre 1927 e 1931, foram fabricados aproximadamente 720 chassis do Bentley 4.5 Litre, distribuídos entre diversos encarroçadores. As carrocerias da Park Ward figuram hoje entre as mais raras e valorizadas, especialmente os elegantes Open Tourer, que sobreviveram em número bastante reduzido.
Atualmente, um exemplar restaurado do Bentley 4.5 Litre Park Ward Open Tourer é presença constante em eventos como o Pebble Beach Concours d’Elegance, o Concorso d’Eleganza Villa d’Este, o Salon Privé e o Goodwood Revival, além de participar regularmente de rallys históricos como o Mille Miglia Storica. Dependendo de seu histórico e estado de conservação, essas raridades podem ultrapassar facilmente a marca de 1.5 milhão de dólares em leilões internacionais.
O Bentley 4.5 Litre Park Ward Open Tourer permanece como um dos mais belos representantes da chamada Era de Ouro do automobilismo britânico. Reunindo a engenharia sólida de Walter Owen Bentley, o refinamento artesanal da Park Ward e o espírito aventureiro dos Bentley Boys, ele simboliza uma época em que luxo, desempenho e elegância caminhavam lado a lado. Quase um século após seu lançamento, continua sendo uma das expressões mais autênticas do grand tourer clássico inglês, um automóvel concebido para atravessar continentes com rapidez, conforto e uma distinção que poucas máquinas conseguiram igualar ao longo da história.