2016 - FERRARI GTC4LUSSO
Em 2016, a Ferrari apresentou em Genebra um automóvel que, à primeira vista, parecia desafiar algumas das convenções mais tradicionais de Maranello. O GTC4Lusso sucedia diretamente à FF, mas levava sua proposta muito além de uma simples evolução: era um grand tourer de quatro lugares, quatro rodas motrizes e carroceria shooting brake, capaz de transportar passageiros e bagagem com uma praticidade incomum para uma Ferrari sem abrir mão do desempenho de um legítimo modelo da marca. Seu nome fazia referência a importantes antecessores, entre eles o F330 GT 2/2 e o F250 GT Berlinetta Lusso, enquanto o desenho desenvolvido pelo Ferrari Design adotava uma silhueta mais elegante e alongada que a do FF, com a traseira suavemente inclinada e um enorme vidro posterior integrado à tampa do compartimento de bagagem. A produção começou em 2016 e o ciclo foi encerrado em 2020, quando a própria Ferrari confirmou que havia concluído as entregas tanto do GTC4Lusso quanto do GTC4Lusso T.
A verdadeira personalidade do GTC4Lusso, entretanto, estava sob o capô. A versão principal utilizava o extraordinário V12 naturalmente aspirado de 6.262 cm³, disposto em 65 graus, pertencente à família F140. Com taxa de compressão de 13.5:1 e capacidade de girar até 8.250 rpm, o propulsor desenvolvia 690 cv a 8.000 rpm e 697 Nm a 5.750 rpm. A resposta era particularmente vigorosa porque cerca de 80% do torque máximo já estava disponível a apenas 1.750 rpm, permitindo que o grande GT respondesse com rapidez tanto em condução urbana quanto em acelerações de alta velocidade. A Ferrari declarava 0 a 100 km/h em apenas 3.4 segundos e velocidade máxima de 335 km/h, números extraordinários para um automóvel concebido para levar quatro pessoas e suas bagagens.
A maior inovação estava, porém, na maneira como essa potência chegava ao asfalto. O GTC4Lusso incorporava uma evolução do sistema 4RM, a tração integral desenvolvida originalmente para a FF, agora integrada ao sistema de esterçamento das rodas traseiras, denominado 4WS. O conjunto trabalhava em conjunto com o E-Diff, F1-Trac, controle de estabilidade e o sistema de controle lateral SSC4, permitindo que o comportamento do carro variasse de acordo com a situação. Em baixa e média velocidade, o esterçamento traseiro tornava as mudanças de direção mais rápidas; em velocidades elevadas, contribuía para a estabilidade. A distribuição de peso de 47% na dianteira e 53% na traseira também ajudava a transformar um carro de quase dois metros de largura e mais de 4.9 metros de comprimento em uma máquina surpreendentemente ágil.
O chassi utilizava uma arquitetura de alumínio e recebia suspensão independente, enquanto os enormes freios mediam 398 mm na dianteira e 360 mm na traseira. As rodas de 20 polegadas calçavam pneus 245/35 ZR20 na frente e 295/35 ZR20 atrás. Mesmo com todo o aparato mecânico, a Ferrari conseguia manter o peso seco em 1.790 kg, considerando a configuração de opcionais mais favorável, com massa em ordem de marcha indicada em 1.920 kg. O tanque comportava 91 litros, enquanto o compartimento de bagagem oferecia 450 litros, podendo chegar a 800 litros com os bancos traseiros rebatidos - característica que reforçava a proposta de um verdadeiro GT de longa distância.
No interior, a GTC4Lusso abandonava definitivamente a atmosfera relativamente convencional do FF e adotava o conceito de Dual Cockpit, dividido visualmente entre condutor e passageiro. A ideia era fazer do acompanhante um participante efetivo da viagem, inclusive com sua própria tela de informações. O acabamento seguia a tradição artesanal de Maranello, mas incorporava recursos tecnológicos e uma preocupação maior com isolamento acústico e conforto. A Ferrari afirmava ter melhorado em 20% a rigidez dos pontos de fixação do chassi e reduzido o ruído proveniente de diversos sistemas sem eliminar a característica mais desejável de todas: permitir que o som do V12 continuasse presente dentro da cabine.
A família GTC4Lusso ganhou ainda uma segunda personalidade em 2016, quando surgiu a GTC4Lusso T. Em vez do V12 e da complexa tração integral 4RM, ela utilizava o V8 biturbo de 3.855 cm³, com 610 cv a 7.500 rpm e 760 Nm entre 3.000 e 5.250 rpm, associado à tração traseira e ao esterçamento das rodas posteriores. Era, portanto, uma interpretação mais leve e ágil da mesma fórmula, além de representar a primeira Ferrari de quatro lugares equipada com um V8 turbo. O GTC4Lusso T chegava a mais de 320 km/h e fazia 0 a 100 km/h em cerca de 3.5 segundos. A produção dessa versão começou no final de 2016 e também foi encerrada em 2020.
A trajetória do GTC4Lusso terminou justamente quando a Ferrari começava a redesenhar sua gama de modelos de quatro lugares. Em 2020, a marca informou que havia completado as entregas do GTC4Lusso e do GTC4Lusso T, encerrando o ciclo daquele conceito. O modelo permaneceu, assim, como uma das Ferraris mais particulares do século XXI: um automóvel capaz de combinar um V12 aspirado de 690 cv, tração integral, quatro rodas esterçantes, quatro lugares verdadeiros e uma carroceria shooting brake, algo praticamente inimaginável dentro da tradição esportiva da marca algumas décadas antes. O GTC4Lusso acabou sendo, portanto, uma espécie de ponto de encontro entre a Ferrari dos grandes GTs clássicos e a Maranello tecnológica do século XXI.