1911 - RENAULT TYPE CB KELLNER COUPÉ CHAUFFEUR
Em 1911, o automóvel já havia deixado de ser apenas uma curiosidade tecnológica para tornar-se um objeto de prestígio. Na França da Belle Époque, possuir um grande Renault significava pertencer à elite econômica e social, e poucos modelos representavam esse universo com tanta elegância quanto o Renault Type CB Kellner Coupé Chauffeur. Mais do que um automóvel, tratava-se de uma sofisticada obra de engenharia e carroceria, concebida para transportar seus proprietários com conforto absoluto enquanto um motorista profissional assumia a condução.
Naquela época, a Renault seguia uma filosofia bastante diferente da que conhecemos hoje. A fábrica de Billancourt fornecia essencialmente o chassi completo - composto por motor, transmissão, suspensão e estrutura -, enquanto a carroceria era encomendada a empresas especializadas, conhecidas como carrossiers. Entre elas, poucas desfrutavam de reputação tão elevada quanto a Kellner et Fils, cuja produção era destinada à aristocracia europeia, grandes empresários e membros da alta burguesia.
A Kellner transformava um chassi Renault em uma verdadeira peça de alta-costura sobre rodas. Cada automóvel era construído praticamente à mão, de acordo com as preferências do cliente, tornando extremamente raro encontrar dois exemplares absolutamente idênticos.
O Type CB figurava entre os modelos mais refinados da Renault antes da Primeira Guerra Mundial. Seu longo chassi permitia acomodar carrocerias amplas e luxuosas, sendo a configuração Coupé Chauffeur uma das mais sofisticadas disponíveis.
Esse estilo de carroceria refletia claramente a divisão de classes da época. Na dianteira, o motorista permanecia completamente exposto às condições climáticas, protegido apenas por um pequeno para-brisa e, em alguns casos, por uma cobertura parcial. Já os proprietários viajavam em uma cabine totalmente fechada, silenciosa e ricamente decorada, acessada por largas portas laterais.
No interior, predominavam madeiras nobres cuidadosamente envernizadas, ferragens em latão polido, tapetes espessos, cortinas de seda e estofamentos confeccionados em couro de alta qualidade ou veludo. Pequenos compartimentos para objetos pessoais, vasos decorativos, espelhos bisotados e luminárias internas demonstravam que cada detalhe havia sido pensado para oferecer o máximo de conforto aos passageiros.
Sob o longo capô encontrava-se um robusto motor de 4 cilindros em linha, com deslocamento superior a 4.0 litros - dependendo da configuração específica da carroceria e do mercado ao qual se destinava. Desenvolvendo cerca de 20 a 25 cv de potência, o propulsor era alimentado por carburador e utilizava arrefecimento líquido por meio de um radiador posicionado atrás do motor, característica marcante dos Renault produzidos antes da Primeira Guerra Mundial.
Essa disposição mecânica dava origem ao inconfundível perfil frontal da marca. Diferentemente da maioria dos fabricantes, a Renault posicionava o radiador entre o motor e o painel corta-fogo, deixando a dianteira com um aspecto limpo e inclinado, praticamente sem a tradicional grade frontal. Esse desenho tornou-se uma verdadeira assinatura visual da empresa durante os primeiros anos do século XX.
A transmissão utilizava um câmbio manual de múltiplas velocidades, ligado ao eixo traseiro por meio de eixo cardan, solução que a Renault havia adotado precocemente e que representava uma evolução significativa em relação às transmissões por corrente utilizadas por diversos concorrentes. A condução exigia habilidade, já que o motorista precisava sincronizar cuidadosamente as trocas de marcha, utilizando técnicas como a dupla embreagem para garantir funcionamento suave.
Apesar de pesar mais de duas toneladas quando equipado com carroceria Kellner, o Type CB era perfeitamente capaz de manter velocidades de cruzeiro entre 60 e 70 km/h, desempenho impressionante para uma época em que grande parte das estradas ainda era formada por terra batida ou cascalho.
O conforto proporcionado pelo longo entre-eixos era outro diferencial importante. As molas semielípticas absorviam razoavelmente as irregularidades do piso, enquanto a cabine isolada oferecia um ambiente tranquilo para conversas durante viagens entre Paris, Deauville, Nice ou outras cidades frequentadas pela elite francesa.
A qualidade de construção da Kellner também impressionava. As estruturas internas eram confeccionadas em madeira selecionada, sobre as quais eram moldados painéis metálicos ajustados manualmente. A pintura recebia diversas camadas de verniz aplicadas e polidas à mão, criando um brilho profundo que rivalizava com o acabamento das melhores carruagens de luxo da época.
Automóveis como o Renault Type CB eram frequentemente vistos diante dos grandes hotéis parisienses, dos teatros, dos cassinos da Riviera Francesa e das residências aristocráticas. Não raramente, seus proprietários possuíam mais de um automóvel, cada qual destinado a diferentes ocasiões sociais.
Hoje, um Renault Type CB Kellner Coupé Chauffeur de 1911 figura entre os mais desejados automóveis da era veterana. Sua combinação de mecânica pioneira, carroceria artesanal e excelente estado de preservação faz com que exemplares sobreviventes sejam presença constante nos principais concursos de elegância do mundo, como Pebble Beach, Villa d’Este e Chantilly Arts & Élégance, onde são admirados tanto pela imponência quanto pela extraordinária qualidade artesanal.
Mais do que um automóvel de luxo, o Renault Type CB Kellner Coupé Chauffeur representa uma época em que engenharia e arte caminhavam lado a lado. Cada exemplar reunia a robustez mecânica desenvolvida pela Renault com a criatividade e o refinamento dos grandes mestres carroceiros franceses, tornando-se um dos melhores representantes da Belle Époque sobre rodas. Ele simboliza um momento único da história da indústria automobilística, quando cada carro era construído como uma peça exclusiva e refletia, em cada detalhe, o prestígio e a personalidade de seu proprietário.