1968 - GLAS 2600 V8 FRUA COUPE
A Alemanha dos anos 1960 era um país que experimentava um intenso crescimento econômico, e sua indústria automobilística buscava não apenas eficiência e confiabilidade, mas também prestígio e sofisticação. Nesse cenário surgiu um dos automóveis mais curiosos e refinados de sua época: o Glas 2600 V8 Frua Coupé de 1968, um grand tourer que combinava engenharia alemã com o estilo exuberante do design italiano.
A história começa com a empresa bávara Glas. Fundada por Hans Glas em Dingolfing, a companhia inicialmente produzia máquinas agrícolas e pequenas motocicletas. Nos anos 1950 e início dos 1960, entretanto, a Glas decidiu expandir sua atuação e passou a fabricar automóveis compactos e tecnicamente avançados. Modelos como o Glas 1004 e o Glas 1300 já demonstravam uma surpreendente sofisticação mecânica para um fabricante relativamente pequeno.
Mas Hans Glas queria algo mais ambicioso: um automóvel capaz de competir com os grandes coupés europeus da época. Para isso, a empresa decidiu desenvolver um motor totalmente novo - um compacto V8 de alumínio, formado essencialmente pela união de dois motores de 4 cilindros da própria marca. Esse conjunto deu origem ao elegante Glas 2600 V8, lançado em meados da década de 1960.
Para vestir esse sofisticado chassi, a Glas recorreu a um dos mais talentosos estilistas italianos do período: Pietro Frua. Frua já era conhecido por suas criações refinadas para diversas marcas europeias e tinha um talento especial para desenhar automóveis elegantes e equilibrados. O resultado foi o deslumbrante Frua Coupé, um carro que parecia ter saído diretamente de um salão do automóvel em Turin.
A carroceria era baixa, longa e extremamente harmoniosa. A dianteira trazia faróis duplos integrados a uma grade horizontal simples e sofisticada. O capô estendido transmitia a sensação de potência, enquanto a linha do teto fluía suavemente até a traseira curta e elegante, criando o perfil clássico de um verdadeiro gran turismo europeu. O desenho era limpo e refinado, com proporções que lembravam algumas criações italianas contemporâneas, mas com uma sobriedade tipicamente germânica.
O interior refletia o caráter luxuoso do modelo. Painel com instrumentos circulares bem distribuídos, acabamento em madeira, bancos de couro e um ambiente pensado para viagens longas em alta velocidade - exatamente o espírito dos grandes GTs da década de 1960. Era um carro projetado para cruzar a Europa com rapidez e conforto, algo muito valorizado em uma época em que as novas autoestradas alemãs convidavam a deslocamentos cada vez mais rápidos.
Debaixo do capô, o motor V8 de 2.6 litros entregava cerca de 150 cv, um número respeitável para um coupé daquele porte na época. Combinado a uma transmissão manual e à tração traseira, o conjunto proporcionava desempenho sólido e um funcionamento extremamente suave. A engenharia alemã garantia estabilidade e refinamento mecânico, enquanto o design italiano acrescentava emoção e estilo.
No entanto, apesar de suas qualidades, o destino da Glas estava prestes a mudar. Em 1966, a empresa foi adquirida pela poderosa BMW, que enxergava valor na estrutura industrial do fabricante em Dingolfing. Durante um breve período, o modelo continuou em produção com pequenas alterações e passou a ser comercializado como BMW 2600 V8.
Assim, o Glas 2600 V8 Frua acabou se tornando uma espécie de elo perdido na história da BMW, um carro que nasceu em um pequeno fabricante bávaro, recebeu design italiano e terminou sua vida sob o emblema de uma das marcas mais prestigiadas do mundo.
E há uma curiosidade fascinante sobre esse modelo: muitos entusiastas chamam o carro de ‘Glaserati’. O apelido surgiu porque o elegante design de Pietro Frua lembrava, para alguns observadores, o estilo de certos coupés da Maserati da mesma época. Embora não tenha relação direta com a marca italiana, o Glas 2600 V8 Frua permanece até hoje como um dos automóveis mais elegantes e raros da indústria alemã dos anos 1960 - uma verdadeira fusão entre precisão germânica e charme italiano.