1966 - FORD GT40 MK III PROTOTYPE
Em 1966, poucos automóveis carregavam tanto prestígio quanto o Ford GT40. Depois de anos de desenvolvimento e de sucessivas derrotas diante da Ferrari, a Ford finalmente alcançara seu grande objetivo: vencer as 24 Horas de Le Mans. Naquele mesmo ano, entretanto, surgia uma proposta bastante diferente dentro do programa GT40: transformar o brutal carro de competição em um esportivo capaz de ser utilizado nas ruas. O resultado seria o GT40 Mk III, uma das mais raras e interessantes derivações da lenda anglo-americana. O protótipo apresentado em 1966 serviu justamente para desenvolver essa versão civil, posteriormente construída em apenas sete exemplares.
O projeto nasceu na Ford Advanced Vehicles (FAV), em Slough, Inglaterra, a mesma estrutura responsável pelos GT40 destinados às competições. A ideia era oferecer aos clientes particulares algo próximo de um carro de Le Mans que pudesse ser utilizado no cotidiano. O protótipo foi fotografado nas instalações da FAV antes mesmo de sua apresentação pública, inicialmente utilizando a carroceria convencional do Mk I com extensões de alumínio que simulavam as modificações previstas para o novo modelo. O desenvolvimento prosseguiu ao longo de 1966 e o protótipo ficou pronto em agosto, poucos meses depois da histórica vitória da Ford em Le Mans.
Visualmente, o Mk III preservava a silhueta baixa e ameaçadora que havia tornado o GT40 famoso, mas recebia alterações fundamentais para torná-lo mais apropriado ao uso rodoviário. A traseira foi alongada para criar espaço para bagagem, as tomadas de ar foram revistas e a dianteira recebeu quatro faróis elevados, enquanto as portas passaram a contar com janelas que podiam ser abertas. No interior, o seletor de marchas foi transferido para uma posição central mais convencional e o habitáculo recebeu equipamentos inexistentes nos carros de corrida - incluindo até mesmo um cinzeiro, pequeno detalhe que simbolizava a transformação do puro-sangue de competição em automóvel de estrada.
Mecanicamente, o Mk III mantinha a arquitetura central do GT40, com o motor instalado em posição central-traseira e tração traseira. Os exemplares de produção utilizaram o conhecido Ford V8 289 de 4.7 litros, embora a documentação de fábrica registrasse potência máxima de até 306 cv a 6.000 rpm e torque de 446 Nm a 4.200 rpm em determinada configuração. A suspensão e os componentes mecânicos foram adaptados para oferecer um comportamento menos extremo que o dos carros de corrida, com amortecedores mais macios e ajustes destinados ao uso rodoviário.
A diferença fundamental estava justamente nessa dupla personalidade. Enquanto o Mk I de competição era concebido para enfrentar longas provas de resistência, o Mk III procurava oferecer ao proprietário particular uma experiência semelhante sem exigir um caminhão de apoio ou uma equipe de mecânicos. O resultado continuava sendo um automóvel extremamente baixo, largo e potente, mas agora equipado com características de conforto e praticidade. Era, essencialmente, a tentativa de transformar o GT40 em um supercarro de uso civil décadas antes de esse conceito se tornar comum.
O contexto histórico também é importante. A vitória de 1966 em Le Mans havia elevado extraordinariamente o valor simbólico do GT40. A Ford terminou a prova nas três primeiras posições, com o Mk II de Bruce McLaren e Chris Amon cruzando a linha de chegada em primeiro, seguido pelos carros de Ken Miles/Denny Hulme e Ronnie Bucknum/Dick Hutcherson. A conquista encerrou a série de frustrações da Ford contra a Ferrari e consolidou definitivamente o GT40 como um dos maiores carros de competição de sua época.
Curiosamente, o projeto Mk III não alcançou o sucesso comercial esperado. O automóvel custava cerca de 18.000 dólares, valor extraordinariamente elevado para a época, e a produção inicialmente planejada para 20 unidades acabou reduzida a apenas sete exemplares, tornando-o o mais raro dos GT40 de produção original. Os Mk III também receberam numeração própria, começando em M3/1101, e eram construídos seguindo desenhos específicos para a versão de estrada, em vez de simplesmente converterem carros de corrida existentes.
O próprio protótipo possui uma trajetória fascinante. Identificado posteriormente como XP 130/01, ele foi utilizado pela Ford em atividades promocionais e de imprensa. Depois, retornou à John Willment Automobiles para ser atualizado para a especificação definitiva do Mk III, recebendo posteriormente a identificação de chassi 1101. Sua história documentada demonstra como o projeto experimental de 1966 acabou servindo de ponte entre o GT40 de competição e os raríssimos automóveis de rua que chegariam aos clientes.
O Ford GT40 Mk III Prototype de 1966 ocupa, portanto, uma posição muito particular na história do modelo. Ele nasceu justamente no momento em que o GT40 atingia o auge de sua carreira esportiva, mas olhava para uma direção completamente diferente: as estradas públicas. Com a mesma arquitetura central do lendário carro de Le Mans, mas dotado de bagageiro, janelas operáveis, interior mais civilizado e suspensão mais confortável, o Mk III mostrou que aquela máquina criada para derrotar a Ferrari também poderia, ao menos em teoria, ser transformada em um extraordinário automóvel de uso cotidiano. Produzido em números mínimos, acabou se tornando uma das manifestações mais raras da extraordinária aventura do GT40 na década de 1960.