1958 - BRM TYPE 25
Na Inglaterra do final dos anos 1950, a British Racing Motors (BRM) carregava uma história que misturava enorme ambição, dificuldades técnicas e uma insistência quase obstinada em provar que a engenharia britânica poderia enfrentar Ferrari, Maserati e Mercedes-Benz nos Grandes Prêmios. Depois da complicada aventura do espetacular V16 P15, a equipe encontrou um caminho muito mais racional com o Type 25, geralmente conhecido como BRM P25. Embora tenha surgido antes de 1958, foi justamente nessa temporada que o monoposto começou a demonstrar de maneira convincente o potencial de um projeto que acabaria proporcionando à BRM sua primeira vitória em um Grande Prêmio, com Jo Bonnier, no ano seguinte.
A origem do Type 25 remonta a um projeto iniciado em meados da década. Seu desenvolvimento ficou associado ao engenheiro Tony Rudd, que concebeu um automóvel muito mais simples e convencional que o antigo V16. Curiosamente, o nome ‘P25’ não descrevia exatamente o conjunto completo: como explica o historiador Doug Nye, o carro utilizava um chassi derivado do projeto P27 associado ao motor do Projeto 25, este último desenvolvido para a então nova categoria de 2.5 litros da Fórmula 1. A denominação P25 acabou sendo adotada posteriormente como a identificação consagrada do modelo.
O coração do BRM era um motor de 4 cilindros em linha de 2.490 cm³, naturalmente aspirado, com duplo comando de válvulas no cabeçote e alimentação por carburadores. A opção por 4 cilindros, em vez do complicado V16 utilizado anteriormente pela marca, representava uma mudança radical de filosofia: menos complexidade, menor peso e uma manutenção muito mais racional. O motor fazia parte de um conjunto compacto montado em um chassi tubular de construção leve, com o piloto sentado praticamente sobre o eixo traseiro, como era habitual nos monopostos de motor dianteiro daquele período.
A carroceria era extremamente enxuta. O longo nariz envolvia o motor e incorporava a característica entrada de ar frontal, enquanto os pequenos para-lamas dianteiros e traseiros deixavam as rodas expostas. O cockpit era estreito e envolvido por uma carroceria baixa, fazendo do P25 um típico Grand Prix car da segunda metade dos anos 1950. O conjunto conservava a configuração motor dianteiro e tração traseira, mas já enfrentava uma transformação que mudaria definitivamente a Fórmula 1: os pequenos Cooper de motor traseiro começavam a demonstrar que a distribuição de massas e a redução de peso poderiam ser mais importantes do que simplesmente aumentar a potência.
Essa mudança já era perceptível durante 1958. No Grande Prêmio da Holanda, em Zandvoort, os BRM P25 enfrentaram uma concorrência cada vez mais forte dos Cooper, Lotus, Ferrari e Vanwall. Harry Schell colocou um BRM em terceiro lugar no grid, mostrando que o carro tinha velocidade suficiente para disputar as primeiras posições. Na corrida, Schell chegou a ocupar a segunda posição e terminou em terceiro, enquanto Jean Behra também colocou um P25 entre os protagonistas da prova em diferentes momentos.
A temporada de 1958 também mostrou a evolução do carro em circuitos muito diferentes. No Grande Prêmio da França, disputado em Reims, um P25 conduzido por Harry Schell registrou o terceiro melhor tempo de classificação, atrás apenas de duas Ferrari. Schell chegou a liderar a corrida na largada, embora posteriormente abandonasse por problemas na bomba de combustível. No Grande Prêmio da Grã-Bretanha, porém, o piloto conseguiu levar o BRM ao quinto lugar, enquanto Jo Bonnier também utilizou um P25 em Monza, abandonando por problemas de transmissão.
O carro continuaria evoluindo para 1959, quando receberia importantes aperfeiçoamentos mecânicos. Foi nesse contexto que ocorreu o momento mais importante de toda a história do P25. No Grande Prêmio da Holanda de 1959, Jo Bonnier conquistou a pole position e, depois que os Cooper de Stirling Moss e outros adversários enfrentaram problemas de câmbio, assumiu a liderança. O sueco levou seu BRM até a bandeirada sem falhas importantes e conquistou uma vitória histórica: foi o primeiro triunfo da BRM em um Grande Prêmio do Campeonato Mundial de Fórmula 1 e também a primeira vitória de um piloto sueco na categoria.
A conquista tinha um significado especial porque a BRM havia estreado no Mundial quase uma década antes. O sucesso do P25 não apagava as dificuldades que haviam marcado os primeiros anos da equipe, mas demonstrava que a organização finalmente conseguira transformar seus recursos de engenharia em um automóvel competitivo e confiável. O triunfo de Bonnier em Zandvoort seria, inclusive, a única vitória de sua carreira na Fórmula 1.
Entretanto, o P25 estava chegando ao fim justamente quando a Fórmula 1 mudava de direção. A revolução dos Cooper de motor traseiro tornava os tradicionais monopostos de motor dianteiro progressivamente obsoletos. A própria BRM desenvolveria o P48, seu primeiro carro de motor traseiro, e o P25 continuaria aparecendo em algumas provas de 1960, já claramente em desvantagem diante da nova geração. O exemplar de chassi 258, por exemplo, chegou a disputar provas em Buenos Aires, na Argentina, antes de sua última aparição em Goodwood.
Há uma curiosidade particularmente interessante sobre a preservação desses carros. Quando os remanescentes da BRM foram colocados em leilão em 1981, um P25 de 1958 foi identificado como o carro de Grand Prix original que posteriormente seria associado à vitória de Bonnier em 1959. A documentação histórica da época destacava que aquele era considerado o único P25 genuíno existente, enquanto outros exemplares posteriormente conhecidos haviam sido construídos como réplicas utilizando componentes BRM.
O BRM Type 25 de 1958 representa, assim, uma fase particularmente importante da história da Fórmula 1 britânica. Não possuía a complexidade quase fantástica do antigo V16 nem a simplicidade revolucionária dos Cooper de motor traseiro, mas encontrou um ponto de equilíbrio entre potência, construção convencional e desenvolvimento contínuo. Foi o carro que finalmente transformou a BRM de uma promessa britânica atormentada por problemas em uma equipe capaz de vencer um Grande Prêmio, abrindo caminho para a geração de monopostos que, poucos anos depois, faria da BRM uma das principais forças da Fórmula 1.