1969 - SAAB 96 V4
No final da década de 1960, enquanto boa parte da indústria automobilística europeia apostava em carros maiores, cromados exuberantes e motores cada vez mais potentes, a sueca Saab seguia um caminho completamente diferente. Nascida da indústria aeronáutica, o fabricante escandinavo acreditava em eficiência, segurança, aerodinâmica e soluções técnicas pouco convencionais. E poucos modelos representam tão bem essa filosofia quanto o icônico Saab 96 V4.
Em 1969, o Saab 96 já era um automóvel bastante conhecido na Europa, especialmente nos países nórdicos, onde sua robustez e excelente tração em pisos escorregadios haviam conquistado milhares de condutores. Seu visual chamava atenção imediatamente: arredondado, compacto e quase sem linhas retas, o carro parecia mais um pequeno avião sem asas do que um automóvel convencional. Não por acaso, muitos apelidavam o modelo de ‘gota sobre rodas’ graças ao formato extremamente aerodinâmico herdado da experiência aeronáutica da Saab.
O grande diferencial daquela fase do modelo estava justamente no nome V4. Até 1966, o Saab 96 utilizava motores dois-tempos de 3 cilindros, uma configuração já considerada ultrapassada no fim dos anos 1960. Para manter o carro competitivo, a Saab decidiu substituir o antigo conjunto mecânico pelo compacto motor V4 de origem Ford alemã.
O propulsor de 1.5 litros entregava cerca de 65 cv, número modesto mesmo para a época, mas suficiente para proporcionar desempenho agradável graças ao baixo peso do carro. Mais importante do que velocidade pura era sua resistência mecânica e comportamento previsível em condições difíceis. O Saab 96 V4 era extremamente confiável em neve, gelo e estradas molhadas - praticamente um requisito obrigatório para sobreviver ao rigoroso clima escandinavo.
A tração dianteira, ainda relativamente incomum naquele período, ajudava bastante na estabilidade. O pequeno sueco transmitia enorme confiança ao condutor, especialmente em pisos de baixa aderência. Essa característica fez do modelo uma verdadeira lenda nos rallys internacionais.
Foi justamente nos rallys que o Saab 96 ganhou fama mundial. Pilotado por nomes lendários como Erik Carlsson, o modelo acumulou vitórias impressionantes em provas como o Rally de Monte Carlo e o RAC Rally britânico durante os anos 1960. Mesmo enfrentando carros maiores e mais potentes, o Saab compensava com leveza, durabilidade e excelente controle em terrenos difíceis.
O interior do 96 V4 refletia perfeitamente o pensamento sueco: funcionalidade acima de ostentação. O painel era simples, os comandos bem-posicionados e os bancos extremamente confortáveis, algo que se tornaria uma tradição da Saab nas décadas seguintes. Havia ainda uma grande preocupação com segurança, tema que começava a ganhar importância mundial naquele período.
Outro detalhe curioso era a ignição posicionada entre os bancos dianteiros - uma característica típica da Saab por muitos anos. A solução ajudava a reduzir riscos de lesão nos joelhos em acidentes e também dificultava furtos.
Apesar do visual peculiar e das soluções pouco convencionais, o Saab 96 conquistou mercados muito além da Escandinávia. O modelo foi vendido em vários países europeus e até nos Estados Unidos, onde seu caráter exótico atraía consumidores interessados em carros diferentes dos tradicionais sedans americanos gigantescos.
A produção do Saab 96 continuaria até 1980, uma longevidade impressionante para um projeto originalmente desenvolvido ainda nos anos 1940. Isso demonstra o quanto o carro era eficiente dentro de sua proposta.
Hoje, o Saab 96 V4 de 1969 é lembrado como um dos compactos mais carismáticos e inteligentes de sua época. Seu legado vai muito além das pistas de rally: ele ajudou a consolidar a reputação da Saab como um fabricante inovador, independente e tecnicamente ousado.
Como curiosidade, muitos Saab 96 usados em regiões extremamente frias recebiam uma pequena cobertura parcial na grade dianteira durante o inverno rigoroso, permitindo que o motor mantivesse a temperatura ideal mesmo em temperaturas muito abaixo de zero.