1927 - LAGONDA 14/60 TOURER
O Lagonda 14/60 Saloon de 1927 é um marco na história da indústria automotiva britânica, representando a transição da Lagonda, um fabricante sediado em Staines, Inglaterra, para um segmento de mercado mais sofisticado e exclusivo. Introduzido no Salão de Londres, em agosto de 1925, o modelo 14/60 foi a primeira incursão da marca em um carro de 2.0 litros, projetado para combinar desempenho esportivo com o conforto de um veículo de turismo. O saloon, em particular, destacou-se como uma opção elegante e robusta, voltada para condutores que buscavam qualidade, exclusividade e um toque de requinte.
Contexto e Desenvolvimento
Na década de 1920, a Lagonda buscava se reposicionar no mercado automotivo, que estava se tornando cada vez mais competitivo com a ascensão de marcas como Austin e Morris. Para isso, a empresa optou por desenvolver um veículo que atendesse a um público mais exigente, disposto a pagar por um automóvel de maior qualidade e desempenho. O 14/60 substituiu o modelo anterior, o 12/24, que era significativamente mais acessível, com preços de 295 libras esterlinas para o tourer e 370 libras esterlinas para o saloon. Em contrapartida, o 14/60 saloon era oferecido por 720 libras esterlinas, quase o dobro do preço de seu antecessor, sinalizando a nova direção da marca rumo ao mercado de luxo.
O projeto do 14/60 foi um ‘novo começo’ para a Lagonda, com um chassi desenhado por Eddie Masters e um motor completamente novo projetado por Arthur Davidson, ex-engenheiro da Lea-Francis. A estreia no Salão de Londres de 1925 causou grande impacto, sendo aclamado pela imprensa automotiva como “um carro de turismo extremamente refinado e suave, com eficiência acima da média”.
Características Técnicas
O coração do Lagonda 14/60 Saloon era seu motor de 1.954 cc, um bloco de 4 cilindros com válvulas aéreas (OHV) e cabeçotes hemisféricos, uma inovação para a época. Com dois eixos comando de válvulas montados nas laterais do bloco, o motor produzia cerca de 60 cv a 3.500 rpm, permitindo uma velocidade máxima entre 100 e 115 km/h, dependendo da carroceria. O design do motor, com cabeçote destacável, facilitava a manutenção, como a descarbonização e retífica de válvulas, tarefas comuns na era pré-gasolina com chumbo. No entanto, a geometria dos dutos de admissão limitava o desempenho, uma característica que seria abordada em versões posteriores, como o 2 Litre Speed.
O carro contava com uma transmissão manual de 4 velocidades, montada separadamente do motor, e uma embreagem de placa seca. A tração era traseira, com um eixo traseiro em espiral cônica. A suspensão utilizava molas semi-elípticas na dianteira e traseira, proporcionando um rodar confortável, enquanto os freios a tambor de 14 polegadas, operados por varilhas e cabos, ofereciam uma frenagem confiável para a época, com sapatas separadas para o freio de mão nas rodas traseiras.
A carroceria saloon, uma das três opções padrão (junto com o tourer e o semi-sports), foi projetada para acomodar cinco ocupantes, embora fosse ligeiramente mais pesada, limitando a velocidade máxima a cerca de 100 km/h. As carrocerias eram construídas com atenção aos detalhes, muitas vezes com acabamentos de alta qualidade, e algumas unidades foram enviadas a encarroçadores externos para personalização. A chegada de Frank Feeley à Lagonda em 1925, direto da escola, marcou o início de uma era de designs elegantes, que se tornariam uma assinatura da marca nas décadas seguintes.
Produção e Versões
Entre 1925 e 1931, cerca de 1.440 unidades do Lagonda 14/60 foram produzidas, das quais aproximadamente 1.340 foram do modelo padrão, incluindo o saloon. Hoje, estima-se que apenas 24 unidades do 14/60 ainda existam, tornando-o um item de colecionador altamente valorizado.
Em 1927, a Lagonda lançou a versão 2 Litre Speed, que oferecia um motor mais potente, com 70 cv, graças a uma maior taxa de compressão e, em algumas versões, um supercompressor Cozette, que elevava a velocidade máxima para até 145 km/h. O chassi do Speed Model foi ajustado, com o motor reposicionado 22 cm mais para trás, resultando em um capô mais longo e melhor equilíbrio. Em 1932, a Lagonda apresentou o modelo Continental, uma edição limitada com apenas 23 unidades, equipada com faróis Lucas P100 e uma carroceria de aço mais moderna.
Legado e Importância
O Lagonda 14/60 Saloon de 1927 é lembrado como um símbolo da ambição da marca em se estabelecer como um dos principais fabricantes de carros esportivos de luxo no Reino Unido. Apesar de suas limitações, como o peso da carroceria saloon e o desempenho restrito do motor devido ao design do cabeçote, o modelo foi elogiado por sua suavidade e conforto, características que o tornaram ideal para longas viagens. Sua reputação foi reforçada por avaliações da imprensa, como a da Autocar em dezembro de 1927, que destacou sua capacidade de combinar “o desempenho de um carro esportivo com as maneiras silenciosas e a conveniência de um tourer”.
Curiosidades e Valor Histórico
O Lagonda 14/60 também teve uma história intrigante associada a figuras notáveis. Um exemplar tourer de 1927, registrado como PF 7276, pertenceu a Donald Crowhurst, um velejador famoso por sua trágica participação na corrida de volta ao mundo Golden Globe de 1968. Após seu desaparecimento, o carro foi resgatado e restaurado, permanecendo em uso até os dias atuais.
Hoje, o Lagonda 14/60 Saloon é uma peça rara e cobiçada por colecionadores, representando uma era de transição na indústria automotiva, quando a engenharia avançada e o design elegante começaram a moldar o futuro dos carros de luxo. Sua combinação de inovação técnica, como o motor de eixos comandos de válvulas elevados, e o charme vintage o tornam um ícone da história automotiva britânica.