1963 - OSCA 1600 GT2 FISSORE CABRIOLET
No coração da Itália pós-guerra, onde a paixão por velocidade se entrelaçava com a elegância artesanal, nasceu um ícone de raridade e ousadia: o OSCA 1600 GT2 Fissore Cabriolet de 1963. Imagine um veículo que carrega o DNA dos lendários irmãos Maserati, mas com a liberdade de um conversível aberto ao céu, projetado para conquistar estradas sinuosas e olhares invejosos. Essa joia sobre rodas, um dos apenas três exemplares produzidos, não era mero transporte - era uma declaração de independência automotiva, um grito de rebeldia contra a produção em massa da era.
Tudo começou em 1947, quando os irmãos Maserati - Ernesto, Ettore e Bindo - romperam com a família Orsi, que havia assumido o controle da Maserati original em 1937. Descontentes com a virada para carros de turismo, os irmãos fundaram a Officine Specializzate Costruzione Automobili Fratelli Maserati (OSCA), em San Lazzaro di Savena, perto de Bolonha. Seu foco inicial? Carros de competição puros, como o icônico MT4, que dominou pistas com um motor de 1.092 cc e vitórias em corridas como o GP de Nápoles de 1948, pilotada por Luigi Villoresi.
A OSCA era uma operação boutique, produzindo no máximo 30 carros por ano, todos com alma de pista. Mas o destino, ou talvez a astúcia comercial, mudou o rumo na década de 1950. Um acordo com a FIAT para fornecer motores esportivos de 4 cilindros de duplo comando (DOHC) abriu portas para versões de turismo. O OSCA 1600 GT surgiu assim: um chassi tubular de aço projetado pelos próprios Maserati, com suspensão independente nas quatro rodas, inspirado no legado de corridas. Entre 1960 e 1963, cerca de 128 unidades foram construídas, a maioria com carrocerias de Zagato - 98 delas, com o famoso teto ‘double-bubble’ em alumínio leve.
No entanto, para os clientes mais exclusivos, havia opções de carrozzerias sob medida de Fissore, Boneschi, Morelli e outros mestres italianos. É aqui que entra o protagonista dessa história: o OSCA 1600 GT2 Fissore Cabriolet. Diferente dos coupés fechados, essa versão conversível - uma das apenas três produzidas, e uma das duas com chassi tubular - representava o ápice da ousadia. Projetado pela Carrozzeria Fissore, de Turin, o carro estreou no Salão de Turin em outubro de 1963, no estande da própria Fissore, em uma cor bordeaux que ainda hoje evoca o glamour da Dolce Vita. Seu corpo de alumínio leve, esguio e aerodinâmico, com linhas que mesclavam esportividade e sofisticação: faróis redondos, grade frontal agressiva e um capô com intake para o motor, alcançando uma velocidade máxima de 190 km/h.
Sob o capô, o coração pulsante era o motor de 1.568 cc de 4 cilindros em linha, o mais potente entre os 24 OSCAs encarroçados pela Fissore. Com duplo comando no cabeçote, duas válvulas por cilindro e carburadores duplos Weber 38 DCOE, ele entregava 105 cv a 6.000 rpm, acoplado a uma transmissão manual de 4 velocidades.
Derivado do projeto de Aurelio Lampredi para o FIAT 1600 S, mas ajustado pela expertise OSCA, esse propulsor não era para os fracos de coração - rugia com a ferocidade de um carro de corrida, injetando adrenalina em curvas e retas. O peso seco de cerca de 862 kg garantia agilidade, tornando-o um conversível não só belo, mas também preciso nas mãos de um condutor habilidoso.
O chassi número 00119, o segundo dessa configuração e que aparece nas imagens, não foi apenas um protótipo de salão. Ele cruzou o Atlântico para coleções privadas nos Estados Unidos, passando 25 anos na lendária coleção Miller, depois para o colecionador David Uihlein e, em 2006, para Hugh Taylor na Inglaterra.
Em 2012, uma restauração profunda o reviveu, preservando seu estado original - motor brilhante, direção leve e um som exaustivo que ecoa a herança de pistas como Sebring, onde OSCAs brilharam nos anos 1950. Em 2016, no leilão Rétromobile da Artcurial, em Paris, ele foi arrematado por impressionantes 202.640 euros, provando que a raridade italiana ainda hipnotiza colecionadores globais.
Em 1963, enquanto a OSCA era vendida ao Conde Domenico Agusta (dono da MV Agusta), encerrando operações em 1967, esse cabriolet simbolizava o fim de uma era: a dos artesãos que priorizavam a emoção sobre a quantidade.
Hoje, mais de 60 anos depois, o OSCA 1600 GT2 Fissore não é só um carro - é um portal para o passado, um lembrete de que a verdadeira velocidade vem da alma, não do velocímetro. Para entusiastas, dirigir um desses é reviver a rebeldia dos Maserati: vento no rosto, motor cantando e o mundo ao alcance de um acelerador. Raro? Sim. Inesquecível? Absolutamente.