1970 - CITROËN DS 20 SAFARI
Quando a década de 1970 teve início, poucos automóveis simbolizavam tão bem a capacidade francesa de desafiar convenções quanto o Citroën DS. Lançado originalmente em 1955, ele já havia revolucionado a indústria com sua suspensão hidropneumática, direção assistida, freios de alta eficiência e design futurista. Quinze anos depois, essas qualidades permaneciam tão atuais que o modelo continuava sendo referência mundial em conforto, estabilidade e inovação. Entre todas as variantes da família, uma das mais fascinantes era a DS 20 Safari, uma perua que conseguiu unir a sofisticação de um automóvel executivo à praticidade de um veículo familiar sem abrir mão da tecnologia que consagrou a sigla DS.
Conhecida como Safari em mercados como o Reino Unido e diversos países da Commonwealth - enquanto na França era chamada de Break e em outros mercados recebia denominações como Station Wagon ou Familiale -, a versão apresentada em 1970 representava a maturidade da linha. Seu desenho mantinha a elegância característica criada por Flaminio Bertoni, mas adaptada a uma carroceria alongada, de teto elevado e traseira quase vertical, solução que ampliava significativamente o espaço interno sem comprometer a refinada aerodinâmica que fazia do DS um dos automóveis mais eficientes de sua época.
A dianteira preservava os famosos faróis carenados introduzidos no facelift de 1967. Nos exemplares mais sofisticados, os faróis internos direcionais acompanhavam o movimento da direção, iluminando curvas antes mesmo de o veículo entrar nelas - uma inovação extraordinária para o período e que somente décadas depois seria adotada de forma ampla pela indústria automobilística. A carroceria longa era marcada por superfícies limpas, para-lamas integrados e grandes áreas envidraçadas, proporcionando excelente visibilidade e uma sensação de leveza rara entre as peruas da época.
A principal virtude da Safari estava em sua versatilidade. Enquanto o sedan DS já oferecia amplo espaço para cinco ocupantes, a versão familiar podia transportar até oito pessoas, dependendo da configuração, graças aos bancos rebatíveis instalados na parte traseira. Além disso, o enorme compartimento de carga fazia dela uma das peruas mais funcionais do mercado europeu, sendo adotada não apenas por famílias, mas também como ambulância, veículo oficial, carro de assistência técnica e transporte executivo.
O interior refletia a filosofia pouco convencional da Citroën. O painel mantinha o característico volante de raio único, concebido para reduzir lesões em caso de colisão e facilitar a visualização dos instrumentos. Os comandos hidráulicos substituíam diversos mecanismos convencionais, enquanto os bancos largos e extremamente macios proporcionavam um conforto excepcional em viagens longas. A ergonomia, bastante diferente da encontrada em automóveis alemães ou britânicos contemporâneos, exigia um breve período de adaptação, mas recompensava o condutor com uma experiência de condução singular.
Sob o capô encontrava-se o confiável motor 4 cilindros em linha de 1.985 cm³, que deu origem ao nome DS 20. Alimentado por carburador, ele desenvolvia cerca de 103 cv nas versões mais comuns de 1970, proporcionando desempenho adequado para um automóvel voltado muito mais ao conforto do que à esportividade. A velocidade máxima aproximava-se dos 170 km/h, enquanto o câmbio manual de 4 velocidades - acionado por uma elegante alavanca instalada junto à coluna de direção - explorava plenamente a elasticidade do motor.
Naturalmente, o maior destaque continuava sendo a lendária suspensão hidropneumática, um dos sistemas mais revolucionários já produzidos em larga escala. Utilizando esferas pressurizadas com nitrogênio e um circuito hidráulico de alta pressão, ela mantinha a altura do veículo constante independentemente da carga transportada. Isso significava que uma Safari carregada com oito passageiros e bagagem mantinha exatamente a mesma postura e o mesmo conforto de uma unidade ocupada apenas pelo condutor. Além disso, o sistema permitia ajustar manualmente a altura da carroceria, facilitando a troca de pneus ou a circulação por estradas irregulares, recurso praticamente inexistente em automóveis de passeio da época.
Essa suspensão transformava completamente a experiência ao volante. A DS 20 Safari parecia literalmente flutuar sobre o asfalto, absorvendo imperfeições com uma suavidade impressionante. Em longas viagens pelas estradas francesas, o isolamento proporcionado pela suspensão hidropneumática reduzia significativamente a fadiga dos ocupantes, consolidando a reputação do modelo como um dos automóveis mais confortáveis já produzidos.
A segurança também era um dos pontos fortes do projeto. Além dos freios a disco dianteiros - outra inovação introduzida ainda nos anos 1950 -, a distribuição hidráulica da frenagem e a excelente estabilidade proporcionada pela suspensão garantiam um comportamento previsível mesmo em velocidades elevadas. A tração dianteira, pouco comum entre automóveis de luxo naquele período, contribuía para maior estabilidade em pisos molhados e estradas de baixa aderência.
O sucesso da Safari fez dela uma presença constante nas estradas europeias ao longo das décadas de 1960 e 1970. Seu refinamento levou governos, empresas e serviços públicos a utilizá-la nas mais variadas funções. Ambulâncias baseadas na DS Safari tornaram-se comuns em diversos países, aproveitando a suavidade da suspensão para transportar pacientes com muito mais conforto do que os veículos convencionais da época. Da mesma forma, fotógrafos, jornalistas e equipes técnicas apreciavam sua enorme capacidade de carga aliada ao desempenho superior ao das peruas concorrentes.
Produzida até 1975, quando deu lugar ao moderno Citroën CX Break, a DS 20 Safari encerrou sua trajetória como uma das peruas mais sofisticadas e tecnologicamente avançadas de seu tempo. Hoje, é considerada um dos grandes ícones da engenharia francesa e uma das interpretações mais elegantes do conceito de automóvel familiar já construídas. Seu desenho atemporal, a revolucionária suspensão hidropneumática e a extraordinária capacidade de combinar luxo, conforto e praticidade fazem da Citroën DS 20 Safari de 1970 uma verdadeira obra-prima sobre rodas, lembrando que, para a Citroën, viajar nunca foi apenas deslocar-se de um ponto a outro, mas transformar cada quilômetro em uma experiência de refinamento e inovação.