2026 - FERRARI DAYTONA SHOOTING BRAKE HOMMAGE
Em um cenário onde a eletrificação, a produção em série e a padronização dominam a indústria automotiva, ainda existem projetos capazes de celebrar a arte do automóvel como expressão máxima de design e exclusividade. É exatamente esse o propósito do Daytona Shooting Brake Hommage, apresentado em julho de 2026 pelo estúdio holandês Niels van Roij Design, uma criação que vai muito além de um simples restomod ou de uma carroceria especial. Trata-se de uma verdadeira homenagem contemporânea a um dos automóveis mais raros e cultuados da história: o singular Ferrari F365 GTB/4 Daytona Shooting Brake de 1972, concebido por Luigi Chinetti Jr. e produzido como exemplar único.
O projeto nasceu da encomenda de um colecionador apaixonado pela história do automóvel e pelo universo do coachbuilding. Em vez de reproduzir fielmente o modelo original, o estúdio optou por reinterpretar sua essência sob uma linguagem moderna, preservando as proporções, a elegância e o espírito do clássico, mas utilizando engenharia e processos construtivos do século XXI. O resultado é um grand tourer que parece simultaneamente familiar e completamente novo, respeitando a tradição sem abrir mão da inovação.
Embora o estúdio não revele oficialmente o automóvel doador, praticamente todos os indícios apontam para o uso da plataforma do Ferrari F599 GTB Fiorano. Entretanto, afirmar que o Hommage é ‘baseado em um F599’ simplifica demais o trabalho realizado. Com exceção das portas, praticamente todos os painéis externos foram completamente redesenhados e produzidos artesanalmente em alumínio, exigindo milhares de horas de modelagem digital, engenharia estrutural e acabamento manual. O próprio Niels van Roij afirma que o desenvolvimento consumiu mais de 15.000 horas entre estudos de estilo, engenharia e construção artesanal, um nível de dedicação reservado apenas às mais sofisticadas carrocerias sob encomenda do mundo.
Visualmente, o Hommage impressiona pela pureza das linhas. O longo capô, característica indispensável dos grandes GT italianos com motor dianteiro V12, conduz o olhar até uma cabine recuada que evolui para uma elegante silhueta Shooting Brake. A cobertura prolongada termina em uma traseira tipo Kamm, reinterpretando de forma moderna o desenho do carro de 1972. Na dianteira, finíssimos faróis de LED unem-se por uma faixa horizontal em tom âmbar, referência direta à marcante assinatura visual do Daytona original. A grade frontal, ampla e delicadamente cromada, reforça o caráter clássico da composição sem parecer nostálgica.
O detalhe mais fascinante, entretanto, permanece exatamente aquele que tornou o exemplar de 1972 lendário: as enormes janelas laterais traseiras em formato ‘borboleta’. No Hommage elas são acionadas eletricamente e giram para cima através de dobradiças usinadas em alumínio maciço, cuidadosamente deixadas aparentes como verdadeiras joias mecânicas. Além de criar um espetáculo visual, permitem acesso direto ao compartimento de bagagens, dispensando a abertura convencional da tampa traseira, exatamente como acontecia no modelo histórico.
A filosofia artesanal continua no interior. Embora a estrutura básica do habitáculo seja proveniente do carro doador, praticamente toda a cabine foi reinterpretada. Os instrumentos deixam de ficar atrás do volante e passam a ocupar uma elegante disposição central sobre o painel, reproduzindo outra característica marcante do Daytona Shooting Brake original. Couro na tonalidade conhaque cobre bancos, painel, portas, teto e até mesmo o compartimento de bagagens, enquanto componentes estruturais recebem acabamento em fibra de carbono de alta qualidade, substituindo a madeira utilizada na criação dos anos 1970. O ambiente combina luxo clássico e tecnologia contemporânea de forma extremamente harmoniosa.
Sob o longo capô permanece um legítimo motor V12 aspirado dianteiro. Embora o estúdio não divulgue especificações oficiais, tudo indica que foi preservado o tradicional V12 de 6.0 litros do Ferrari F599 GTB, capaz de entregar pouco mais de 600 cv, acoplado à transmissão automatizada de 6 velocidades e tração traseira. A decisão de manter o conjunto mecânico praticamente inalterado demonstra que o objetivo nunca foi criar um superesportivo mais potente, mas preservar a experiência visceral proporcionada por um dos últimos grandes V12 aspirados da Ferrari.
Como em todos os projetos da Niels van Roij Design, o processo de construção vai além do automóvel. Cada encomenda recebe atenção totalmente personalizada e, curiosamente, ao término de cada projeto o próprio designer encomenda um terno confeccionado com os mesmos materiais utilizados no interior do carro. Essa peça permanece nos arquivos do estúdio como símbolo permanente daquela criação exclusiva, reforçando a filosofia artesanal que permeia cada detalhe do trabalho.
O Daytona Shooting Brake Hommage fez sua estreia pública em 8 de julho de 2026, durante o Concours realizado pelo Royal Automobile Club, em Woodcote Park, na Inglaterra, provavelmente sua única aparição pública antes de seguir para a coleção particular de seu proprietário. Como o lendário exemplar de 1972 que lhe serviu de inspiração, este novo Hommage permanecerá como uma peça única, impossível de ser reproduzida em série.
Mais do que um exercício de estilo, o Daytona Shooting Brake Hommage representa a sobrevivência da tradição do coachbuilding em pleno século XXI. Em uma época dominada por linhas de produção altamente automatizadas, ele demonstra que ainda existe espaço para automóveis concebidos como verdadeiras esculturas sobre rodas, onde cada superfície é moldada à mão, cada componente possui um propósito estético e funcional, e cada exemplar nasce para ser absolutamente irrepetível. É uma homenagem não apenas ao extraordinário Daytona Shooting Brake de 1972, mas também à própria arte de transformar um automóvel em uma obra de design destinada a atravessar gerações.