1910 - STEVENS-DURYEA MODEL XXX RUNABOUT ROADSTER
No início da década de 1910, os automóveis ainda eram máquinas reservadas a uma pequena parcela da sociedade. A maioria dos fabricantes produzia veículos grandes, pesados e voltados ao transporte familiar ou executivo. Foi justamente nesse cenário que a Stevens-Duryea apresentou um dos modelos mais elegantes e esportivos de sua história: o Model XXX Runabout Roadster de 1910.
O automóvel representava a interpretação mais leve e dinâmica da linha Stevens-Duryea naquele período. Enquanto os luxuosos modelos Touring e Limousine da marca buscavam conforto e prestígio, o XXX Runabout Roadster era destinado aos entusiastas que desejavam uma experiência de condução mais direta e esportiva, algo relativamente raro nos Estados Unidos daquela época.
Visualmente, o Model XXX era um verdadeiro símbolo da chamada Brass Era americana, período em que os automóveis exibiam componentes externos em latão polido. O radiador vertical, os grandes faróis a acetileno, as lanternas laterais e diversos detalhes metálicos brilhavam intensamente sob a luz do sol, conferindo ao carro uma aparência quase aristocrática.
A carroceria Runabout Roadster era relativamente compacta para os padrões da época. O modelo acomodava três passageiros e possuía linhas mais leves do que os grandes automóveis de turismo da marca. Seu perfil era dominado pelo longo capô, pelos grandes para-lamas separados e pela posição elevada dos ocupantes, que observavam as estradas a partir de uma espécie de plataforma aberta sobre o chassi.
Sob o capô encontrava-se um refinado motor de 4 cilindros em linha com pouco mais de 5.2 litros de deslocamento. A potência era estimada em cerca de 24 cv pelo método de classificação da época, embora a potência efetiva fosse superior aos números oficialmente divulgados. O propulsor era acoplado a uma caixa manual de 3 velocidades e utilizava transmissão final por eixo cardan, uma solução considerada moderna e sofisticada em comparação aos sistemas por correntes ainda utilizados por muitos concorrentes.
Um dos aspectos mais interessantes do Model XXX era justamente sua proposta de desempenho. Embora não fosse um carro de corrida, ele possuía uma relação peso-potência bastante favorável para 1910. A Stevens-Duryea buscava oferecer um automóvel rápido, ágil e confiável para longas viagens, algo que combinava perfeitamente com a crescente cultura automobilística americana daquele período.
O chassi utilizava suspensão por feixes de molas semi-elípticas e freios mecânicos atuando principalmente sobre as rodas traseiras e sobre a transmissão. Como praticamente todos os automóveis da época, dirigir exigia habilidade considerável. O condutor precisava dominar técnicas de troca de marcha, controle de ignição e ajustes mecânicos constantes durante a viagem. Ainda assim, os Stevens-Duryea eram considerados alguns dos carros mais refinados e fáceis de conduzir disponíveis no mercado americano.
O interior refletia a elegância característica da marca. O grande volante de madeira, os bancos revestidos em couro e os instrumentos montados diretamente sobre o painel criavam um ambiente simples, mas extremamente sofisticado para a época. Não havia praticamente nenhuma proteção contra o vento ou intempéries, algo considerado normal em uma era em que dirigir ainda era encarado como uma aventura.
A exclusividade sempre foi uma característica central da Stevens-Duryea, e isso se aplica perfeitamente ao Model XXX. A produção foi extremamente limitada e poucos exemplares sobreviveram ao longo do século XX. Atualmente acredita-se que existam apenas cerca de três unidades conhecidas do Model XXX Runabout Roadster, tornando-o um dos Stevens-Duryea mais raros já preservados. Alguns exemplares passaram décadas em coleções particulares e apareceram ocasionalmente em grandes eventos de automóveis históricos e leilões especializados.
O modelo também ocupa uma posição interessante na evolução da própria marca. Ele surgiu justamente quando a Stevens-Duryea estava consolidando sua reputação como fabricante de automóveis de luxo de alto desempenho. Poucos anos depois, entretanto, o mercado americano começaria a mudar radicalmente com a ascensão da produção em massa liderada pelo Ford Model T. Automóveis artesanais e caros como o Model XXX passariam gradualmente a representar uma filosofia que estava desaparecendo.
Muitos historiadores consideram o Stevens-Duryea Model XXX um dos equivalentes americanos dos elegantes roadsters esportivos europeus da mesma época. Em uma era dominada por enormes carros de turismo, ele oferecia uma experiência mais leve, rápida e voltada ao prazer de dirigir. Talvez por isso os raríssimos exemplares sobreviventes sejam tão valorizados hoje: eles representam um momento em que o automóvel ainda era uma combinação fascinante de aventura, engenharia artesanal e luxo mecânico.