1959 - SCIMITAR EX ALL-PURPOSE SEDAN
No final da década de 1950, a indústria automobilística vivia uma era de ousadia criativa quase sem limites. Fabricantes e estúdios de design competiam para apresentar conceitos futuristas, testar novas soluções de engenharia e explorar ideias que pudessem definir o automóvel das décadas seguintes. Foi nesse ambiente de experimentação que surgiu um dos veículos-conceito mais interessantes e pouco conhecidos da época: o Scimitar EX All-Purpose Sedan.
Diferentemente de muitos carros-conceito criados apenas para impressionar o público com formas extravagantes, o Scimitar EX possuía uma proposta extremamente prática. Seu desenvolvimento foi liderado pelo famoso designer industrial americano Brooks Stevens, uma das figuras mais influentes do design automotivo norte-americano do século XX. Stevens acreditava que os automóveis do futuro deveriam ser versáteis, adaptáveis e capazes de atender múltiplas necessidades familiares sem sacrificar conforto ou estilo.
O projeto fazia parte de uma série de três veículos-conceito conhecidos coletivamente como Scimitar, desenvolvidos para promover o uso do alumínio na construção automobilística. O financiamento veio da Olin Aluminum Corporation, que desejava demonstrar as vantagens do material em aplicações automotivas modernas. Os três carros foram apresentados ao público durante o Salão de Genebra de 1959, chamando atenção pela originalidade de suas soluções.
O All-Purpose Sedan era talvez o mais funcional dos três. Embora visualmente lembrasse uma elegante perua de luxo, seu conceito ia muito além do transporte convencional de passageiros. O veículo foi construído sobre um chassi do Chrysler New Yorker, utilizando o poderoso motor V8 Chrysler de 413 polegadas cúbicas (6.7 litros) e a transmissão automática TorqueFlite, combinação que garantia desempenho compatível com os grandes automóveis americanos da época.
A carroceria foi produzida pela tradicional empresa alemã Reutter Karosserie, em Stuttgart, utilizando extensivamente painéis de alumínio. O resultado era uma estrutura relativamente leve para as dimensões do veículo, além de servir como vitrine tecnológica para o material promovido pela Olin.
Visualmente, o Scimitar EX refletia plenamente o espírito estilístico do final dos anos 1950. A dianteira possuía linhas dramáticas, com uma grade marcante e superfícies esculpidas que lembravam algumas das propostas mais ousadas da época. As laterais exibiam um desenho ascendente inspirado na forma de uma cimitarra - espada curva do Oriente Médio que acabou dando nome ao projeto. A combinação de superfícies metálicas anodizadas e áreas pintadas reforçava ainda mais sua aparência futurista.
Mas o elemento realmente revolucionário encontrava-se na traseira. Brooks Stevens criou um sistema de teto deslizante sobre a área de carga. Quando aberto, esse painel permitia transportar objetos altos e volumosos, como móveis, eletrodomésticos ou equipamentos de trabalho, algo extremamente incomum para um automóvel familiar da época. Em essência, o conceito antecipava em décadas a ideia de veículos multifuncionais adaptáveis a diferentes necessidades do dia a dia.
A solução era tão inteligente que Stevens voltaria a utilizá-la alguns anos depois no famoso Studebaker Wagonaire, um dos automóveis de produção mais inovadores dos anos 1960. Décadas mais tarde, conceitos semelhantes reapareceriam em veículos utilitários modernos, demonstrando o quanto o Scimitar estava à frente de seu tempo.
Apesar da excelente recepção e da atenção recebida em exposições internacionais, o Scimitar EX All-Purpose Sedan nunca foi destinado à produção em série. Seu papel era servir como laboratório de ideias e demonstrar novas possibilidades para o automóvel familiar. Ainda assim, o conceito cumpriu perfeitamente sua missão ao influenciar projetos futuros e consolidar a reputação de Brooks Stevens como um dos designers mais criativos de sua geração.
Hoje, o Scimitar EX sobrevive como uma raridade histórica. Preservado em coleção museológica nos Estados Unidos, ele continua sendo admirado não apenas por sua aparência extravagante, mas principalmente por representar uma visão extremamente avançada do que poderia ser o automóvel familiar do futuro.