1937 - DELAGE D8-120 S POURTOUT AERODYNAMIC COUPÉ
Na França da segunda metade da década de 1930, quando a arte, a engenharia e a elegância automobilística pareciam caminhar de mãos dadas, surgiu um automóvel que muitos historiadores consideram uma das mais belas criações da era clássica do automóvel: o Delage D8-120 S Pourtout Aerodynamic Coupé de 1937. Mais do que um carro de luxo, ele foi um manifesto sobre aerodinâmica, design e sofisticação, concebido numa época em que a indústria francesa disputava a liderança mundial da elegância automotiva.
A história do modelo começa com a própria Delage. Fundada em 1905 por Louis Delage, a marca tornou-se um dos fabricantes mais prestigiados da França, destacando-se tanto nas competições quanto na produção de automóveis de luxo. Após enfrentar dificuldades financeiras durante a Grande Depressão, a empresa foi absorvida pela rival Delahaye em 1935, mas Louis Delage continuou influente no desenvolvimento de alguns modelos especiais. Foi justamente nesse contexto que nasceu o extraordinário D8-120 S.
O chassi utilizado era uma evolução esportiva do já refinado D8-120. A letra ‘S’ não significava ‘Sport’, como muitos acreditaram durante décadas, mas sim ‘surbaisse’ (‘rebaixado’ em francês), referência ao chassi mais baixo, mais leve e mais estreito desenvolvido para melhorar estabilidade e comportamento dinâmico. Sob o longo capô encontrava-se um refinado motor de 8 cilindros em linha de aproximadamente 4.75 litros, associado à sofisticada transmissão eletromagnética Cotal de 4 velocidades. O conjunto permitia velocidades superiores a 150 km/h, números impressionantes para a época.
Mas o verdadeiro espetáculo estava na carroceria. Para criar algo que simbolizasse o futuro da marca, Louis Delage recorreu ao renomado encarroçador francês Carrosserie Pourtout e ao brilhante designer Georges Paulin. Paulin era um dos maiores defensores da aerodinâmica aplicada ao automóvel e acreditava que a beleza deveria nascer da eficiência. O resultado foi um coupé cuja forma parecia moldada pelo próprio vento.
A carroceria, construída quase inteiramente em alumínio, apresentava superfícies fluidas e contínuas, sem excessos decorativos. Ao contrário de muitos automóveis luxuosos da época, carregados de cromados e ornamentos, o Delage impressionava justamente pela pureza de suas linhas. O para-brisa curvo era uma inovação tecnológica notável em 1937, enquanto os vidros sem moldura e a silhueta afilada reforçavam sua aparência futurista. Tudo parecia integrado em uma única forma orgânica.
O desenvolvimento do desenho incluiu testes em túnel de vento - algo extremamente avançado para aquele período. Paulin utilizou modelos em escala e protótipos para aperfeiçoar a eficiência aerodinâmica do automóvel, tornando-o um dos primeiros grandes exemplos de design científico aplicado a um carro de luxo.
Quando ficou pronto, o coupé era tão especial que Louis Delage decidiu mantê-lo para uso pessoal. O carro acabou se tornando uma espécie de cartão de visitas ambulante da marca. A imprensa francesa da época ficou impressionada com suas proporções e modernidade, reconhecendo imediatamente que se tratava de algo muito diferente dos automóveis convencionais do final dos anos 1930.
Após a Segunda Guerra Mundial, o carro teve uma trajetória curiosa. Em determinado momento foi modificado pelo famoso encarroçador francês Jacques Saoutchik, que alterou sua dianteira e alguns elementos da carroceria para adequá-lo ao gosto da década de 1950. Felizmente, décadas depois, uma restauração meticulosa devolveu ao automóvel sua configuração original concebida por Paulin e Pourtout.
Hoje, o Delage D8-120 S Pourtout Aerodynamic Coupé é considerado uma das obras-primas absolutas da carroceria francesa do período entre guerras. Seu valor histórico transcende o universo automobilístico: ele é frequentemente citado em estudos sobre design industrial, aerodinâmica e estética do século XX. Quando aparece em concursos de elegância, continua provocando a mesma reação de quase noventa anos atrás - admiração silenciosa diante de uma forma que parece mais esculpida do que construída.
Como uma curiosidade final, o Delage foi concluído tarde demais para ser inscrito oficialmente no Salão de Paris de 1937. A solução encontrada por Louis Delage e Marcel Pourtout foi digna de uma lenda: simplesmente estacionaram o automóvel em frente ao Grand Palais, local do evento. O resultado foi melhor que qualquer estande - jornalistas e visitantes cercaram imediatamente o carro, garantindo a publicidade que seus criadores desejavam.