1996 - MERCEDES-BENZ S 600 L AMG
Em meados dos anos 1990, o Mercedes-Benz S Class W140 representava o que havia de mais sofisticado na indústria automobilística alemã, enquanto a AMG ainda era uma empresa independente especializada em transformar os modelos da estrela de três pontas em máquinas de desempenho extraordinário. Dessa combinação nasceu uma das versões mais fascinantes e raras da geração W140: o Mercedes-Benz S 600 L AMG, um enorme sedan de entre-eixos longo que conseguia conciliar o luxo de uma limousine com uma preparação mecânica capaz de transformar seu V12 em algo muito mais ameaçador. Em 1996, a AMG já oferecia oficialmente preparações para o S Class, embora a nomenclatura e a disponibilidade variassem conforme o mercado e o ano-modelo.
A base já era extraordinária. O S 600 L utilizava o motor M120, um V12 de 5.987 cm³, originalmente capaz de desenvolver cerca de 394 cv e 570 Nm na especificação Mercedes-Benz. Montado longitudinalmente e associado a uma transmissão automática de 5 velocidades, o propulsor levava o pesado sedan de cerca de 2.2 toneladas a 100 km/h em pouco mais de seis segundos, enquanto a velocidade máxima era eletronicamente limitada a 250 km/h. O entre-eixos de 3.14 metros proporcionava um enorme espaço para os passageiros traseiros e reforçava a vocação de limousine do modelo.
A AMG, porém, enxergava naquele V12 uma oportunidade muito maior. Entre as possibilidades oferecidas pela preparadora estava o chamado AMG Power Pack, que elevava consideravelmente o desempenho do M120. Dependendo da configuração e do período, esses motores podiam alcançar a faixa dos 440 cv, acompanhados de aproximadamente 600 Nm de torque. O resultado era um S Class que preservava a aparência discreta do W140, mas entregava uma resposta muito mais vigorosa ao acelerador. Um exemplar de 1996 documentado com essa preparação, por exemplo, apresenta justamente o V12 de 6.0 litros com 440 cv e 600 Nm.
Visualmente, a transformação era muito mais sutil do que sugeririam os números. A AMG aplicava seu característico kit aerodinâmico, rodas Monoblock, instrumentos específicos e outros detalhes de acabamento, mas preservava a imponência original da W140. Não havia necessidade de grandes asas, entradas de ar exageradas ou elementos chamativos: o verdadeiro diferencial estava escondido sob o capô. Essa discrição fazia parte do encanto do automóvel e antecipava uma filosofia que posteriormente se tornaria uma das marcas registradas da AMG.
E a história fica ainda mais interessante quando se chega ao extremo da preparação. A AMG chegou a instalar no W140 versões de 7.0 e 7.1 litros do V12 M120, derivadas de motores utilizados em outros projetos da preparadora. Em 1996, a evolução de aproximadamente 7.0 litros podia produzir perto de 496 cv e 720 Nm, enquanto versões anteriores chegaram a cifras ainda mais elevadas. Um dos exemplares especiais conhecidos como S 600 7.0 AMG recebeu o motor ampliado e demonstra até onde a AMG estava disposta a levar o conceito de uma S Class de altíssimo desempenho.
Essa liberdade de transformação era possível porque, naquela época, a AMG ainda não fazia parte integral da Mercedes-Benz. A empresa de Affalterbach funcionava como uma preparadora independente e recebia encomendas especiais de clientes que desejavam algo além do que aparecia no catálogo convencional da Mercedes-Benz. Por isso, encontrar hoje dois S 600 L AMG de 1996 absolutamente idênticos pode ser difícil: equipamentos, potência e acabamento podiam variar de acordo com a preparação escolhida e com as especificações solicitadas pelo proprietário.
O ambiente interno permanecia fiel ao caráter de limousine do S Class. Couro, madeira, bancos elétricos de múltiplos ajustes, climatização sofisticada e uma longa lista de equipamentos faziam do W140 um dos automóveis mais luxuosos de seu tempo. A AMG acrescentava instrumentos e acabamentos próprios, mas sem transformar a cabine em um ambiente de carro de competição. Era justamente essa dualidade que tornava o modelo tão especial: enquanto o condutor podia desfrutar de um V12 preparado por Affalterbach, os passageiros traseiros continuavam viajando em um dos espaços mais silenciosos e confortáveis disponíveis na indústria alemã.
O S 600 L AMG de 1996 representa, portanto, um momento muito particular da história da AMG. Era a época em que a preparadora ainda trabalhava quase artesanalmente, aceitando projetos que hoje seriam inimagináveis em uma linha de produção convencional. A combinação entre o monumental W140, o refinado V12 M120 e a intervenção de Affalterbach criou um automóvel que não precisava anunciar sua velocidade. Era uma limousine de aparência austera, quase diplomática, mas com potência suficiente para transformar uma simples viagem pela Autobahn em uma experiência digna de um verdadeiro gran turismo alemão.
Mais do que uma versão esportiva do S Class, o Mercedes-Benz S 600 L AMG 1996 é uma fotografia de uma época em que o luxo e o desempenho ainda podiam ser combinados de maneira quase artesanal. Antes de a AMG se transformar definitivamente em uma divisão de alto desempenho integrada à Mercedes-Benz, existia uma fase em que um cliente podia simplesmente procurar Affalterbach e perguntar: “Até onde vocês conseguem levar meu S Class?” E, no caso do gigantesco W140, a resposta podia ser um V12 ainda maior, mais potente e muito mais raro.