1903 - DURYEA THREE-WHEEL PHAETON
No início do século XX, a indústria automobilística ainda era uma terra sem regras definidas. Não existia um formato padrão para os automóveis, tampouco consenso sobre motores, transmissões ou mesmo sobre quantas rodas um carro deveria possuir. Foi justamente nesse ambiente de criatividade quase ilimitada que surgiu uma das máquinas mais incomuns da história americana: o Duryea Three-Wheel Phaeton de 1903.
Após a separação profissional entre os irmãos Charles e Frank Duryea, Charles decidiu seguir seu próprio caminho em Reading, no estado da Pensilvânia. Ali fundou a Duryea Power Company, empresa que lhe permitiu explorar ideias muito diferentes daquelas que haviam tornado os primeiros Duryea famosos na década de 1890. Em vez de simplesmente produzir automóveis convencionais, Charles passou a experimentar soluções mecânicas ousadas e pouco ortodoxas.
O Three-Wheel Phaeton foi um dos resultados mais interessantes dessa fase criativa. Enquanto a maioria dos fabricantes já adotava quatro rodas como configuração padrão, Charles Duryea acreditava que um veículo de três rodas poderia ser mais leve, econômico e simples de construir. O modelo utilizava uma arquitetura peculiar, combinando a aparência de uma elegante carruagem particular com elementos mecânicos bastante avançados para a época.
Visualmente, o automóvel parecia uma mistura entre uma carruagem vitoriana e uma máquina experimental. Sua carroceria aberta do tipo phaeton oferecia espaço para dois ocupantes e apresentava linhas delicadas, rodas finas de grande diâmetro e uma posição de condução elevada. O conjunto transmitia leveza e elegância, muito diferente dos automóveis pesados que começavam a surgir naquele período.
O aspecto mais fascinante, porém, estava em sua mecânica. O veículo utilizava um motor de 3 cilindros, característica bastante incomum em uma época dominada por motores monocilíndricos ou bicilíndricos. Charles Duryea acreditava que o conjunto oferecia funcionamento mais suave e melhor distribuição de potência. Segundo relatos históricos, os automóveis produzidos pela Duryea Power Company eram capazes de atingir cerca de 32 km/h, desempenho bastante respeitável para as estradas americanas do início do século XX.
Outro detalhe curioso era o sistema de controle. Em vez de um volante convencional, o Three-Wheel Phaeton utilizava um comando do tipo tiller, semelhante a uma alavanca. A própria publicidade da época destacava a simplicidade do mecanismo com o slogan “One Hand Does It All” (“Uma mão faz tudo”). Movendo e girando a alavanca, o condutor controlava direção, aceleração e parte das funções de transmissão, algo extremamente incomum mesmo para os padrões da época.
A construção leve fazia parte da filosofia de Charles Duryea. Os automóveis ainda precisavam enfrentar estradas rurais precárias, cheias de lama, pedras e sulcos deixados por carroças. Quanto menor o peso, maiores eram as chances de confiabilidade. O próprio Charles costumava testar pessoalmente os veículos nas difíceis subidas de Mount Penn, utilizando as estradas sinuosas da região como um laboratório prático para avaliar resistência mecânica e comportamento dinâmico.
O Three-Wheel Phaeton também refletia uma característica marcante da personalidade de Charles Duryea: sua constante busca por soluções diferentes das adotadas pela indústria. Enquanto fabricantes como Oldsmobile e Ford começavam a caminhar em direção à padronização, Duryea ainda via o automóvel como um campo aberto para experimentação. Isso resultava em veículos originais e inovadores, mas também dificultava a produção em larga escala.
Embora os automóveis da Duryea Power Company fossem respeitados por sua engenharia, a empresa nunca alcançou volumes significativos de produção. Problemas financeiros, divergências entre investidores e a rápida consolidação de concorrentes maiores acabaram limitando seu crescimento. Poucos exemplares sobreviveram, transformando modelos como o Three-Wheel Phaeton em verdadeiras raridades da Era do Latão (Brass Era).
Hoje, o Duryea Three-Wheel Phaeton de 1903 é lembrado não apenas como um automóvel raro, mas como um símbolo do período mais criativo da história do automóvel. Ele pertence a uma época em que engenheiros ainda buscavam descobrir qual seria a forma definitiva do carro moderno e em que soluções aparentemente estranhas podiam coexistir lado a lado com ideias que acabariam moldando toda a indústria.