1920 - STUTZ SERIES H ROADSTER
Se muitos automóveis do início do século XX ainda lembravam carruagens motorizadas, os modelos da Stutz já apontavam para algo diferente. Desde sua criação em 1911, o fabricante de Indianapolis construiu sua reputação produzindo carros rápidos, esportivos e sofisticados, destinados a uma clientela que desejava mais do que simples transporte. Seu lema publicitário - “The Car That Made Good in a Day” - nasceu após o surpreendente desempenho de um Stutz na primeira participação da marca nas 500 Milhas de Indianapolis, ajudando a transformar a empresa em um dos fabricantes mais prestigiados dos Estados Unidos.
Em 1920, a marca encontrava-se em um de seus melhores momentos. A Primeira Guerra Mundial havia terminado, a economia americana crescia rapidamente e uma nova geração de compradores buscava automóveis capazes de combinar luxo, desempenho e estilo. Foi nesse contexto que surgiu o elegante Stutz Series H Roadster, um dos mais refinados esportivos americanos do período pós-guerra.
O Series H representava a evolução direta dos modelos esportivos que haviam consolidado a fama da Stutz durante a década de 1910. Embora compartilhasse parte de sua engenharia com o lendário Bearcat, o Roadster possuía uma proposta um pouco mais refinada. Enquanto o Bearcat era praticamente um carro de corrida para as ruas, o Roadster buscava oferecer maior conforto sem abrir mão do desempenho.
Visualmente, o automóvel era magnífico. Seu longo capô parecia não ter fim, enquanto a posição baixa da carroceria transmitia uma sensação de velocidade mesmo quando o carro estava parado. Os enormes para-lamas separados, as rodas raiadas, o radiador vertical e os faróis de grandes dimensões criavam uma presença imponente, típica dos esportivos de luxo americanos da época.
O coração do Series H era uma verdadeira obra-prima da engenharia americana. A Stutz havia abandonado os motores fornecidos por terceiros para desenvolver sua própria unidade de 4 cilindros. O resultado foi um sofisticado propulsor T-Head de aproximadamente 6.0 litros, equipado com quatro válvulas por cilindro e duplo comando lateral. Dependendo das fontes e dos métodos de medição utilizados na época, a potência variava entre 80 e 88 cv - números extraordinários para 1920.
Ainda mais impressionante era a construção do motor. O bloco era fundido em peça única, utilizava componentes reforçados e contava com ignição dupla em algumas configurações, características normalmente associadas a carros de competição. Graças a essa mecânica avançada, o Series H podia atingir velocidades superiores a 130 km/h em condições ideais, colocando-o entre os automóveis americanos mais rápidos de seu tempo.
Outro detalhe extremamente moderno era sua transmissão. O câmbio manual de 3 velocidades era montado próximo ao eixo traseiro, formando uma espécie de transaxle primitivo. Essa solução ajudava a distribuir melhor o peso e contribuía para a estabilidade do veículo, antecipando conceitos que décadas mais tarde seriam utilizados em diversos carros esportivos europeus.
O interior combinava esportividade e sofisticação. Os bancos revestidos em couro, os instrumentos montados sobre o painel metálico e o grande volante de madeira criavam uma atmosfera que lembrava os automóveis de competição da época. Diferentemente do Bearcat, entretanto, o Roadster possuía portas convencionais, capota mais prática e comandos posicionados dentro da carroceria, tornando-o mais adequado para viagens longas.
Seu preço refletia toda essa exclusividade. Um Stutz Series H Roadster custava aproximadamente 3.250 dólares em 1920, valor que o colocava muito acima da maioria dos automóveis americanos disponíveis no mercado. Enquanto um Ford Model T podia ser comprado por apenas uma fração desse valor, o Stutz destinava-se a empresários, esportistas, celebridades e membros da alta sociedade.
A produção da linha Series H alcançou cerca de 2.786 unidades em 1920, incluindo todas as variantes da gama. O Roadster foi fabricado em números muito menores e atualmente figura entre os modelos mais raros da história da marca. Alguns especialistas acreditam que os exemplares sobreviventes do Roadster sejam ainda mais raros do que certos Bearcat contemporâneos.
O Series H também marcou o fim de uma era para a própria Stutz. Poucos anos depois, a empresa iniciaria uma profunda transformação tecnológica que culminaria nos sofisticados modelos Vertical Eight da segunda metade da década de 1920. Ainda assim, muitos historiadores consideram os carros da Série H os últimos representantes da filosofia original criada por Harry C. Stutz: automóveis relativamente simples, extremamente rápidos e claramente inspirados pelo automobilismo.
Embora o lendário Bearcat costume receber toda a fama quando se fala nos esportivos da Stutz, muitos colecionadores consideram o Series H Roadster um automóvel ainda mais interessante. Ele preservava praticamente o mesmo desempenho e a mesma engenharia avançada do Bearcat, mas acrescentava refinamento, conforto e elegância suficientes para transformá-lo em um verdadeiro gran turismo americano dos anos 1920. Um carro capaz de cruzar longas estradas em alta velocidade quando a maioria dos automóveis ainda estava aprendendo a ser confiável.