1919 - KISSEL KAR MODEL 6-45 SPEEDSTER
Em uma era de inovação automotiva pós-Primeira Guerra Mundial, quando os Estados Unidos emergiam como potência industrial, o Kissel Kar Model 6-45 Speedster de 1919 representava o epítome da ousadia e do estilo, um roadster leve projetado para quem buscava velocidade e distinção nas estradas emergentes do país. Produzido pela Kissel Motor Car Company, de Hartford, Wisconsin, este veículo não era apenas um carro; era um símbolo de progresso, o mais antigo exemplar sobrevivente de sua linhagem de speedsters, pré-datando até o icônico apelido ‘Gold Bug’ que viria a definir a marca. Com chassi número 1141 e motor 1199, este raro sobrevivente - um de apenas 37 speedsters Kissel conhecidos - está pronto para atrair colecionadores que valorizam a herança de uma empresa familiar que desafiou as convenções da época.
A saga da Kissel Kar começou no final do século XIX, quando Conrad Kissel, imigrante prussiano nascido em 1812, estabeleceu raízes em Washington County, Wisconsin. Seu filho, Louis C. Kissel, mudou-se para Hartford em 1883 e, em parceria com os filhos Adolph P., Otto P., William L. e George A., expandiu o negócio familiar para além de ferragens e arados. Em 1906, incorporaram a Kissel Motor Car Company, inicialmente como ‘Kissel Kar’ - um nome que soava ‘demasiado germânico’ durante a Primeira Guerra Mundial, levando à simplificação para ‘Kissel’. O primeiro protótipo, um runabout de 4 cilindros com transmissão por eixo em 1905, foi revolucionário; a produção em massa começou em 1907, com motores Beaver e carrocerias da Zimmerman Brothers, de Waupun, Wisconsin. Até 1931, a empresa fabricou cerca de 35.000 automóveis e caminhões, incluindo hearses, fire trucks e taxicabs, mas foi nos speedsters que Kissel encontrou sua identidade esportiva.
O Model 6-45 Speedster foi introduzido em 1919, logo após o lançamento do chassi Six em 1913, marcando o primeiro ano de produção plena dessa configuração icônica. Projetado sob influência do distribuidor de New York, Conover T. Silver - que encomendou o modelo a seu próprio design, inclusive batizando-o temporariamente de ‘Silver Special’ -, o speedster combinava ‘fleetness and power’ com um visual rakish, como descrevia a publicidade da época. Com um motor de 6 cilindros em linha de 4.7 litros, produzindo 45 cv de potência, transmissão manual de 3 velocidades, freios mecânicos em duas rodas e suspensão por molas de lâmina, o carro atingia velocidades acima de 100 km/h, impressionantes para as estradas rudimentares de então. Seu chassi de 3.048 mm de entre-eixos suportava uma carroceria aberta de dois lugares, com assentos outrigger deslizantes nas laterais - uma inovação que permitia acomodar até quatro passageiros de forma criativa. Disponível em cores vibrantes, como o Chrome Yellow clássico da Kissel, o modelo era acessível para a elite emergente, custando cerca de 2.500 dólares, e apelava para celebridades como Anita King, que em 1915 dirigiu um Kissel em sua travessia transcontinental solitária - a primeira por uma mulher.
O speedster de 1919, em particular, é notável por ser o protótipo inicial da linha, anterior ao concurso de nomes que resultou em ‘Gold Bug’ em 1920, inspirado em mais de 500 sugestões e imortalizado em anúncios da Vanity Fair como ‘custom-built’ - um fato, não uma teoria. A Kissel promoveu o modelo em campanhas ousadas, como um tour de dois meses pelo Wisconsin em 1919 para advogar por melhores estradas, emprestando um exemplar a um repórter do Milwaukee Journal. O carro atraiu uma clientela estelar: Amelia Earhart, Douglas Fairbanks, Mary Pickford, Al Jolson e Jack Dempsey foram donos orgulhosos, elevando o status da marca. No entanto, a prosperidade foi efêmera; a Grande Depressão e uma tentativa fracassada de parceria com a Ruxton levaram à falência em 1931, com produção cessando em 1930. Dos milhares de veículos, apenas cerca de 200 sobrevivem, e este 1919 é o único speedster desse ano conhecido, com uma história rica desde os anos 1950, documentada por uma sucessão de proprietários notáveis.
O exemplar que aparece nas imagens é uma obra-prima restaurada a padrões de concours, apresentado em sua carroceria original preta - uma cor ‘sinistra e muscular’, contrastando com o amarelo comum, descoberta durante a restauração meticulosa pela D.L. George Historic Motorcars. Reconhecido como CCCA Full Classic, ele ganhou Best in Class no Arizona Concours d’Elegance de 2024 e foi coadjuvante no romance de Clive Cussler, Journey of the Pharaohs. Com painel de alumínio original, materiais da época para as soleiras e piso, e sistemas mecânicos reconstruídos (exceto motor e diferencial traseiro, em bom estado), este Kissel está pronto para aventuras em campos de concours ou estradas abertas. Suas imagens revelam linhas aerodinâmicas, detalhes cromados e um visual que evoca a era de ouro dos automóveis americanos, com rodas de arame e faróis redondos que capturam a essência de 1919.
Embora a Kissel tenha desaparecido há quase um século, o Model 6-45 Speedster de 1919 perdura como um testemunho de inovação familiar e espírito pioneiro. Em um mercado de colecionáveis onde exemplares semelhantes superam 200 mil dólares em leilões da RM Sotheby’s, este carro não é apenas um veículo; é um pedaço da história americana, convidando a próxima geração a reviver a velocidade e o glamour de uma era esquecida.