1974 - CHEVRON B27S COSWORTH
Na década de 1970, a indústria automobilística britânica continuava sendo um dos maiores celeiros mundiais da engenharia de competição. Muito além dos grandes fabricantes, diversas pequenas empresas especializadas produziam automóveis extremamente sofisticados, concebidos quase exclusivamente para vencer corridas. Entre elas, poucas alcançaram tanto prestígio quanto a Chevron Cars Ltd., empresa fundada em 1965 por Derek Bennett na cidade de Bolton, no noroeste da Inglaterra. Seus carros tornaram-se presença constante nas categorias de Fórmula, Sport-Protótipos e provas de endurance, conquistando uma reputação invejável pela combinação de leveza, eficiência aerodinâmica e excelente comportamento dinâmico.
Um dos projetos mais interessantes da marca surgiu em 1974 com o Chevron B27S Cosworth, uma versão derivada dos bem-sucedidos monopostos de competição da empresa, adaptada para utilização em eventos esportivos, demonstrações e competições destinadas a carros esporte. Embora produzido em números extremamente reduzidos, o B27S tornou-se um dos exemplares mais refinados da filosofia técnica de Derek Bennett.
O desenvolvimento do B27S nasceu da experiência acumulada pela Chevron na construção do B27, um monoposto criado originalmente para a Formula Atlantic e para a Formula 3, categorias que, durante os anos 1970, representavam importantes etapas na formação de futuros pilotos de Fórmula 1. O chassi revelava uma engenharia extremamente avançada para a época, baseada em uma estrutura monocoque de alumínio reforçada por subchassis tubulares dianteiro e traseiro, proporcionando elevada rigidez torcional com peso extremamente reduzido.
Na versão B27S, diversos componentes foram adaptados para ampliar sua versatilidade sem comprometer as características dinâmicas que tornaram os Chevron famosos nas pistas. O resultado era um automóvel de aparência extremamente agressiva, com carroceria baixa e compacta, para-lamas pronunciados envolvendo as rodas e uma dianteira afilada projetada para minimizar a resistência aerodinâmica.
O desenho refletia claramente a prioridade absoluta dada ao desempenho. Cada superfície da carroceria possuía função aerodinâmica específica. O nariz baixo reduzia a sustentação dianteira, enquanto a traseira acomodava o conjunto mecânico e favorecia o fluxo de ar em direção ao spoiler posterior. O cockpit aberto reforçava o caráter puramente esportivo do modelo e aproximava a experiência de condução daquela proporcionada pelos monopostos de competição.
O interior era absolutamente funcional. Não havia espaço para luxos ou elementos supérfluos. O piloto sentava-se em posição extremamente baixa, praticamente integrado ao chassi, diante de um painel composto apenas pelos instrumentos indispensáveis para monitorar o funcionamento do motor. Volante de pequeno diâmetro, pedais ajustáveis e alavanca de câmbio de curso curto completavam um ambiente totalmente voltado para a condução em alta velocidade.
Sob a carroceria encontrava-se um dos conjuntos mecânicos mais respeitados da época: o lendário motor Cosworth BDG, um bloco de 4 cilindros em linha de 2.0 litros, duplo comando de válvulas no cabeçote e quatro válvulas por cilindro. Desenvolvido pela Cosworth, esse propulsor representava uma evolução da famosa família BDA, que dominou inúmeras categorias do automobilismo internacional.
Na configuração utilizada pelo B27S, o Cosworth podia desenvolver entre 250 e 270 cv de potência, dependendo da preparação adotada. Considerando que o automóvel pesava aproximadamente 550 quilos, sua relação peso-potência era extraordinária, permitindo acelerações comparáveis às de diversos protótipos de competição muito mais potentes.
A alimentação era realizada por carburadores duplos de competição ou, em algumas versões, por sistemas de injeção mecânica, enquanto a lubrificação por cárter seco garantia funcionamento confiável mesmo sob elevadas acelerações laterais.
A transmissão era uma sofisticada caixa manual Hewland FT200 de 5 velocidades, praticamente um padrão entre os monopostos britânicos daquele período. Seu escalonamento extremamente próximo permitia manter o motor sempre na faixa ideal de potência durante as competições.
A suspensão era totalmente independente nas quatro rodas, utilizando braços triangulares sobrepostos (double wishbones), amortecedores reguláveis e molas helicoidais montadas internamente por meio de balancins (rocker arms) em algumas configurações. Essa arquitetura proporcionava excepcional precisão direcional, enorme aderência e grande facilidade de acerto para diferentes circuitos.
Os freios a disco ventilados nas quatro rodas, aliados ao reduzido peso do conjunto, garantiam desacelerações extremamente eficientes. Rodas de magnésio de competição completavam um pacote técnico que refletia a obsessão da Chevron por eliminar qualquer grama desnecessária.
O B27S também se beneficiava da reputação conquistada pelos carros da Chevron nas pistas internacionais. Durante os anos 1970, inúmeros pilotos que posteriormente alcançariam a Fórmula 1 iniciaram suas carreiras em monopostos da marca, atraídos pela excelente dirigibilidade e pela elevada qualidade de construção dos chassis projetados por Derek Bennett.
Infelizmente, a trajetória da empresa foi interrompida de forma prematura. Em 1978, Derek Bennett faleceu em um acidente de asa-delta, privando a Chevron de seu principal engenheiro e visionário. Embora a marca tenha sobrevivido por algum tempo, jamais recuperou plenamente a liderança técnica que havia conquistado durante a década.
Hoje, o Chevron B27S Cosworth de 1974 é considerado uma das mais interessantes interpretações da engenharia britânica de competição. Sua raridade, aliada ao extraordinário desempenho proporcionado pelo motor Cosworth e ao refinado chassi Chevron, faz dele presença constante em festivais históricos como o Goodwood Festival of Speed e o Goodwood Revival, onde continua demonstrando qualidades dinâmicas impressionantes mesmo diante de automóveis muito mais modernos.
Mais do que um simples esportivo, o Chevron B27S Cosworth representa o auge de uma época em que pequenos fabricantes britânicos conseguiam competir em igualdade técnica com grandes construtores internacionais. Leve, sofisticado e extremamente eficiente, ele sintetiza a filosofia de Derek Bennett: construir automóveis em que cada componente existisse exclusivamente para melhorar o desempenho. Essa abordagem transformou a Chevron em uma verdadeira lenda do automobilismo e garantiu ao B27S um lugar de destaque entre os mais refinados carros de competição produzidos na Grã-Bretanha durante a década de 1970.