1919 - BUGATTI AVIO 8C
O Bugatti Avio 8C de 1919 é uma peça singular na história automotiva, representando a genialidade de Ettore Bugatti e sua paixão por combinar engenharia automotiva com conceitos aeronáuticos. Desenvolvido em um período de grandes transformações tecnológicas, logo após a Primeira Guerra Mundial, o Avio 8C é um testemunho da inovação e da visão de Bugatti, cuja influência se estenderia a modelos icônicos como o Bugatti Royale. Este carro, ou melhor, “quase-carro”, como foi descrito por alguns, é envolto em mistério e fascínio, sendo um dos protótipos mais intrigantes da marca.
Contexto e Origem
No início do século XX, Ettore Bugatti já era reconhecido por sua habilidade em criar automóveis leves e de alto desempenho, como o Bugatti Type 10 e o Type 18 ‘Garros’. Sua fascinação por aviação, intensificada pela amizade com o aviador Roland Garros, levou-o a explorar o desenvolvimento de motores aeronáuticos. Garros, famoso por cruzar o Mediterrâneo em 1913, tinha o ambicioso plano de voar pelo Atlântico, e Bugatti foi encarregado de criar um motor capaz de suportar tal façanha. Assim nasceu o projeto do Avio 8C, um motor de 8 cilindros em linha com 14.5 litros de capacidade, projetado inicialmente para aviação, mas que nunca foi utilizado em aeronaves.
A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) interrompeu os planos de Garros, que se tornou piloto militar e faleceu em combate em 1918. Durante a guerra, Bugatti, operando em Paris enquanto sua fábrica em Molsheim estava sob controle alemão, colaborou com a empresa italiana Diatto, liderada por Pietro Diatto. Essa parceria, iniciada em 1907, permitiu que a Diatto fabricasse motores Bugatti sob licença, e foi nesse contexto que o Avio 8C foi desenvolvido. O motor, composto por dois blocos de 4 cilindros do Type 18 ampliados, entregava cerca de 200 a 250 cv a 2.160 rpm, uma potência impressionante para a época.
Desenvolvimento e Características Técnicas
O Bugatti Avio 8C foi projetado com uma abordagem inovadora, incorporando elementos de engenharia aeronáutica. Cada cilindro era construído individualmente dentro de uma jaqueta de água em aço, com quatro válvulas por cilindro acionadas por um único comando de válvulas no cabeçote (SOHC). A configuração incluía válvulas de admissão e escapamento otimizadas para fluxo de gases, com a admissão à direita e o escapamento à esquerda, e um eixo de comando acionado por uma árvore vertical com engrenagens cônicas. O motor passou por testes rigorosos, incluindo uma prova de 10 horas exigida pela agência de aviação francesa e um teste de 50 horas na Diatto, em Turin, onde alcançou 217 cv em um dinamômetro em 1916.
Embora projetado para aviação, o Avio 8C nunca foi usado em aviões, possivelmente devido ao fim da guerra e à falta de demanda. Em vez disso, Bugatti e Diatto exploraram seu potencial em automóveis. Um dos motores Avio 8C foi montado em um chassi Diatto, criando o que hoje é conhecido como o Bugatti-Diatto Avio 8C. Este veículo, com uma carroceria de dois lugares e um design traseiro alongado, remetia à estética aeronáutica, possivelmente como uma homenagem ao projeto original de Garros. A transmissão manual de 4 velocidades e a tração traseira completavam o conjunto, que utilizava uma suspensão de molas semi-elípticas nas quatro rodas e freios a tambor traseiros.
História e Redescoberta
A história do Avio 8C é marcada por sua obscuridade e redescoberta. Após a guerra, o motor permaneceu na Itália, onde foi preservado por colecionadores visionários. Um exemplar, acredita-se, foi instalado em um chassi Diatto em 1919, mas o carro permaneceu incompleto e foi armazenado no Museo dell’Automobile em Turin, fundado por Roberto Biscaretti, um dos pioneiros da indústria automotiva italiana. Após a morte de seu filho Carlo em 1959, o motor foi adquirido pelo ‘caçador de Bugattis’ Antoine Raffaëlli e, posteriormente, passou por coleções como a de Adrien Maeght, no Museu de l’Automobiliste, na França.
Foi somente com o historiador e colecionador Uwe Hucke que o projeto de completar o carro ganhou força. Hucke adquiriu o motor e o chassi incompleto, adicionando componentes como uma transmissão e eixos de época. Após sua morte, o arquiteto e especialista em Bugatti Claude Teisen-Simony concluiu a restauração, apresentando o carro no salão Rétromobile de 2019, em Paris. O resultado é um veículo que combina a potência bruta do motor Avio 8C com a estética de um carro de corrida dos anos 1920, descrito como uma “sinfonia de 14 litros” que impressiona pelo torque e som.
Legado e Impacto
O Bugatti Avio 8C é mais do que um protótipo; ele representa um marco na evolução dos motores de 8 cilindros em linha da Bugatti. Sua arquitetura influenciou diretamente o desenvolvimento do Bugatti Type 41 Royale, lançado em 1924, que utilizava um motor de mesma capacidade e design semelhante. Além disso, o Avio 8C inspirou outras marcas, como a Maserati, que em 1923 adaptou seu design para criar o motor do Maserati Tipo 26.
Embora nunca tenha sido produzido em massa, o Avio 8C demonstra a visão de Bugatti de integrar tecnologias de aviação e automobilismo. Sua história de redescoberta e restauração reforça seu status como um ‘unicórnio automotivo’, cobiçado por colecionadores por sua raridade e significado histórico. Hoje, o exemplar sobrevivente, com chassi B1919, é um dos carros mais valiosos e enigmáticos do mundo, frequentemente destacado em leilões como o da Bonhams, durante a Monterey Car Week.
O Bugatti Avio 8C de 1919 é uma joia perdida que encapsula o espírito inovador de Ettore Bugatti. Nascido de um sonho de atravessar o Atlântico e moldado por uma era de guerra e reconstrução, este protótipo combina engenharia audaciosa com uma história de preservação e redescoberta. Seja pelo seu motor colossal, pela parceria com a Diatto ou por sua influência no lendário Bugatti Royale, o Avio 8C permanece como um testemunho da genialidade de Bugatti e um marco na história do automobilismo.