1947 - STANGUELLINI 1100 BERLINETTA BERTONE
Em 1947, com a Itália ainda reconstruindo-se das ruínas da Segunda Guerra Mundial e o automóvel voltando a ser sinônimo de esperança e inovação, Vittorio Stanguellini - herdeiro de uma família de mecânicos e pilotos modenenses - lançou um dos primeiros frutos de sua pequena, mas visionária, Automobili Stanguellini: o 1100 Berlinetta com carroceria Bertone. Produzido em números limitadíssimos a partir daquele ano (e evoluindo até o início dos anos 1950), o modelo representava o espírito da pequena indústria italiana: aproveitar o que havia de melhor no FIAT 1100 de produção em massa e transformá-lo em algo elegante, leve e competitivo.
Baseado no confiável FIAT 1100 (motor de 1.089 cm³, 4 cilindros em linha OHV, cerca de 51-60 cv dependendo da regulagem e do carburador), o Stanguellini usava um chassi tubular leve (em vez do chassi original do FIAT) e, em alguns casos, carroceria de alumínio opcional para reduzir o peso a impressionantes 720 kg (ou menos nas versões mais radicais). A carroceria Bertone - desenhada na nascente Carrozzeria Bertone de Giuseppe ‘Nuccio’ Bertone - era uma berlinetta de quatro lugares (ou drop-head coupé em raras variantes), com linhas fluidas, fastback sutil, janelas laterais e traseira de plexiglas, grade integrada e um perfil aerodinâmico que antecipava o estilo dos anos 1950. Construída em aço soldado (com opções em alumínio), a carroceria monocoque contribuía para a rigidez e leveza, permitindo que o pequeno motor empurrasse o carro a velocidades acima de 140-150 km/h - números que, na época, colocavam o Stanguellini à frente de muitos concorrentes mais pesados.
O carro era um grand tourer acessível para entusiastas ou um veículo de competição discreto: participava de provas como a Mille Miglia, onde sua agilidade, freios hidráulicos nas quatro rodas e suspensão (dianteira independente por molas helicoidais, traseira com eixo rígido e molas semi-elípticas) compensavam a modesta potência. Em 1947, o mesmo ano em que a Ferrari estreava seu F125 S, Stanguellini já vencia corridas com variantes esportivas derivadas, provando que Modena podia desafiar Maranello com engenhosidade e custo bem menor.
Produzido em quantidades mínimas - uma fração dos FIAT 1100 comuns -, o 1100 Bertone era encomendado por quem buscava exclusividade pós-guerra: linhas italianas refinadas, mecânica robusta e a sensação de estar pilotando o futuro. Alguns exemplares recebiam cabeçotes especiais twin-cam de alumínio (desenvolvidos pela própria Stanguellini), elevando a potência e o caráter esportivo.
Quase oitenta anos depois, um Stanguellini 1100 Berlinetta Bertone de 1947 continua a ser um testemunho vivo da resiliência italiana. Em meio à escassez de materiais e à urgência da reconstrução, Vittorio Stanguellini e Bertone criaram não apenas um carro, mas um símbolo: o de que a paixão automotiva podia florescer mesmo nas condições mais adversas. Um clássico modesto, elegante e pioneiro - a berlinetta que ajudou a reacender o motor da Itália sobre rodas.