1968 - BIZZARRINI 5300 GT STRADA BLUE
Na efervescente década de 1960, quando a Itália dominava o cenário automotivo com marcas como Ferrari e Lamborghini, um engenheiro renegado ousou desafiar o establishment com uma máquina de performance pura e design implacável: o Bizzarrini 5300 GT Strada. Este coupé de dois lugares, uma evolução do lendário Iso Grifo, representava o ápice da visão de Giotto Bizzarrini - ex-chefe de engenharia da Ferrari - para criar um esportivo acessível aos entusiastas, mas capaz de humilhar rivais nas pistas e estradas. Produzido em uma série limitada de cerca de 133 unidades entre 1964 e 1968, o 5300 GT Strada, com sua carroceria em alumínio leve e motor Chevrolet V8 de 5.3 litros, foi o carro mais bem-sucedido da efêmera Bizzarrini S.p.A. Exemplares de 1967, como o chassis IA3 0264 vendido por mais de 800.000 dólares em leilões recentes da RM Sotheby’s, continuam a atrair colecionadores globais, simbolizando uma era de inovação independente que quase eclipsou os gigantes de Maranello.
A saga do 5300 GT Strada está entrelaçada com a turbulenta carreira de Giotto Bizzarrini, um gênio da engenharia nascido em 1926 em Livorno. Formado pela Universidade de Pisa em 1953, Bizzarrini iniciou na Alfa Romeo, mas sua reputação explodiu na Ferrari, onde, a partir de 1957, liderou o departamento experimental. Ele foi o cérebro por trás de ícones como o F250 Testa Rossa, o F250 GT SWB e o revolucionário F250 GTO de 1962 - um carro que incorporava lições de distribuição de peso perfeita e chassi avançados. No entanto, conflitos com Enzo Ferrari culminaram em sua demissão em 1961, durante a famosa ‘Grande Caminhada’ de executivos da Ferrari. Livre, Bizzarrini fundou a Società Autostar e, em 1962, colaborou com o industrial Renzo Rivolta da Iso Rivolta para desenvolver o Iso A3/L Grifo - um gran turismo com motor V8 Chevrolet, projetado para rivalizar com a Ferrari.
O Grifo inicial, apresentado no Salão de Turin de 1962, usava um chassi monocoque soldado da Iso, mas Bizzarrini, obcecado por corridas, insistiu em uma versão leve para competições. Isso levou à criação do 5300 GT Corsa, que venceu a classe GT nas 24 Horas de Le Mans de 1964 e 1965, atingindo velocidades próximas a 305 km/h na reta de Mulsanne. Tensões com Rivolta - que priorizava versões rodoviárias - resultaram em um acordo: Bizzarrini reteve os direitos do nome ‘Grifo’ e, em 1964, fundou a Bizzarrini S.p.A. em Livorno, renomeando seu modelo para 5300 GT. A produção começou com carrocerias em alumínio pela Carrozzeria Sports Cars de Piero Drogo (antigo colaborador de Ferrari), montadas na fábrica de Bizzarrini.
O Design e a Engenharia: Uma Máquina de Precisão
O 5300 GT Strada era essencialmente um roadster ou coupé de dois lugares com layout mid-engine frontal e tração traseira, pesando apenas cerca de 900 kg graças ao chassi de plataforma fabricada em aço tubular e à carroceria semi-monocoque em alumínio rivetada. O design, influenciado por Bertone (que estilizou o Iso Grifo), apresentava linhas baixas e agressivas, com para-brisa inclinado e um coeficiente aerodinâmico que o tornava um dos mais eficientes da época. A versão Strada, para uso rodoviário, priorizava conforto com interior em couro e painel atualizado em modelos de segunda série (a partir de 1966), incluindo velocímetro e tacômetro Veglia.
Sob o capô, o coração era o motor small-block Chevrolet 327 de 5.358 cc, aspirado, produzindo 365 cv a 6.200 rpm e 522 Nm de torque em configurações de rua - com opções de carburador de quatro barris ou injeção. Acoplado a uma transmissão manual de 4 ou 5 velocidades (da ZF), o carro acelerava de 0 a 100 km/h em cerca de 5 segundos e atingia velocidades máximas acima de 275 km/h. A suspensão independente na frente e De Dion na traseira, com freios a disco Girling, garantia manobrabilidade excepcional, herdada das experiências de Bizzarrini com o GTO. Em 1966, versões como o Spyder (três unidades) e o 1900 GT Europa (um entry-level) diversificaram a linha, mas o Strada permaneceu o carro-estrela.
O ano de 1967 marcou o pico da produção, com cerca de 86 exemplares de carroceria em alumínio completados. Um modelo notável, o chassi IA3 0281, foi registrado na França em novembro de 1967, enquanto o 264 foi entregue nos EUA em setembro. Esses carros eram vendidos por cerca de 20.000 dólares - um preço competitivo para um esportivo que superava contemporâneos italianos em velocidade e leveza.
O Legado das Pistas e o Declínio: Sucessos e Quedas
Apesar do foco em versões de rua, o DNA de corrida do Strada era evidente: o Corsa derivado continuou a brilhar, com vitórias em eventos como a Targa Florio. No entanto, a Bizzarrini enfrentava desafios financeiros. A produção total foi baixa devido a problemas de suprimentos e a briga legal com a Iso, que continuou usando o nome Grifo. Em 1968, após o lançamento de uma versão 2 Plus 2 do 5300 GT America no Salão de Turin, a empresa faliu - atribuída a disputas com a American Motors Corporation por motores e à recessão. Bizzarrini produziu apenas cerca de 124 Stradas no total, muitos exportados para os EUA e Europa.
Giotto Bizzarrini continuou projetando, incluindo o P538 para o Conde Volpi e motores para Lamborghini, mas sua marca renasceu em 2021 com o novo Bizzarrini 400 4GT, homenageando o legado.
Herança Eterna: De Relíquias Raras a Ícones Modernos
Hoje, o 5300 GT Strada de 1967 é uma das joias mais cobiçadas do mundo clássico, com valores variando de 400.000 a mais de 1.2 milhões de dólares em leilões como os da RM Sotheby’s em Mônaco ou Villa d’Este. Restaurações, como a de um exemplar em Lausanne pela Rebellion Motors, visam ‘melhor que novo’, preservando painéis originais e chassis reforçados. Exemplares como o IA30234, restaurado por Gary Bobileff e exibido em Monterey, destacam sua história documentada por especialistas.
O Bizzarrini 5300 GT Strada não foi apenas um carro; foi a rebelião de um engenheiro contra o status quo, criando um esportivo que unia potência americana, engenharia italiana e alma de corrida. Em uma era de hipercarros elétricos, ele permanece como um testemunho de que a verdadeira grandeza vem da ousadia individual - uma máquina que ainda ruge nas curvas de Le Mans, décadas após sua produção.