1970 - FIAT ABARTH 1000 LOMBARDI GRAND PRIX
No início da década de 1970, a indústria automobilística italiana vivia um de seus períodos mais criativos. Além das grandes marcas como Ferrari, Lamborghini, Maserati e Alfa Romeo, uma constelação de pequenos construtores e carrozzerie independentes produzia automóveis exclusivos em séries reduzidas, muitos deles combinando mecânica Fiat com carrocerias de desenho ousado. Foi desse ambiente fértil que nasceu o FIAT Abarth 1000 Lombardi Grand Prix, um coupé compacto que, apesar do diminuto motor traseiro, exibia a aparência de um autêntico gran turismo italiano.
Seu criador foi Francis Lombardi, engenheiro, ex-piloto e empresário que fundou a Carrozzeria Francis Lombardi, em Turin. Conhecida inicialmente pela produção de pequenos aviões e, posteriormente, por elegantes carrocerias especiais baseadas em modelos FIAT, a empresa buscava oferecer automóveis exclusivos para um público que desejava algo muito mais sofisticado do que os modelos produzidos em larga escala. Em 1968, apresentou o Grand Prix, um coupé de linhas futuristas que rapidamente chamou a atenção nos salões europeus. Em 1970, surgiu uma de suas versões mais desejadas: o FIAT Abarth 1000 Lombardi Grand Prix.
Embora utilizasse a plataforma do FIAT 850, praticamente toda a carroceria era nova. Construída em aço, ela apresentava uma silhueta extremamente baixa e afilada, inspirada nos protótipos de competição italianos da época. A dianteira era marcada pelos elegantes faróis escamoteáveis - uma solução rara em um automóvel dessa categoria - que permaneciam ocultos quando desligados, proporcionando uma frente limpa e aerodinâmica. A linha do teto descia suavemente até a traseira curta, enquanto as amplas superfícies envidraçadas e os vincos discretos conferiam ao carro uma aparência muito mais sofisticada do que seu porte compacto sugeria.
Mas o verdadeiro diferencial desta versão estava sob a tampa traseira. Em vez do motor convencional do Fiat 850, o Grand Prix Abarth recebia preparação desenvolvida pela oficina de Carlo Abarth, especialista que havia transformado pequenos FIAT em máquinas de alto desempenho desde a década de 1950. O motor de 4 cilindros em linha, instalado longitudinalmente na traseira e refrigerado a água, tinha sua cilindrada elevada para 982 cm³, recebendo comando de válvulas mais agressivo, carburador de maior capacidade, taxa de compressão elevada e escapamento esportivo.
O resultado era uma potência próxima dos 70 cv, praticamente o dobro da oferecida pelo FIAT 850 convencional. Em um automóvel que pesava cerca de 630 kg, esse número proporcionava desempenho surpreendente para a época. O pequeno coupé podia acelerar de 0 a 100 km/h em aproximadamente 13 segundos e atingir velocidades próximas dos 160 km/h, desempenho bastante respeitável para um esportivo equipado com um motor de apenas 1.0 litro.
A mecânica permanecia fiel à arquitetura FIAT, com tração traseira, transmissão manual de 4 velocidades totalmente sincronizadas e suspensão independente nas quatro rodas. Entretanto, os ajustes promovidos pela Abarth deixavam o comportamento muito mais esportivo. A direção rápida, o baixo centro de gravidade e o reduzido peso faziam do Grand Prix um automóvel extremamente divertido em estradas sinuosas, onde sua agilidade frequentemente compensava a desvantagem de potência em relação a esportivos maiores.
O interior também revelava clara inspiração nas competições. Os bancos esportivos ofereciam excelente apoio lateral, enquanto o painel reunia instrumentos completos, incluindo conta-giros em destaque, manômetros auxiliares e volante esportivo de três raios. A posição de dirigir baixa reforçava a sensação de estar ao volante de um verdadeiro carro de corrida homologado para as ruas.
Apesar de todas as suas qualidades, o Grand Prix enfrentou um mercado extremamente competitivo. O lançamento de novos esportivos compactos, como o FIAT X1/9, além das dificuldades financeiras enfrentadas por pequenos fabricantes italianos no início dos anos 1970, limitaram sua produção. Foram construídas apenas algumas centenas de exemplares, muitos deles posteriormente modificados por seus proprietários, tornando os carros originais ainda mais raros nos dias atuais.
Essa baixa produção acabou transformando o FIAT Abarth 1000 Lombardi Grand Prix de 1970 em uma das joias mais discretas do automobilismo italiano. Diferentemente de modelos produzidos em larga escala, ele representa uma época em que pequenas carrozzerie ainda tinham liberdade para criar automóveis exclusivos, combinando design arrojado, soluções artesanais e mecânica consagrada.
Hoje, encontrar um exemplar preservado é uma tarefa difícil mesmo entre grandes colecionadores europeus. Seu desenho elegante, os característicos faróis escamoteáveis e a preparação assinada pela Abarth fazem dele um automóvel altamente valorizado, não apenas por sua raridade, mas por representar um período singular da indústria italiana. O FIAT Abarth 1000 Lombardi Grand Prix permanece como um fascinante exemplo da criatividade de Turin, mostrando que, mesmo com apenas 1.0 litro de cilindrada, era possível construir um esportivo capaz de despertar emoções dignas de máquinas muito mais potentes e famosas.