1926 - CORRE LA LICORNE V14W4
No alvorecer do século XX, quando o automóvel ainda era um sonho de luxo para poucos, a França emergia como berço de inovações mecânicas que moldariam a mobilidade moderna. Foi nesse contexto que o Corre La Licorne V14W4, um veículo de 1926, representou o auge da engenharia prática e acessível da marca francesa Corre La Licorne. Produzido em uma época de expansão industrial pós-Primeira Guerra Mundial, esse modelo de 4 cilindros encapsulava a essência de uma empresa que combinava tradição artesanal com a aspiração de democratizar o transporte. Com uma carroceria versátil - frequentemente configurada como torpedo ou cabriolet -, o V14W4 não era apenas um carro; era um símbolo de resiliência para fazendeiros, empresários rurais e condutores urbanos que buscavam confiabilidade sem ostentação.
A história da Corre La Licorne remonta a 1901, quando o engenheiro e ex-ciclista Jean-Marie Corre fundou a empresa em Levallois-Perret, nos arredores de Paris. Inicialmente focada em bicicletas e triciclos motorizados, a empresa logo se voltou para automóveis, impulsionada pelas vitórias em corridas de Waldemar Lestienne, um industrial têxtil e piloto talentoso. Suas conquistas, incluindo participações em eventos como as 24 Horas de Le Mans em 1906, trouxeram visibilidade e vendas. No entanto, disputas judiciais prolongadas - incluindo um litígio de cinco anos contra a Renault - levaram a Corre à falência em 1907. O negócio foi adquirido por Firmin Lestienne, pai de Waldemar, um administrador financeiro habilidoso. Inspirado no brasão familiar que exibia um ‘licorne’ (unicórnio, em francês), o nome da marca evoluiu para Corre La Licorne, um emblema que perduraria até o fechamento da fábrica em 1949.
Ao longo das décadas seguintes, a Corre La Licorne se destacou pela produção de veículos robustos e econômicos, equipados com motores De Dion-Bouton ou Chapuis-Dornier, conhecidos por sua durabilidade. Em áreas rurais, os carros da marca eram valorizados por sua simplicidade de manutenção, enquanto nas cidades atraíam consumidores pela eficiência. Até 1914, o catálogo incluía modelos variados, do compacto de 1.244 cc ao potente S-type de 4.4 litros. A Primeira Guerra Mundial interrompeu a produção, mas o pós-guerra viu um renascimento: em 1919, o 7CV tornou-se o carro-estrela, com motores side-valve de 1.237 cc ou 1.593 cc, transmissões de 3 velocidades e embreagens cônicas. Em 1924, no Salão de Paris, a gama se expandiu para quatro modelos de médio porte, todos com 4 cilindros.
O V14W4 surgiu nesse cenário de diversificação, em 1926, como parte da linha ‘V’ - uma série de veículos de porte médio projetados para o mercado emergente de automóveis acessíveis. Equipado com um motor de 4 cilindros de cerca de 1.685 cc (semelhante ao do modelo B7 W4 da mesma época), o V14W4 entregava uma potência modesta, mas suficiente para uma velocidade máxima de 80 km/h, ideal para as estradas francesas da época. Sua designação ‘V14’ provavelmente se referia ao tipo de chassi ou motor (14 fiscal horsepower, uma métrica francesa comum), enquanto ‘W4’ indicava a configuração de rodas ou tração (quatro rodas motrizes, com foco em tração traseira robusta). A carroceria, muitas vezes em preto ou branco, com interior em couro preto e detalhes bordados, era montada sobre um chassi de madeira reforçada, equipado com freios mecânicos nas rodas traseiras e suspensão simples para lidar com terrenos irregulares. Transmissão manual de 4 velocidades, ignição magnética e instalação elétrica de 6 volts completavam o pacote, tornando-o um veículo versátil para uso diário ou comercial. Exemplares conhecidos, como um ‘torpedo’ de 1926, destacavam-se pela confiabilidade, com relatos de uso contínuo até os dias atuais.
O impacto do V14W4 foi significativo no contexto francês dos anos 1920, uma década de boom automotivo marcada pela concorrência feroz de marcas como Citroën e Renault. A Corre La Licorne, com sua nova fábrica em Courbevoie - equipada com máquinas e ferramentas modernas inauguradas em 1924 -, produziu uma ampla gama em 1926, incluindo o V14W4, o B7W4, o V16W4 e até caminhões leves como o ‘Normande’, uma van para padeiros com motor Ballot infatigável. No entanto, a marca enfrentava desafios: o mercado era saturado, e a dependência de componentes de terceiros limitava a inovação. Ainda assim, o V14W4 contribuiu para o sucesso da linha B7, lançada em 1922, que se tornou um dos modelos mais vendidos da década, apelando para uma clientela pragmática. Serial numbers de 1926, como os de 9.877 a 10.070, registram dezenas de unidades produzidas, muitas delas para exportação ou uso utilitário.
Apesar de sua relevância, a era de ouro da Corre La Licorne foi efêmera. A Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial devastaram a produção, que caiu para modelos pré-guerra reaproveitados. Em 1949, a fábrica foi vendida à Berliet, encerrando uma saga de quase 50 anos. Hoje, o V14W4 é uma raridade: na Holanda, por exemplo, apenas quatro Licornes ainda rodam, e exemplares restaurados, como um de 1926 trazido da Bélgica em 1971 e mantido por um proprietário desde 1978, aparecem em leilões por valores simbólicos, evocando o charme das ‘voitures anciennes’. Um V14 cabriolet de cerca de 1925 foi leiloado recentemente por cerca de 10.000 euros, destacando seu apelo colecionável.
Quase um século após sua produção, o Corre La Licorne V14W4 permanece um testemunho da engenhosidade francesa: um carro que, como o unicórnio de seu emblema, era mítico em sua simplicidade e endurance. Em um mundo dominado por elétricos e autônomos, ele nos lembra que a verdadeira inovação muitas vezes reside na robustez cotidiana, pavimentando o caminho para a indústria automotiva que conhecemos hoje.