1960 - FACEL VEGA EXCELLENCE
Em uma França ainda se recuperando das cicatrizes da Segunda Guerra Mundial, onde o glamour automotivo parecia reservado aos gigantes americanos e britânicos, surgiu um sedan que ousava sonhar grande: o Facel Vega Excellence de 1960. Não era apenas um carro de quatro portas; era um manifesto de elegância europeia, com portas ‘suicidas’ traseiras, para-brisa panorâmico e um ronco V8 Chrysler que ecoava como um hino à velocidade transatlântica. Produzido em quantidades limitadas pela ambiciosa Facel Vega, esse modelo representava o pináculo do luxo francês dos anos 1960 - e, tragicamente, um dos últimos suspiros de uma marca que brilhou intensamente antes de se extinguir como uma estrela cadente.
A origem da Facel Vega remonta a 1939, quando a empresa Bronzavia, especializada em estampagem de metais para a aviação, fundou a Facel (Forges et Ateliers de Construction d’Eure-et-Loir) em Colombes, nos arredores de Paris. Inicialmente um fornecedor de carrocerias para marcas como Panhard, Delahaye e Simca - incluindo painéis para caminhões, jeeps militares e até scooters Vespa -, a Facel evoluiu para a produção completa de automóveis sob a visão de Jean Daninos, irmão do humorista Pierre Daninos (autor de Les Carnets du Major Thompson). Em 22 de julho de 1954, a marca Facel Vega foi lançada oficialmente, com o primeiro modelo, o FV (Facel Vega), um coupé de dois lugares equipado com o motor Hemi V8 de 5.4 litros da Chrysler, produzindo cerca de 240 cv. Era uma jogada ousada: sem motores franceses potentes disponíveis, Daninos importou a robustez americana para casar com o design refinado francês, criando o que ele chamava de ‘Grand Routier’ - um carro luxuoso, confortável e prático para quatro pessoas.
O Excellence surgiu como uma extensão natural dessa ambição. Apresentado como protótipo no Salão de Paris em outubro de 1956, a produção em série começou em 1958, baseada em um chassi alongado do FV. Projetado para competir com sedans de elite como o Mercedes-Benz 600, o Excellence era um sedan pillarless (sem colunas B), com linhas baixas e elegantes que mesclavam influências americanas - como as aletas traseiras pronunciadas e o para-brisa envolvente - com toques europeus, como faróis quádruplos empilhados e uma silhueta esguia. Seu interior era um oásis de opulência: bancos de couro macio, painéis de madeira imitação, ar-condicionado opcional, janelas elétricas e um painel com instrumentos Jaeger que evocava o luxo de um iate. As portas traseiras de abertura reversa facilitavam o acesso, tornando-o ideal para famílias abastadas ou executivos em viagens longas. Com um comprimento de cerca de 5 metros e peso em torno de 1.800 kg, o Excellence era “um veículo grande... mais adequado como carro de Estado do que como diário”, nas palavras do historiador Richard Langworth em uma análise de 1985.
O modelo de 1960, parte da Série 1, refinava ainda mais essa fórmula. Equipado com o motor Hemi V8 de 6.4 litros da Chrysler, que entregava impressionantes 360 cv a 4.600 rpm, o carro acelerava de 0 a 100 km/h em menos de 10 segundos e atingia velocidades máximas acima de 225 km/h - números que o tornavam um dos sedans de luxo mais rápidos do mundo na época. A transmissão era uma escolha entre a manual de 4 velocidades Pont-à-Mousson ou a automática Torqueflite de 3 relações da Chrysler, ambas elogiadas por testes da revista Road & Track por sua suavidade e desempenho equilibrado. A suspensão independente nas quatro rodas, com freios a disco Dunlop e direção assistida, oferecia um rodar estável e confortável, apesar do peso. Cores exclusivas como o verde Carrera e interiores cinza eram comuns, e exemplares como o chassi EX1 B125, entregue nos EUA em janeiro de 1961 ao agente Peter Satori, destacavam-se por seu estado impecável e ar-condicionado original. Apenas 153 unidades da Série 1 foram produzidas, tornando 1960 um ano de raridade e refinamento, com aletas traseiras pontiagudas e para-brisa ‘dog’s leg’ que gritavam era espacial.
O Excellence não era só para as elites anônimas; ele atraía celebridades e figurões. Estrelas de Hollywood como Ava Gardner e Frank Sinatra foram vistas ao volante de Facel Vegas, enquanto autores, músicos e até realeza o adotavam como símbolo de sofisticação. Na França, ele representava o renascimento do luxo nacional, com exportações para os EUA e Europa impulsionando a marca - três em cada quatro HK500s (irmão coupé do Excellence) saíam do país. Mas por trás da glória, nuvens se formavam. A produção artesanal em pequenas quantidades elevava os custos, e a dependência de motores Chrysler importados tornava os carros caros (cerca de 10.000 dólares na época, equivalente a mais de 100.000 dólares hoje). Problemas de qualidade, como rigidez estrutural inferior aos coupés de duas portas e recalls mecânicos, mancharam a reputação. Em 1959, os motores Hemi foram substituídos por V8 Wedge da Chrysler (5.8 L e depois 6.3 L), mas o dano estava feito.
O crepúsculo veio rápido. Apesar de inovações como o Facellia de 1960 (um esportivo com motor próprio, mas problemático), a Facel Vega lutou contra a concorrência crescente de Mercedes-Benz, Rolls-Royce e até Packard, que considerou usar o Excellence como base para um novo modelo americano - ideia abortada por objeções da Daimler-Benz. A produção total da marca mal chegou a 2.900 unidades em uma década, e em 31 de outubro de 1964, as portas de Colombes se fecharam para sempre, vítima de finanças frágeis e um mercado em transformação. O Excellence, com cerca de 196 unidades fabricadas no total (incluindo 188 de 1958 a 1964), tornou-se uma relíquia rara: hoje, exemplares restaurados, como o chassi EX1 B118 vendido por valores entre 47.000 e 103.000 dólares em leilões recentes, são estrelas em eventos como o Pebble Beach Concours d’Elegance.
Seis décadas após seu auge, o Facel Vega Excellence de 1960 permanece um enigma fascinante: um sedan que uniu o melhor da França e da América, mas sucumbiu à idéia de sonhar grande demais. Em um mundo de sedans elétricos anônimos, ele nos lembra que o verdadeiro luxo era feito à mão, com velocidade e estilo que transcendiam fronteiras. Se você avistar um em uma exposição - com seu V8 rugindo como um leão parisiense -, pare e admire: é mais que um carro; é o eco de uma era dourada que se foi para sempre.