1965 - CITROËN DS 21 CHAPRON CONCORDE
Quando o Citroën DS foi apresentado ao mundo no Salão de Paris de 1955, tornou-se instantaneamente um dos automóveis mais revolucionários já produzidos. Sua carroceria futurista, a suspensão hidropneumática, os freios de alta eficiência e o refinamento aerodinâmico colocaram o modelo anos à frente da concorrência. Entretanto, para alguns clientes da alta sociedade francesa, nem mesmo o extraordinário DS era exclusivo o suficiente. Foi justamente para atender esse público que entrou em cena Henri Chapron, o mais célebre encarroçador francês do pós-guerra, responsável por transformar o revolucionário sedan da Citroën em uma série de automóveis de luxo praticamente artesanais. Entre suas criações mais elegantes está o Citroën DS 21 Chapron Concorde de 1965, uma rara interpretação que combinava a tecnologia de vanguarda da Citroën com o refinamento da alta-costura automobilística.
Henri Chapron já era uma figura respeitadíssima na indústria francesa muito antes da chegada do DS. Desde os anos 1920, sua empresa havia produzido carrocerias exclusivas para Delage, Delahaye, Talbot-Lago, Hispano-Suiza e Hotchkiss, sempre destinadas à elite europeia. Quando a era das carrocerias independentes começou a declinar, Chapron encontrou no Citroën DS uma plataforma ideal para continuar exercendo sua arte, criando versões especiais em pequenas séries e sob encomenda.
O Concorde representava uma das interpretações mais sofisticadas do DS. Diferentemente dos famosos conversíveis Chapron, o Concorde mantinha a configuração fechada, mas recebia profundas modificações estruturais e estéticas. O teto era redesenhado para apresentar uma silhueta mais elegante, as colunas traseiras ganhavam proporções mais harmoniosas e praticamente toda a carroceria era refinada manualmente. O resultado era um automóvel visualmente mais baixo, alongado e aristocrático, sem perder a identidade inconfundível do DS original.
Na dianteira permaneciam os traços criados por Flaminio Bertoni, um dos maiores designers do século XX, enquanto a traseira recebia acabamentos exclusivos e detalhes cromados cuidadosamente aplicados. Cada painel era ajustado à mão, com um nível de precisão que dificilmente poderia ser alcançado em produção seriada. A pintura, frequentemente realizada em combinações de dois tons, reforçava ainda mais a elegância do conjunto.
O interior elevava o conceito de luxo francês a um patamar superior. Enquanto o DS convencional já oferecia excelente conforto, Chapron substituía praticamente todos os revestimentos por materiais de qualidade excepcional. Couro de primeira linha cobria bancos, portas e painéis laterais, enquanto madeiras nobres cuidadosamente envernizadas adornavam o painel e diversos detalhes internos. Os tapetes espessos, os acabamentos cromados polidos artesanalmente e o isolamento acústico adicional criavam um ambiente digno dos melhores automóveis de representação da época.
Sob a elegante carroceria encontrava-se toda a sofisticada engenharia da Citroën. O DS 21, introduzido em 1965, trouxe um novo motor de 2.175 cm³, 4 cilindros em linha, alimentado por carburador. Desenvolvia aproximadamente 109 cv, oferecendo desempenho superior ao antigo DS 19 e permitindo velocidade máxima próxima dos 175 km/h, números bastante expressivos para um sedan de luxo francês da metade dos anos 1960.
Naturalmente, permanecia a célebre suspensão hidropneumática, talvez o maior símbolo tecnológico da Citroën. Utilizando esferas pressurizadas com nitrogênio e fluido hidráulico, o sistema proporcionava um conforto de rodagem praticamente incomparável. O veículo mantinha altura constante independentemente da carga transportada e absorvia irregularidades do pavimento com uma suavidade que surpreendia até proprietários de Rolls-Royce e Mercedes-Benz.
O mesmo circuito hidráulico alimentava outros sistemas inovadores, como os freios assistidos de alta pressão, a direção hidráulica e a embreagem semiautomática nas versões equipadas com a caixa hidráulica Citroën. Essa integração tecnológica fazia do DS um dos automóveis mais avançados do planeta, muito antes que soluções semelhantes fossem adotadas em larga escala pela concorrência.
Apesar da sofisticação técnica, era o trabalho artesanal de Chapron que transformava o Concorde em um automóvel verdadeiramente exclusivo. Cada exemplar consumia centenas de horas de trabalho manual e podia receber inúmeras personalizações solicitadas pelo cliente, desde combinações especiais de cores até equipamentos exclusivos, divisórias internas, acessórios sob medida e detalhes únicos de acabamento. Em consequência, nenhum Concorde era exatamente igual a outro.
Sua produção foi extremamente limitada. Enquanto a Citroën fabricava milhares de DS convencionais anualmente, os Chapron eram produzidos em números diminutos, frequentemente sob encomenda específica. Essa raridade fez com que os sobreviventes se tornassem algumas das versões mais valorizadas da família DS, sendo disputados por colecionadores e frequentemente apresentados nos mais importantes concursos de elegância do mundo.
O Citroën DS 21 Chapron Concorde também simboliza um dos últimos grandes capítulos da tradição francesa das carrocerias artesanais. Em uma época em que a produção em massa já dominava a indústria automobilística, Chapron manteve viva a filosofia dos grandes ateliês do período entre guerras, demonstrando que ainda havia espaço para automóveis personalizados construídos com o mesmo cuidado dedicado a uma peça de alta-costura.
Mais de sessenta anos após sua criação, o Citroën DS 21 Chapron Concorde de 1965 continua sendo uma das expressões máximas da criatividade automobilística francesa. Reunindo a engenharia revolucionária da Citroën e o talento artesanal de Henri Chapron, ele permanece como um raro encontro entre inovação tecnológica e luxo artesanal, representando uma época em que a França era capaz de produzir alguns dos automóveis mais sofisticados, elegantes e originais do mundo.